A trabalhadora doméstica resgatada de condições análogas à escravidão em Florianópolis permaneceu por cinco meses na residência do empresário Fabricio Saltini e de sua esposa, Nour Salem. Ela chegou ao imóvel, localizado em um condomínio no bairro Rio Tavares, em 9 de dezembro, e conseguiu fugir em 8 de maio.
Continua depois da publicidade
O caso repercutiu na última semana e um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) definiu que a trabalhadora, natural da Etiópia, receberia R$ 5 mil para custeio do retorno ao seu país de origem. O acordo também previa R$ 10 mil de indenização por dano moral individual à trabalhadora, e R$ 500 adicionais para despesas da viagem. Os valores foram pagos pelo casal à trabalhadora.
O casal reconheceu vínculo trabalhista apenas entre 13 de março a 8 de maio de 2026. O período de dois meses foi considerado no cálculo de recolhimento dos encargos sociais e cumprimento das normas relativas à jornada, descanso, pagamento de salários, férias, FGTS e demais direitos trabalhistas.
Veja fotos do casal denunciado
Casal já havia trazido outra trabalhadora estrangeira para Florianópolis
Durante a reunião de assinatura do TAC, Fabricio argumentou que ele e a esposa já haviam trazido outra trabalhadora estrangeira para Florianópolis. O Ministério do Trabalho e Emprego, contudo, não descobriu se a trabalhadora foi submetida a condições análogas à escravidão. Na ocasião, a trabalhadora permaneceu na residência durante dois meses, quando deixou o local.
Africana escravizada conseguiu fugir da residência
A trabalhadora de 34 anos conseguiu fugir da residência de alto padrão no início de maio, sem documentos e sem conseguir se comunicar em português. Quando conseguiu pedir ajuda com ferramentas de tradução, ela denunciou às autoridades ser submetida a jornadas exaustivas, retenção de documentos, violência psicológica e restrição de liberdade.
Continua depois da publicidade
Conforme o MPT, ela havia sido contratada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, por meio da empresa estrangeira Maids Domestic Workers Services L.L.C, e foi trazida por Fabricio e Nour ao Brasil, sem visto regular de trabalho.
Ao longo das investigações, MPT e Auditores-Fiscais constataram que a empregada doméstica era submetida a jornadas diárias das 7h às 22h30min, inclusive aos finais de semana. Além da limpeza e organização da casa, ela também era responsável pelo preparo de alimentos, cuidados com os filhos da família e atenção aos animais de estimação.
Às autoridades, ela disse que passou por episódios frequentes de violência psicológica, verbal e moral, incluindo gritos, ameaças, insultos, intimidações e tentativas de agressão física. Conforme os relatos da trabalhadora, os empregadores também retiveram seus documentos pessoais, incluindo o passaporte, limitando sua liberdade de locomoção e dificultando qualquer tentativa de buscar ajuda.
Após a fuga, a vítima foi acolhida inicialmente por profissionais da rede pública de segurança, saúde e assistência social. O atendimento contou com apoio do Espaço Acolher, do Escritório de Atenção ao Migrante, de intérprete intercultural e de equipe multidisciplinar devido à barreira linguística.
Continua depois da publicidade
Mesmo após deixar a residência, segundo os fiscais que atuaram no resgate, a mulher continuou recebendo mensagens intimidatórias e acusações falsas dos empregadores, incluindo alegações de furto de um cachorro da família. A trabalhadora também afirmou que os patrões condicionavam a devolução de seus documentos e pertences ao pagamento de supostas dívidas referentes a passagens aéreas, alimentação e emissão de visto.
Casal ostentava vida de luxo nas redes sociais
Fabricio nasceu no Brasil e se identifica nas redes sociais como sócio-gerente em uma empresa de imóveis de luxo de Dubai, nos Emirados Árabes. Em uma das postagens, ele aparece como corretor de um apartamento de luxo com valor superior a 21 milhões de dólares, o que equivale a R$ 104,5 milhões.
Em uma rede social, ele declara ter vendido “mais de US$ 1 bilhão em imóveis de luxo“. O homem também já foi citado na revista Arabian Business como uma das “lendas do mercado imobiliário”.
Já Nour Salem tem menos postagens nas redes. Em suas legendas, escreve em inglês e em árabe, sempre mostrando a rotina ao lado da família. Desde que o caso da trabalhadora doméstica foi revelado, nesta quinta-feira (21), usuários passaram a escrever comentários como: “Escravizar pessoas é crime” e “É verdade que você estava escravizando um mulher na sua própria casa?”.
Continua depois da publicidade
O NSC Total tentou contato com a empresa que Fabricio trabalha, em busca de um posicionamento, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria. A defesa do casal não foi localizada. O espaço segue em aberto.





