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PRECISA SER MELHOR

Falta de estrutura do Aeroporto de Blumenau atrapalha serviços de saúde e aviação executiva

Quero-Quero aguarda obras básicas de cercamento e balizamento para operar adequadamente

07/10/2021 - 07h48 - Atualizada em: 07/10/2021 - 09h00

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Talita
Por Talita Catie
No último ano mais de 200 aeronaves passaram pela estrutura, segundo a prefeitura
No último ano mais de 200 aeronaves passaram pela estrutura, segundo a prefeitura
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A vocação do Aeroporto de Blumenau mudou, é verdade. O que era um espaço voltado a voos comerciais até o início dos anos 1990, deu lugar nas últimas duas décadas à aviação executiva e aos serviços aeromédicos, como resgates e transplantes. Com o passar dos anos, porém, a estrutura do Quero-Quero parece ter sido deixada de lado pelo poder público, sem obras básicas como cercamento e balizamento — o que permitiria pousos e decolagens à noite. Isso significa que, na prática, o aeroporto se tornou deficitário até mesmo para as virtudes que tem.

É fato que a proximidade com Navegantes, onde há voos internacionais, serve de justificativa para que o governo não invista numa estrutura de grande porte na cidade. Afinal, são apenas 45 quilômetros até lá pela BR-470, em processo de duplicação. Mas também é fato que o trabalho do Corpo de Bombeiros com o Arcanjo-03, bem como da equipe de transplantes é impactada com a falta de invetsimentos no Quero-Quero, inaugurado há 80 anos.

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— A decisão tomada pela prefeitura de Blumena é fazer com que, de momento, o aeroporto seja estruturado para que atenda com excelência no que entendemos ser sua vocação e assim fomente a aviação executiva, traga ainda mais voos utilizando a estrutura da cidade e, por consequência, acabe gerando receita e movimentação econômica para o município como um todo — afirma Alexandro Fernandes, secretário Municipal de Trânsito e Transportes.

Jorge Cenci recorda quando esteve à frente da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, em 2013, e recebeu a notificação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para fechamento da estrutura por falta de manutenção básica. Atualmente longe do poder público, o fundador da Senior Sistemas — uma gigante da TI na cidade — e presidente do Conselho Deliberativo do Hospital Santo Antônio fala sobre a necessidade de um olhar especial ao aeroporto sob a perspectiva dos empresários e da saúde pública. 

— A nível executivo, faz todo sentido e muito bem à cidade [ter um aeroporto regional estruturado], pois torna mais viável e fácil a relação de negócios. E no somar dos números, em algum momento, isso faz a diferença. E nós temos também a saúde, com os transplantes, o trabalho dos bombeiros. Temos toda a estrutura para receber esses pacientes aqui e daqui a pouco se negligencia por causa de um detalhe dessa natureza — frisa o empresário.

Hoje o aeroporto de Blumenau custa cerca de R$ 40 mil ao mês para prefeitura com o pagamento de funcionários e manutenção. Segundo o secretário Fernandes, metade dessa conta é paga com o dinheiro das próprias taxas dos voos registrados no aeroporto. É uma conta irrisória perto da importância social, profissional e econômica do espaço. Além disso, quanto mais infraestrutura receber, mais negócios atraia, o que gera receita aos cofres públicos. 

Andrey Tomazi é um estusiasta do Aeroporto de Blumenau
Andrey Tomazi é um estusiasta do Aeroporto de Blumenau
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Na visão do presidente do Comitê Pró-Aeroporto de Blumenau (Copraer), Andrey Tomazi, o aerporto precisa ser visto e entendido como modal, uma porta de entrada para o Vale do Itajaí. A percepção faz sentido. No último ano, 228 aeronaves diferentes passaram pelo Quero-Quero. Dados da Secretaria de Trânsito e Transporte apontam, atualmente, 39 hangaradas em Blumenau. São empresários que buscam facilidade de locomoção que as estradas nem sempre oferecem.

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Mas há um pórem: o fato de a pista estar liberada para pousos e decolagens apenas na luz dia impõe limitações de mobilidade, o que torna a cidade menos atrativa, como conta Tomazi:

— Havan é uma que ficou aqui cerca de sete ou oito anos, aí ficou insustentável por causa do balizamento e foi para Navegantes. Tinha um avião da Taschibra que aconteceu a mesma coisa. Eles querem operar noturno, e aqui não tem. Então acabam optando por outras pistas — exemplifica. 

O empresário presidente do Copraer é um apaixonado por aviação e acredita ser possível trazer à cidade os chamados voos regionais, aqueles com menores distâncias e que podem ser feitos por aeronaves mais compactas, com capacidade para cerca de 40 passageiros. Andrei acredita que com a estrutura do Quero-Quero adequada, as companhias vão manifestar interesse em operar algumas rotas. Mas por hora, defende a necessidade de avançar primeiro no cercamento e balizamento, urgentes e atrasados. 

O aeroclube de Blumenau, um dos primeiros criados em Santa Catarina e o segundo maior em formação de pilotos e comissãrios do Brasil, por exemplo, precisa levar os alunos para fazer aulas noturnas em Navegantes e Florianópolis, mesmo com uma pista à disposição bem ao lado.

