Rombo ou investimento social? O peso do déficit da Previdência Rural na economia dos municípios

Dados do TCU apontam déficit de R$ 187,1 bilhões no setor, mas benefícios do INSS sustentam o comércio em milhares de pequenos municípios

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Trabalhadores rurais garantem aposentadoria por idade reduzida no campo, mas dependem cada vez mais de sistemas digitais para comprovar atividade (Foto: Ilustração, IA)

A Previdência Rural brasileira fechou 2024 com déficit de R$ 187,1 bilhões, após arrecadar R$ 9,8 bilhões e gastar R$ 196,9 bilhões no pagamento de benefícios, segundo dados do Tribunal de Contas da União (TCU). Apesar do rombo, os repasses do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) sustentam a circulação de renda em milhares de municípios do interior e superam a arrecadação local e os repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) em cerca de 70% das cidades brasileiras.

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Os valores movimentam mercados, farmácias, feiras e pequenos comércios, especialmente em regiões dependentes da agricultura familiar. Na prática, é possível dizer que o déficit da Previdência Rural sustenta pequenas cidades no Brasil.

FOTOS: O rombo que mantém cidades vivas no interior do Brasil

As regras que protegem o trabalhador da roça

A aposentadoria rural por idade continua sendo a modalidade mais usada pelos trabalhadores do campo. As regras permitem que homens solicitem o benefício aos 60 anos e mulheres aos 55, cinco anos antes das exigências aplicadas aos trabalhadores urbanos.

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Para conseguir a concessão, o segurado especial, categoria que inclui agricultores familiares, pescadores artesanais, indígenas e extrativistas, não precisa contribuir mensalmente ao INSS. Em vez disso, deve comprovar ao menos 15 anos de atividade rural efetiva.

Já quem alternou períodos de trabalho entre o campo e a cidade pode recorrer à aposentadoria híbrida, que soma os dois tempos de serviço. Nesse caso, porém, o trabalhador perde o direito à redução da idade mínima e passa a seguir as regras urbanas — 65 anos para homens e 62 para mulheres.

Dificuldades de conectividade no campo

Nos últimos anos, o processo de comprovação rural passou a depender mais das plataformas digitais do governo. Para períodos trabalhados até dezembro de 2022, o segurado precisa preencher a chamada Autodeclaração do Segurado Especial, validada por órgãos públicos ou entidades autorizadas.

Para atividades posteriores a janeiro de 2023, o sistema passou a cruzar automaticamente as informações pelo Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS).

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Entre os documentos aceitos estão contratos de arrendamento, notas fiscais de produtor rural, comprovantes do Imposto Territorial Rural (ITR), registros de imóveis, certidões antigas e históricos escolares de zonas rurais. Povos indígenas também podem apresentar certificações emitidas pela Fundação Nacional dos Povos Inígenas (Funai).

Apesar da modernização, muitos trabalhadores enfrentam dificuldades para digitalizar documentos antigos e acessar o sistema eletrônico do Meu INSS, principalmente em áreas afastadas.

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A forte presença da agricultura familiar nos municípios sulistas

Dados do Boletim Estatístico da Previdência Social mostram que o INSS concedeu mais de 1,19 milhão de benefícios rurais no último ano consolidado. O valor médio pago aos segurados ficou em R$ 1.524,25.

A região Sul concentra a maior parcela das aposentadorias rurais do país, com 46,3% do total nacional. Na sequência aparecem Nordeste, Sudeste, Centro-Oeste e Norte.

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O Rio Grande do Sul lidera o ranking estadual, com mais de 428 mil aposentados rurais, seguido pelo Paraná e Santa Catarina. Na outra ponta, estados da região Norte registram os menores volumes de beneficiários.

A dificuldade de documentar o trabalho informal

Relatórios do TCU apontam que a informalidade e a dificuldade documental ainda travam parte dos pedidos administrativos. Apenas 22% dos segurados conseguem comprovar todos os requisitos de forma imediata.

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Com isso, cresce o número de ações judiciais. Hoje, cerca de 34,8% das aposentadorias rurais são concedidas por decisão da Justiça, percentual acima dos 13,8% registrados nas aposentadorias urbanas.

Sindicatos viram ponte entre produtor e INSS

Diante da complexidade burocrática, sindicatos rurais e federações agropecuárias passaram a desempenhar papel central no acesso aos benefícios previdenciários.

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Entidades ligadas à Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) auxiliam trabalhadores na emissão de documentos, regularização cadastral e preenchimento de informações exigidas pelo governo. Em muitos casos, até a ficha de associado sindical é usada como elemento complementar de prova da atividade rural.

Enquanto o rombo previdenciário segue pressionando as contas públicas, economistas apontam que os pagamentos rurais continuam funcionando como mecanismo de sustentação econômica para milhares de pequenas cidades brasileiras, especialmente em regiões onde o mercado formal de trabalho é limitado e a renda agrícola depende das oscilações climáticas e das safras.

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*Com edição de Luiz Daudt Junior.