Santa Catarina viveu na última semana uma situação chocante no âmbito da proteção dos direitos das crianças. Foram três casos de violência doméstica que envolveram vítimas com idades entre 2 meses a 4 anos de idade, sendo que dois deles resultaram em morte. Os crimes levantam o debate sobre a necessidade de ação por parte das entidades de proteção e questionamentos sobre possíveis falhas no sistema que deveria garantir a segurança dessas crianças. Com isso, a Defensoria Pública de Santa Catarina defende uma atuação conjunta dos atores da rede de proteção para propor novas ações.
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O primeiro caso aconteceu no domingo (17), e envolveu um menino de 4 anos de idade. Ele morreu após dar entrada no Multihospital, em Florianópolis, com suspeita de agressões e maus-tratos.
A mãe do garoto passou por audiência de custódia e foi liberada. O padrasto segue preso preventivamente. Em maio deste ano, o menino ficou 12 dias internado no Hospital Infantil Joana de Gusmão, na Capital.
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A unidade informou que na ocasião houve suspeita de violência familiar e que, por isso, ativou o protocolo de comunicação aos órgãos competentes. O Ministério Público também apura se houve falhas na rede que deveria ter prestado atendimento ao menino. Já a Prefeitura de Florianópolis vai investigar a atuação do Conselho Tutelar da Capital no caso.
Já na manhã de quarta-feira (20) uma bebê de oito meses deu entrada no Hospital Universitário Santa Terezinha, em Joaçaba, no Meio-Oeste, com diversas agressões. Ela passou por cirurgia, mas não resistiu.
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O laudo feito pela Polícia Científica confirmou que a bebê havia sofrido lesões, inclusive fraturas, que estavam em diferentes estágios de cicatrização, o que sugere agressões contínuas. A mãe, de 21 anos, foi ouvida pela Polícia Civil e negou que a filha tenha sofrido maus-tratos. O padrasto da menina também foi ouvido nesta quinta. Ninguém foi preso.
— Ele informou que há pouco tempo estava se relacionando com a mãe das crianças. Ela se mudou para a casa dele com os dois filhos. E ele saía para trabalhar, ela ficava em casa responsável pelas crianças. Mas ele não mencionou nenhum tipo de conduta por parte dela que pudesse resultar nas lesões e na morte da criança — relata Fernanda Gehlen, delegada da DPCAMI de Campos Novos.
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O irmão da bebê, de 3 anos, também teve uma lesão suspeita identificada. Ele foi encaminhado para um abrigo após passar por exames.
O Conselho Tutelar da cidade acompanha o caso. Em nota, o órgão informou que “recebeu denúncia anônima,” relatando que “a família vivia em situação de vulnerabilidade social;” e “que a genitora era negligente com os cuidados em relação à higiene dos filhos.”
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Também na quarta-feira, um homem foi preso em Caçador suspeito de maus-tratos contra a própria filha, uma bebê de apenas dois meses. A criança deu entrada no Hospital Maicé com diversas lesões e precisou ser transferida para Joaçaba devido à gravidade do quadro.
Ela tinha hematomas pelo corpo, além de fratura e sangramento no crânio. A irmã mais velha da bebê foi recolhida pelo Conselho Tutelar e encaminhada ao hospital para avaliação médica. Durante o atendimento, os pais da criança deram versões contraditórias sobre a origem dos ferimentos, o que levantou suspeitas da equipe de saúde.
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Defensoria Pública atua para retirar vítimas do ambiente de violência
Mariana Macêdo, defensora pública e coordenadora do Núcleo da Infância e Juventude, Direitos da Pessoa Idosa e da Pessoa com Deficiência, um dos diversos órgãos que atuam na proteção das crianças e adolescentes, explica como é a atuação da Defensoria em casos como esse.
— A Defensoria atua na defesa das vítimas, dessas crianças e adolescentes que são frutos de maus tratos dos pais. A nossa atuação acontece na via judicial. Então a gente atua em favor deles nos casos que envolvem medidas protetivas, nos casos que estão relacionados aos acolhimentos, aos pedidos de guarda por outros familiares, que têm interesse em tirar a criança, o adolescente daquele ambiente de violência — explica a defensora pública.
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A Defensoria atua, nesta semana, em diálogos com outros órgãos e entidades do sistema de garantias para tratar de políticas públicas e políticas de prevenção a fim de evitar casos como os registrados nos últimos dias. Esse tipo de medida integra as ações do Núcleo da Infância e Juventude, Direitos da Pessoa Idosa e da Pessoa com Deficiência, coordenado por Mariana.
Nos três casos específicos registrados em Santa Catarina nos últimos sete dias, a Defensoria Pública ainda não foi procurada. A defensora pública explica que é necessário que exista uma procura por parte dos familiares, por exemplo, para postular a guarda das crianças. No entanto, o órgão atua no diálogo com demais entidades para entender o contexto dos casos e verificar até o surgimento de outros registros.
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— A gente, enquanto instituição, fica transtornada. Eu particularmente entendo que é inaceitável, qualquer tipo de exposição, de violência dessas crianças dentro do próprio lar — declara Mariana.