É questão de salvar vida

Desde de outubro de 2015, quando chegou a Blumenau, o Arcanjo-03 já prestou mais de 3 mil atendimentos. Alguns desses, no fim da tarde. E na hora de voltar à base, o problema: falta de iluminação para dar segurança de pouso, aponta o major Hugo Manfrin Dallossi, subcomandante do Batalhão de Operações Aéreas do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina. 

Por si só é um problema expressivo, mas impacta sobretudo no transplante de órgãos, quando cada minuto faz a diferença no momento de salvar um paciente. Blumenau é referência nesse serviço, leva o título de Capital Catarinense de Transplantes e já precisou abrir mão de órgãos por causa das limitações impostas pela falta de infraestrutura do Quero-Quero. 

É o que conta o médico Frederico José Di Giovanni, do setor de transplantes do Hospital Santa Isabel, onde somente este ano já foram 144 procedimentos. 

Com uma vasta experiência nessa área, ele conta que Florianópolis teve o primeiro transplante de coração, em 30 de abril de 2008, justamente porque não havia como trazer órgão de Florianópolis, onde estava o doador, para Blumenau, onde estava a receptora. Era noite e chovia. Como o tempo máximo entre o explante e o implante deve ser de quatro horas, fazer o transporte por terra não era viável, mas também não tinha como pousar no aeroporto de Blumenau. 

Para não perder o órgão e salvar uma vida, a equipe conseguiu uma autorização especial, a paciente foi colocada numa UTI móvel e levada até Florianópolis para passar por cirurgia. Naquele dia deu certo, mas não é sempre assim e nem o ideal.

— Na hora que disponibiliza o órgão eu sento onde estiver e já começo a fazer os cálculos dos trajetos. Se eu não consigo, por exemplo, sair de Blumenau e tenho de sair do endereço mais próximo onde tem aeroporto, que é Navagentes, eu já coloco mais 50 minutos. Daí tem entrada no aeroporto, embarcar no avião, taxiamento. E eu tô indo para onde? Para Oeste, por exemplo, onde demora mais. O piloto me diz "é tranquilo, em uma hora estamos lá". Mas ele não contou Navagentes. E depois eu preciso fazer esse processo reverso. Tudo isso a gente soma, tenta de tudo, mas quando vê que não bate, nega [o órgão] e passa para outro Estado - relata.

O médico conta que sempre que um órgão é disponibilizado, na região que seja, a SC Transplantes fornece a aeronave para fazer o transporte. Mas antes de ir buscar, os cirurgiões precisam fazer a conta e ver se terá condições de trazer o órgao à cidade dentro do tempo estipulado para o procedimento. Sabendo das limitações do Quero-Quero, por vezes tentam ajustar o processo de explante para que seja quando o aeroporto de Blumenau está funcionando. Só que nem sempre a conta fecha.

— O transporte e o tempo influênciam diretamente no sucesso do transplante. Não basta ter um bom hospital, bom cirurgião, equipe excelente. Essa frase, inclusive, tinha que estar numa placa de bronze do Quero-Quero na reinauguração — afirma o cirurgião. 

O que é preciso fazer?

Os problemas do Quero-Quero são velhos conhecidos do poder público e a solução também. O governo do Estado, por exemplo, anunciou em setembro de 2019 o recurso para balizamento e cercamento, na ordem de R$ 4 milhões. O convênio com a prefeitura só foi assinado nove meses depois, em junho do ano passado. E as obras ainda não saíram do papel. O motivo da demora? A burocracia dos processos.

Atualmente, o projeto é tocado com a Secretaria de Obras e aguarda parecer jurídico da Procuradoria para começar a licitação da delimitação da área. Serão cerca de R$ 1,9 milhão com a construção do muro no entorno do aeroporto. O balizamento é mais lento, explica o secretário Michael Maiochi, pois passa por órgãos como a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Só depois da aprovação vai para licitação com custo estimado em mais R$ 3,8 milhões.

E não acaba por aí. Ainda é preciso fazer o recapeamento e reforço da pista, para comportar o peso das aeronaves. O valor da obra é estimado em R$ 5 milhões, vindo do Estado, conforme anunciado em abril. Esse já é um passo, inclusive, de olho na possibilidade de receber aviões um pouco maiores, aqueles dos voos regionais, que transportam cerca de 40 pessoas e podem fazer viagens mais curtas.

— Por conta do balizamento automaticamente você o classifica para aeronaves maiores. A gente está até ajustando para deixar gatilho para uma classe superior ainda. De repete alguém explora o aeroporto e se tem ele ativo comercialmente de novo — afirma Maiochi.

Ficha técnica

O Aeroporto de Blumenau, na Itoupava Central, foi inaugurado em 1941 e operou voos regulares até os anos 90. Com modernização das frotas aéreas, não foi mais possível manter as operações devido à limitação da pista, asfaltada em 1985. Hoje, atende voos executivos e aeronaves de pequeno porte. São 1.450 metros de comprimento da pista, sendo 1.080 homologados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Opera diariamente, das 7h até o pôr do sol, em condições visuais.

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