Apresentado sob protestos no Corinthians, Cuca se declara inocente e afirma: “Não sou bandido”

Motivo das manifestações contrárias é o caso de violência sexual registrado em Berna, na Suíça, em 1987, época em que o agora técnico era jogador do Grêmio

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Cuca foi apresentado como novo técnico do Corinthians pelo presidente do clube, Duilio Monteiro Alves (E), e o gerente de futebol, Alessandro Nunes (Foto: Reprodução, twitter, Corinthians)

Cuca foi apresentado como novo técnico do Corinthians pelo presidente do clube, Duilio Monteiro Alves (E), e o gerente de futebol, Alessandro Nunes (Foto: Reprodução, twitter, Corinthians)

A apresentação oficial do técnico Cuca no Corinthians não teve a abundância de sorrisos e o clima de entusiasmo habituais nesse tipo de cerimônia. Foi com constrangimento que o presidente do clube, Duilio Monteiro Alves, e o gerente de futebol, Alessandro Nunes, entregaram ao paranaense uma camisa alvinegra com o número 10.

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Do lado de fora do centro de treinamento alvinegro, no Parque Ecológico do Tietê, cerca de 200 torcedores protestavam. O grupo era majoritariamente formado por mulheres, como as participantes do coletivo “Loucas Por Ti Corinthians”, que se manifestavam contra a chegada do profissional de 59 anos.

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O motivo é o caso de violência sexual registrado em Berna, na Suíça, em 1987. Na ocasião, Cuca era jogador do Grêmio e foi detido ao lado de três companheiros. Julgado e condenado, não chegou a cumprir a pena estipulada para o crime, que prescreveu, mas o caso voltou à tona e vem provocando forte rejeição.

— Eu não sou do mal — afirmou o treinador, em uma entrevista na qual falou mais sobre 1987 do que sobre 2023. Bastante cobrado – relevante exceção é a organizada Gaviões da Fiel, que foi ouvida e aprovou a contratação -, Duilio nem sequer fez o protocolar discurso de boas-vindas ao comandante recém-chegado. Sentou-se e ouviu sua defesa.

— Eu não sou bandido — disse Cuca. — Não sou culpado de nada. Sou inocente. Tenho minha consciência tranquila, durmo tranquilo. Eu sou uma pessoa decente, acima de tudo. Minha bandeira sempre foi a correção — afirmou o técnico, enquanto torcedores empunhavam faixas com os dizeres “fora, Cuca” e “respeita as minas???”.

A tesoureira Priscila Clementino de Almeida, 36 anos, chamou a chegada do técnico no Corinthians de “inadmissível”. “O Corinthians nunca foi só futebol, e com essa contratação estão manchando completamente a história do clube e toda a sua luta social. Aqueles que escolheram estar ao lado dessa diretoria que em nada acerta são cúmplices. A hashtag #respeitaasminas é puro marketing”, esbravejou, agitada.

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Cuca foi acusado de violência sexual contra garota de 13 anos

Há 36 anos, além do então meia Cuca, foram detidos na Suíça, onde estava o time do Grêmio, o goleiro Eduardo, o zagueiro Henrique (que depois teria longa passagem pelo Corinthians) e o atacante Fernando. A acusação era de violência sexual contra uma garota de 13 anos no quarto em que estava o quarteto.

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— Subiu uma menina para o quarto em que eu estava com mais três jogadores. Eram duas camas de casal. Essa foi minha participação. Sou totalmente inocente — afirmou o ex-atleta, que pela primeira vez se dispôs a responder a uma série mais extensa de perguntas sobre o tema, mas declarou ter “uma lembrança muito vaga, porque faz muito tempo”. — O quarto era em [formato da letra] L. Você não sabe, você não vê — disse o técnico, que se apoia no fato de a garota não tê-lo reconhecido como um dos agressores. — O mais importante não é a palavra da vítima? Ela falou: “Eu não conheço, não vi, não estava”. Foram três vezes. A palavra da mulher era que o Cuca não estava lá. Como posso ser condenado? Pelo quê? — defendeu-se.

Mas foi. Liberado ao fim da fase de instrução no processo, Cuca voltou ao Brasil. No julgamento, teve sentença de 15 meses de prisão e pagamento de US$ 8.000, mesma pena aplicada a Henrique e Eduardo. Fernando foi considerado apenas cúmplice do ato – tratado à época, por Eduardo e Henrique, como consensual – e condenado a três meses de prisão, com multa definida em US$ 4.000. Cuca não foi à Suíça para se defender nem para cumprir a pena estipulada.

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— Eu era um quebrado, tinha 23 anos [24, na verdade], não tinha dinheiro para pegar o voo. Se eu pudesse voltar ao passado, iria lá. Pronto. Já estou absolvido — declarou o ex-meia, que jura ter ficado sabendo da condenação “coisa de um ano depois”.

O caso teve repercussão na imprensa, mas esfriou e não foi grande empecilho para a carreira de Cuca, que saiu do Grêmio em 1990 para jogar no Valladolid, da Espanha, e passou por outros grandes clubes, como Internacional e Palmeiras. Tornou-se treinador ainda mais vitorioso e tem na Copa Libertadores de 2013, com o Atlético Mineiro, seu maior título. Foi só nos últimos anos, na esteira de transformações na sociedade e no crescimento de feministas, que o episódio ressurgiu. E a rejeição ao paranaense cresceu.

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— Por que devo desculpa para a sociedade se eu não fiz nada? A vida passou quase 37 anos. Joguei aqui do lado, treinei vários times, nunca fui questionado. Nos últimos dois anos, a coisa mudou. O mundo mudou, de um jeito melhor, a mulher tem uma defesa muito maior, e sou parte disso, quero isso. Sou pai, sou marido, sou filho. Quero que as mulheres estejam cada vez mais protegidas — disse.

Segundo Cuca, seus dois erros ligados ao tema foram não ter se defendido no processo – que até hoje é de difícil acesso, pela lei de proteção de dados da Suíça e da sensibilidade do crime – e não ter falado mais sobre o assunto anteriormente. Na tarde de sexta-feira (21), falou bastante, ainda que não tenha sido exatamente esclarecedor.

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Em sua tensa entrevista de apresentação, só esboçou brevemente um sorriso ao recordar um lance de 2010, quando era técnico do Cruzeiro e se revoltou com a marcação de pênalti para o Corinthians, uma disputa entre Gil, hoje também no Corinthians, e Ronaldo.

— Não foi pênalti. Se bem que o Gil chegou aqui e falou que foi, né? Está bom, foi pênalti. Estou brincando.

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Logo voltou o semblante sisudo, apropriado para quem tem a missão de ajeitar um time problemático, sem a torcida ao seu lado.

— Estou energizado. Vou fazer um bom trabalho aqui. Tenho certeza e convicção de que vou fazer um bom trabalho aqui. Hoje, pode ter protesto, e eu vou passar por cima de tudo. Se tiver protesto, vou saber como passar por cima, mas de consciência tranquila. Isso é a maior coisa que um homem pode ter: saúde e paz. Você tendo isso, você dorme tranquilo. Eu durmo tranquilo, graças a Deus.

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*Por Marcos Guedes.

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