Defensoria prevê atuação conjunta
A atuação da Defensoria Pública diante deste quadro é contínua, com ações nas frentes de educação e campanhas de conscientização. Mariana afirma que são realizadas ações em escolas estaduais e municipais para conversar com as crianças no intuito de auxiliá-las a identificarem que estão sendo vítimas de violência. Ainda, o órgão atua com professores e educadores.
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Porém, diante dos casos que vieram à tona na última semana e chocaram a sociedade catarinense, a defensora pública defende uma atuação conjunta dos atores da rede de proteção, que devem dialogar de maneira integrada para propor novas ações.
— Eu tenho mantido contato com o Conselho Tutelar, com o Conselho de Direitos da Criança e do Adolescente, para gente promover um encontro e tratar disso em conjunto para poder ter uma resposta mais rápida para a própria sociedade. Seja através da mobilização de uma campanha, de mais capacitações para os responsáveis, dos servidores que atuam com essas famílias, para eles identificarem melhor, mapearem melhor — detalha a defensora.
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A mobilização já acontece por parte da Defensoria Pública para que essa resposta seja planejada e executada o quanto antes. Um encontro deve ser agendado entre os órgãos de proteção e de garantia de direitos para definir estratégias de forma interinstitucional e intersetorial.
Houve falha no sistema de proteção?
O caso do menino de 4 anos morto em Florianópolis, em especial, levantou dúvidas sobre possíveis falhas na rede de proteção a crianças e adolescentes. Ainda em maio, a criança foi internada no Hospital Infantil Joana de Gusmão com suspeita de maus-tratos, informação que constava no prontuário do menino.
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O médico relatou que, segundo a mãe, uma situação parecida tinha acontecido um mês antes. Ela também afirmou que naquele dia o menino ficou sob responsabilidade do padrasto, e que estava “torcendo para que o diagnóstico não fosse de agressão”.
Ainda na época, o Conselho Tutelar, que faz parte da rede de proteção, foi acionado e um boletim de ocorrência foi registrado pela mãe. Porém, o Ministério Público e o Poder Judiciário não foram informados sobre o caso. Mariana acredita que o sistema de proteção falhou para se chegar a esses casos extremos, com agressões e até mortes.
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— Sim, existiu com certeza uma falha para chegar nesse ponto. Primeiro a gente tem que entender a corresponsabilidade. A própria Constituição, as leis falam que é o Estado, a família e a sociedade que são responsáveis pelas crianças e pelos adolescentes. Mas aí o que a gente percebe enquanto instituição é que na parte da responsabilidade da sociedade ainda está muito tímida essa compreensão — detalha a defensora pública.
Ela destaca questões de vivências culturais, tanto no âmbito coletivo quando do próprio cidadão, de entender que ele possui a capacidade e obrigação de denunciar e levar adiante casos como esse. Ainda, o ambiente escolar, comunitário, o Conselho Tutelar e outros atores precisam atuar de forma conjunta em prol da proteção dessas crianças.
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— Então eu percebo que também está faltando algum tipo de conscientização, reforçar a ação desses desses atores e atrizes, que também que atuam diretamente com essas situações que envolvem crianças, né, vítimas de violência — explica.
MP diz que atua de forma contínua preventiva
Em nota, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) informou que vem atuando de forma contínua e preventiva na defesa dos direitos de crianças e adolescentes. Uma Ação Civil Pública foi movida pelo MP em maio deste ano, na qual a entidade obteve sentença favorável para obrigar o Município de Florianópolis a implantar um quinto Conselho Tutelar – medida essencial para adequar a estrutura aos parâmetros do Conanda (um conselho para cada 100 mil habitantes). A decisão, da qual o município recorreu, visa diretamente a ampliar a capacidade de atendimento e evitar falhas na proteção.
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Além disso, a 9ª Promotoria de Justiça da Capital tem atuado judicialmente para melhorar a estrutura dos quatro Conselhos Tutelares existentes, com foco na contratação de profissionais de Psicologia e Serviço Social e na criação de dois Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS). Essas medidas têm impacto direto na identificação precoce e no enfrentamento de situações de violência contra crianças e adolescentes.
O promotor Mateus Minuzzi Freire da Fontoura Gomes, coordenador do Centro de Apoio Operacional da Infância, Juventude e Educação (CIJE) do MPSC, lembrou a importância de a sociedade recorrer aos canais adequados: a Polícia Civil, a Polícia Militar ou as Delegacias especializadas para casos de agressão física; e as Promotorias de Justiça, o Conselho Tutelar ou o Disque 127 (Ouvidoria do MPSC) para situações de negligência.
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— Quem denuncia salva vidas — destaca.
O MPSC também informou que os casos recentes estão sendo acompanhados pelas Promotorias de Justiça das comarcas envolvidas e que a 9ª Promotoria de Justiça da Capital já iniciou apurações para verificar possíveis falhas no atendimento ao menino de 4 anos, vítima fatal em Florianópolis.
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