Ao chegar em Florianópolis, dizem os mais antigos, é preciso avisar que você chegou. Não para autoridades, nem para moradores, mas sim para elas: as bruxas da Ilha da Magia. Na cidade, há uma crença popular que atravessa gerações que diz que, para ter uma vida próspera na Ilha, é preciso anunciar a chegada às bruxas ao cruzar a ponte.

Continua depois da publicidade

É exatamente o que conta que fez a influenciadora Bruna Marini, que no ano passado se mudou de Caxias do Sul (RS) para a capital catarinense e enfrentou dificuldades em achar uma casa para alugar na cidade para morar com a namorada, dj Isabela Terra. Ela compartilhou o processo nas redes sociais, em vídeos que somaram mais de 500 mil visualizações no TikTok.

A procura só teve sucesso após alguns meses, quando Bruna resolveu pedir autorização às bruxas para morar em Florianópolis. Nas redes sociais, desta vez em um vídeo que acumulou milhões de visualizações, ela contou sobre “sinais” que recebeu dos seres mitológicos.

A busca por um lugar para morar em Florianópolis já durava semanas quando a influenciadora gaúcha começou a cogitar desistir. Ao lado da namorada, ela alugou uma casa temporária enquanto procurava um imóvel definitivo, de preferência no Sul ou no Leste da Ilha, em bairros como Campeche ou Lagoa da Conceição. Nenhuma das opções, no entanto, parecia se encaixar.

Com prazo apertado, a situação ficou ainda mais tensa. O casal teria que deixar o imóvel provisório até 2 de setembro e, até então, não havia encontrado uma nova casa. Foi no fim de agosto, durante uma viagem rápida de volta à cidade natal, que Bruna recebeu uma mensagem de uma seguidora que mudaria o rumo da história.

Continua depois da publicidade

A mulher contou ter passado por dificuldades semelhantes ao chegar à Ilha, mas que, no momento menos esperado, o imóvel certo simplesmente apareceu. “Se a ilha te quiser, a casa te encontra”, dizia o conselho, que ficou na cabeça da influenciadora.

Intrigada, Bruna decidiu pesquisar mais sobre as histórias que cercam Florianópolis. Foi então que se deparou com uma das lendas mais conhecidas da cidade, ligada ao imaginário açoriano: a das bruxas da Ilha da Magia. Segundo a tradição, essas figuras, que fariam parte do folclore local há séculos, teriam poder sobre quem chega, sendo responsáveis por “permitir” ou não a permanência na cidade.

Uma das versões da história conta que um grupo de bruxas teria sido transformado em pedra após desagradar o diabo, dando origem às formações rochosas da praia de Itaguaçu, no continente. (leia a lenda na íntegra ao fim da matéria)

Mas, para além da origem mítica, o que ainda circula entre moradores é a crença de que essas entidades seguem presentes, influenciando o destino de quem tenta se estabelecer na Ilha.

Continua depois da publicidade

Veja fotos das “bruxas de Itaguaçu”

Mesmo sem religião, Bruna decidiu fazer um gesto simbólico. Mentalmente, pediu permissão para ficar.

Poucos dias depois, já de volta a Florianópolis, uma sequência de situações chamou a atenção do casal. Todas as visitas a imóveis que estavam agendadas foram canceladas no mesmo dia. Sem compromissos, elas resolveram caminhar pela praia dos Ingleses, no Norte da Ilha.

Durante o passeio, Bruna conta que começou a pedir sinais. Primeiro, notou um barco com o nome “Isabela”, o mesmo da namorada. Em seguida, ao fazer um novo pedido em voz alta, viu o mar avançar repentinamente até alcançar o joelho das duas — mesmo sem que estivessem próximas da água.

Na dúvida, pediu mais um indicativo. Um poste próximo teria piscado. Momentos depois, ao repetirem o pedido, a cena teria se repetido com a água.

