O empresário Fabricio Saltini, que mantinha uma trabalhadora doméstica natural da Etiópia em condições análogas à escravidão em Florianópolis, afirma já ter vendido “mais de US$ 1 bilhão em imóveis de luxo“. O homem possui negócios em Dubai, no Emirados Árabes Unidos, e já foi citado na revista Arabian Business como uma das “lendas do mercado imobiliário”.
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Nas redes sociais, ele e sua esposa, Nour Salem, ostentavam uma vida de luxo. A trabalhadora etíope, por outro lado, era submetida a jornadas exaustivas de 15 horas de trabalho, incluindo finais de semana. A mulher ficava em um condomínio fechado no bairro Rio Tavares, no Sul da Ilha, e acumulava diversas funções, além de sofrer ameaças e ter o passaporte retido.
Em uma publicação nas redes sociais, Fabricio aparece como corretor de um apartamento de luxo com valor superior a 21 milhões de dólares, o que equivale a R$ 104,5 milhões. Já Nour Salem tem menos postagens nas redes. Em suas legendas, escreve em inglês e em árabe, sempre mostrando a rotina ao lado da família.
Desde que o caso da trabalhadora doméstica foi revelado, na quinta-feira (21), usuários passaram a escrever comentários como: “Escravizar pessoas é crime” e “É verdade que você estava escravizando um mulher na sua própria casa?”.
O NSC Total tentou contato com Fabricio, em busca de um posicionamento, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria. A defesa do casal não foi localizada. O espaço segue em aberto.
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Veja fotos do casal que mantinha africana escravizada
Acordo de R$ 15 mil
Ainda nesta quinta-feira (21), o Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina firmou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com a família denunciada, onde o casal reconhece o vínculo de emprego doméstico da trabalhadora etíope entre o dia 13 de março a 8 de maio de 2026 e assumiu uma série de obrigações para adequação à legislação trabalhista, como registro formal do contrato, recolhimento dos encargos sociais e cumprimento das normas relativas à jornada, descanso, pagamento de salários, férias, FGTS e demais direitos trabalhistas.
As verbas preveem R$ 10 mil de indenização por dano moral individual à trabalhadora e R$ 5 mil para custeio integral do retorno ao local de origem, valor estimado para cobrir despesas de deslocamento, incluindo passagem aérea, transporte, alimentação, hospedagem e demais custos necessários. Para além disso, também prevê R$ 500 para despesas da viagem.
O casal também terá que regularizar os recolhimentos sociais referentes ao período trabalhado, por meio do eSocial ou diretamente junto ao INSS e apresentem os comprovantes ao Ministério Público do Trabalho. Se descumprirem, terão que pagar multas de R$ 1 mil por dia pelo não pagamento da indenização individual e penalidades de R$ 3 mil por cláusula descumprida em obrigações previstas no termo.
Trabalhadora fugiu da residência
A trabalhadora de 34 anos conseguiu fugir da residência de alto padrão no início de maio, sem documentos e sem conseguir se comunicar em português. Quando conseguiu pedir ajuda com ferramentas de tradução, ela denunciou às autoridades ser submetida a jornadas exaustivas, retenção de documentos, violência psicológica e restrição de liberdade.
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Conforme o MPT, ela havia sido contratada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, por meio da empresa estrangeira Maids Domestic Workers Services L.L.C, e foi trazida por Fabricio e Nour ao Brasil, sem visto regular de trabalho.
Ao longo das investigações, MPT e Auditores-Fiscais constataram que a empregada doméstica era submetida a jornadas diárias das 7h às 22h30min, inclusive aos finais de semana. Além da limpeza e organização da casa, ela também era responsável pelo preparo de alimentos, cuidados com os filhos da família e atenção aos animais de estimação.
Às autoridades, ela disse que passou por episódios frequentes de violência psicológica, verbal e moral, incluindo gritos, ameaças, insultos, intimidações e tentativas de agressão física. Conforme os relatos da trabalhadora, os empregadores também retiveram seus documentos pessoais, incluindo o passaporte, limitando sua liberdade de locomoção e dificultando qualquer tentativa de buscar ajuda.
Após a fuga, a vítima foi acolhida inicialmente por profissionais da rede pública de segurança, saúde e assistência social. O atendimento contou com apoio do Espaço Acolher, do Escritório de Atenção ao Migrante, de intérprete intercultural e de equipe multidisciplinar devido à barreira linguística.
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Mesmo após deixar a residência, segundo os fiscais que atuaram no resgate, a mulher continuou recebendo mensagens intimidatórias e acusações falsas dos empregadores, incluindo alegações de furto de um cachorro da família. A trabalhadora também afirmou que os patrões condicionavam a devolução de seus documentos e pertences ao pagamento de supostas dívidas referentes a passagens aéreas, alimentação e emissão de visto.




