Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto de Pesca de São Paulo identificou, pela primeira vez no Brasil, a presença da bactéria Citrobacter telavivensis em amostras de ostras frescas comercializadas em mercados de São Paulo e Santa Catarina. O achado, divulgado em agosto de 2025, acende um alerta sobre a circulação de bactérias resistentes a antibióticos na cadeia alimentar. A informação repercutiu na quinta-feira (4), após publicação no site The Conversation.
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Segundo os pesquisadores Leonardo Vazquez e Ana Lúcia do Amaral Vendramini, nenhuma das amostras analisadas foi reprovada pelos critérios de inspeção sanitária atualmente em vigor no país, o que, segundo eles, evidencia uma lacuna entre os protocolos tradicionais de segurança alimentar e o avanço da resistência antimicrobiana no ambiente.
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Um problema global em expansão
A resistência antimicrobiana é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma das dez maiores ameaças à saúde pública mundial. Em relatórios recentes, a OMS vem alertando para o aumento contínuo de infecções resistentes a antibióticos e para o risco de retorno a uma era pré-antibiótica.
Em 2025, o sistema global de vigilância da OMS apontou que uma em cada seis infecções bacterianas já apresenta resistência a tratamentos convencionais, tendência que se intensifica desde a última década.
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Ostras como “sentinelas” do ambiente marinho
No centro da pesquisa estão as ostras — organismos filtradores que acumulam substâncias presentes na água, incluindo microrganismos, resíduos químicos e poluentes.
Por essa característica, elas funcionam como indicadores da qualidade ambiental. O estudo identificou não apenas Citrobacter telavivensis, mas também cepas de Klebsiella pneumoniae e Escherichia coli com resistência a antibióticos de última geração.
Em parte das amostras, foram encontradas ainda concentrações de arsênio acima dos limites considerados seguros, o que, segundo os autores, pode contribuir para um processo de “co-seleção” de resistência: a combinação de poluição química e uso de antibióticos favorece a sobrevivência de microrganismos mais resistentes.
Falhas na vigilância sanitária
Os sistemas de inspeção alimentar utilizados no Brasil e em outros países seguem protocolos internacionais como HACCP e Boas Práticas de Fabricação. Eles são eficazes para detectar contaminações clássicas, como Salmonella e Listeria, mas não avaliam o perfil de resistência antimicrobiana das bactérias presentes nos alimentos.
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Na prática, isso significa que alimentos podem estar dentro dos padrões legais de segurança e ainda assim carregar microrganismos resistentes a antibióticos — um tipo de risco que não era considerado quando esses protocolos foram criados.
Os dois especialistas, Leonardo e Ana Lúcia, apontam que essa defasagem regulatória se tornou mais evidente com o avanço da resistência antimicrobiana em ambientes não hospitalares, incluindo o meio ambiente e a produção de alimentos.
Biofilmes e persistência bacteriana
Outro fator crítico destacado pela literatura científica é a formação de biofilmes — estruturas em que bactérias se agrupam e desenvolvem maior resistência a antibióticos e desinfetantes.
Dentro desses biofilmes, microrganismos podem se tornar até mil vezes mais resistentes do que em estado livre, dificultando sua eliminação em plantas de processamento de alimentos.
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Pesquisas recentes também investigam alternativas biotecnológicas para combater essas estruturas. Entre elas, enzimas capazes de degradar biofilmes têm mostrado resultados promissores em laboratório, embora ainda não tenham aplicação em escala industrial.
Impactos além da saúde pública
O avanço de superbactérias na cadeia alimentar não representa apenas um risco sanitário. O setor de exportação de pescado pode ser diretamente afetado, já que mercados como União Europeia e Estados Unidos exigem padrões rigorosos de controle microbiológico e de resistência antimicrobiana.
Isso coloca pressão adicional sobre países produtores para modernizar seus sistemas de vigilância, incorporando o monitoramento da resistência bacteriana em alimentos de origem marinha.
Um desafio estrutural
O estudo reforça que a resistência antimicrobiana não é mais um problema restrito a hospitais. Ela está presente em diferentes pontos do ambiente — da água ao alimento, passando pela produção animal e pelo descarte de resíduos.
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Pesquisadores defendem que o enfrentamento do problema exige uma abordagem integrada, envolvendo regulação ambiental, uso racional de antibióticos na agropecuária, modernização da vigilância sanitária e investimento em novas tecnologias de controle microbiológico.
Sem isso, alertam os dois, a cadeia alimentar pode se tornar um dos principais vetores silenciosos da disseminação global de superbactérias.