Continua depois da publicidade

No dia seguinte, o último antes do prazo final, o casal saiu com todos os pertences no carro, sem destino certo. Bruna decidiu ampliar a busca e passou a enviar mensagens para diversos anúncios de casas, sem muitos critérios. Entre as respostas, apenas uma veio com uma condição inusitada: a visita precisaria acontecer naquele exato momento.

Elas foram até o endereço e encontraram o imóvel onde vivem hoje. Segundo o proprietário, a casa estava fechada havia cerca de dois meses e só havia sido organizada naquele dia, pouco antes da visita.

Na última semana, Bruna publicou outro vídeo em que trata da situação com tom bem-humorado. Nele, ela fala sobre a “sensação de ser aceita depois de ter pedido permissão para as bruxas” para poder morar na Ilha da Magia. Assista:

Continua depois da publicidade

O vídeo viralizou, e soma mais de 217 mil visualizações na plataforma. Nos comentários, internautas compartilharam experiências parecidas: “Eu me senti assim também. Os perrengues que aconteceram no primeio ano pareciam coisa de filme. Ainda bem que elas me aceitaram”, escreveu uma moça. “Eu pedi assim que eu cheguei”, disse uma. “É desse jeito mesmo, amigas! Sensação divina”, comentou outra.

Leia na íntegra a lenda das bruxas de Itaguaçu

“Salão de Festas das Bruxas de Itaguaçu

Diz a lenda que as bruxas da região queriam fazer uma linda festa aos moldes da alta sociedade.
O local para o encontro festeiro seria a praia do Itaguaçu, o mais belo cenário da Terra. Todos seriam convidados, os lobisomens, os vampiros e as mulas-sem-cabeça. Os mitos indígenas também compareceram, entre eles estavam os curupiras, os caiporas, os boitatás e muitos outros. Em assembléia, as bruxas decidiram não convidar o diabo pela razão de seu imenso fedor de enxofre e pelas suas atitudes anti-sociais, pois ele exige que todas as bruxas lhe beijem o rabo como forma de firmar seu poder debochadamente absoluto.

A orgia se desenrolava, quando surge de surpresa o diabo que, entre raios e trovões, raivosamente irritado pela atitude marginalizante das bruxas, castiga todos transformando-os em pedras grandes, que até hoje flutuam nas águas do mar verde e azul da praia de Itaguaçu.

Daí o nome do lugar na língua dos indígenas:

ITA = PEDRA GUAÇU = GRANDE – PEDRAS GRANDES

Registrado por Gelci Jose Coelho -“Peninha””

Origem da lenda

Peninha, autor do texto acima que está exposto no “Salão de Festas das Bruxas de Itaguaçu”, foi um historiador, artista, pesquisador e museólogo que trabalhou por mais de uma década junto ao artista Franklin Cascaes. Ele se destacou no trabalho de conservação e proteção da cultura e folclore catarinense, e segundo o Fundação Catarinense de Cultura (FCC), foi o criador da lenda do Baile das Bruxas. O Mestre Peninha faleceu em março de 2023.

Continua depois da publicidade

Já o historiador e museólogo Francisco do Vale Pereira, integrante do Núcleo de Estudos Açorianos (NEA) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) afirma que a lenda foi um registro feito pelo folclorista catarinense Franklin Cascaes, que fez o trabalho de pesquisa e era nativo do bairro de Itaguaçu, e que depois Peninha deu uma interpretação própria para a narrativa.

— Essa essa lenda é uma recolha também feita por Franklin Cascaes, que fez as pesquisas dele e registrou isso. O Peninha fez todo um floreio, toda uma interpretação muito particular dessa lenda, mas a lenda originalmente foi realmente anotada, buscada, pesquisada por Franklin Cascaes, que era nativo, nasceu na praia de Itaguaçu, antigamente chamado bairro de João Pessoa, e que era do município de São José — detalha o historiador.