Em Lauro Müller, uma antiga lenda voltou a circular entre os moradores depois de uma descoberta curiosa. A história, que atravessa gerações, fala sobre uma família russa rica que teria vivido na região e morrido após uma doença. Segundo os relatos, todos foram enterrados com seus pertences em um local que ficou conhecido como “cemitério do russo”.

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O assunto ganhou novo fôlego recentemente, com a identificação de uma paleotoca, estrutura escavada por animais pré-históricos, que reacendeu o imaginário da comunidade. Para alguns moradores, o túnel pode esconder mais do que uma origem natural.

“Cemitério do russo” e os tesouros escondidos

— Dizem que cada família foi enterrada com todos os seus pertences. Quando descobrimos que tinha esse buraco, pensamos que o tesouro estava ali, era só pegar e seguir o caminho — relatou Simone Cattaneo Betti, moradora da propriedade onde a paleotoca foi encontrada.

Apesar de estudos indicarem que a estrutura foi feita por animais, há quem ainda levante outras possibilidades.

— Depois vieram os indígenas, os escravizados e os russos, né? Então eles poderiam ter usado essa toca para guardar muitas coisas — afirmou, rindo.

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Outra moradora também relembra histórias que circulam há gerações na comunidade, reforçando o mistério do local:

“Esse mistério nunca foi desvendado, uns falavam que guardavam ouro, outros que era moradia dos indígenas. O cemitério existia, a gente ia lá ver e tinha cruzes pequenas de ferro enferrujado”, escreveu.

O que dizem os estudos científicos

Para entender até que ponto essas narrativas encontram respaldo na ciência, o NSC Total conversou com o arqueólogo e historiador Juliano Bitencourt Campos, professor da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), ligado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCA) e ao curso de história.

— Há esses relatos da população local que eram feitos pelos indígenas, chamados de ‘bugres’ pela população local. Mas isso não procede, essas estruturas nunca foram feitas por seres humanos. Em algum momento da história, seres humanos podem sim ter ocupado esses espaços, mas como é ciência, a gente precisa de provas — disse.

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Campos também chama atenção para o uso do termo, considerado pejorativo. — Bugre é um termo utilizado para bicho do mato, pessoa sem roupas —. Os grupos indígenas que ocuparam a região pertencem ao povo Laklãnõ-Xokleng, do tronco linguístico Macro-Jê.

Segundo o pesquisador, embora existam evidências de ocupação humana antiga no Sul de Santa Catarina, com registros arqueológicos de cerca de 10 mil, isso não significa que todas as estruturas naturais tenham sido utilizadas dessa forma.

Ele cita como exemplo um caso comprovado na região: — Só temos uma paleotoca, localizada em Timbé do Sul, em uma propriedade particular que tem uma estrutura que nós podemos comprovar que populações humanas indígenas ocuparam aquele espaço. Mas não dá para afirmar se é uma ocupação de moradia ou de passagem rápida — apontou.

Nesse caso, a presença humana foi identificada por meio de gravuras rupestres, registros deixados em rochas que indicam a passagem de povos indígenas.

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Ainda assim, quando o assunto são histórias como a de Lauro Müller, o campo é outro. — Isso acaba ficando mais na possibilidade de história, são relatos que têm o seu valor, mas nada comprovado cientificamente — explicou.

Além do cemitério do russo, lendas semelhantes se espalham por outras cidades do Sul catarinense. Em Timbé do Sul, por exemplo, há relatos sobre franceses que teriam escondido tesouros na região. Já em Morro Grande, histórias populares falam sobre o fantasma de uma noiva.