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Balneabilidade da Lagoa da Conceição gera dúvidas três meses após vazamento

Rompimento de estação de tratamento de efluentes inundou parte do bairro em janeiro

25/04/2021 - 06h46 - Atualizada em: 25/04/2021 - 06h47

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Catarina
Por Catarina Duarte
Estrutura usada pela Casan rompeu e efluentes inundaram a Lagoa da Conceição
Estrutura usada pela Casan rompeu e efluentes inundaram a Lagoa da Conceição
(Foto: )

O barulho foi confundido com o da chuva. Pablo e Graziela já haviam despertado, mas seguiam deitados quando o som da água correndo se intensificou. “Será um cano rompido?”, perguntou Pablo à esposa, que sem saber o que dizer resolveu levantar da cama. Naquele momento o chão da casa já estava tomado por uma lâmina de sujeira. Em poucos minutos o que era uma poça se tornou inundação, ocupando todos os cômodos e abalando permanentemente a estrutura da casa em que a família Zimmer vivia há 14 anos.

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Loteado no Leste da Ilha, o casal é um dos moradores da Servidão Manoel Luiz Duarte, na Lagoa da Conceição, em Florianópolis. As mais de 60 famílias que ali moravam foram as primeiras afetadas pelo lodo que partiu da estação de evapoinfiltração da Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan). Era uma segunda-feira, dia 25 de janeiro de 2021. Na terça-feira, 26, o corpo de água que dá nome ao bairro teve seis dos nove pontos d extensão considerados impróprios para o banho.

A pesca foi desaconselhada no mês seguinte, após espécies aquáticas aparecerem mortas em grande quantidade. Três meses após o rompimento, a balneabilidade da Lagoa ainda provoca dúvidas entre moradores e pesquisadores. O cheiro podre que tomou o bairro por semanas segue na lembrança olfativa de Bruno Negri. Presidente da Associação dos Moradores da Lagoa da Conceição (Amola), ele pede uma ação de monitoramento mais efetiva na região. Negri diz que o bairro entristeceu, com o turismo e o comércio afetados.

– Hoje se você chega na Lagoa, você vê um bairro triste. Têm cruzes fincadas, faixas de protesto. A comunidade está indignada – comenta o presidente da Amola.

A restrição ao banho e a pesca foi retirada pelos órgãos ambientais estadual e municipal em 3 de março. Na data, cinco dos nove pontos avaliados eram considerados próprios. Até mesmo o ponto 61, o mais próximo da Servidão Manoel Luiz Duarte. Apenas mais um relatório de balneabilidade foi elaborado pelo Instituto do Meio Ambiente (IMA) deste então. Os dados publicados no dia 9 de março mostram que o ponto 61 voltou a ficar impróprio e foi um dos seis novamente nesta condição. As coletas foram suspensas pelo IMA em função do agravamento da pandemia e ainda não foram retomadas.

Morte da vida marinha e maré marrom

Uma lagoa de evapoinfiltração é uma unidade que faz parte um sistema de tratamento de esgoto. Depois de tratado, o efluente retorna à natureza e pode alimentar o lençol freático. Com o deslizamento da encosta de dunas, o efluente contido no local tomou a Servidão Manoel Duarte, passou pela Avenida das Rendeiras e chegou a água da Lagoa da Conceição.

Segundo relatório da Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram) elaborado com material coletado no dia seguinte ao deslizamento das dunas, o efluente tinha quantidades de fósforo e nitrato dentro dos parâmetros estabelecidos pela legislação.

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Contudo, para o oceanógrafo e também pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Paulo Horta, ainda é necessário uma avaliação mais precisa do que estava presente no efluente da Casan. Segundo Horta, esse levantamento é fundamental para a garantia de segurança sanitária e alimentar:

– Além do efluente riquíssimo em nitrogênio e fósforo, que são nutrientes, tínhamos ali um material que tinha muita matéria orgânica. Isso é o que nós já sabemos. O que ainda não se sabe é qual era a presença de metais pesados e outros poluentes que são conhecidos como emergentes (hormônios, medicamentos, etc) – afirma.

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Membro do projeto Ecoando Sustentabilidade, Horta também fez coletas da água da Lagoa após a tragédia. Em março, a equipe constatou a presença da maré marrom pela primeira vez na região. O aparecimento de microalgas foi, segundo o grupo, resultado da combinação de condições de salinidade e oceanográficas combinadas com elevada carga de nutrientes e a estagnação das águas.

Paulo diz que a Lagoa da Conceição teve três momentos, que junto ao rompimento da Casan, provocaram uma crise. Foram eles uma onda de calor, a floração de algas que causaram a maré marrom e a baixa oxigenação da água. Esses fatores podem ter contribuído para a morte de diversos animais aquáticos na verificada em março.

Recuperação é acompanhada por pesquisadores

O monitoramento da balneabilidade da Lagoa da Conceição é acompanhado por pesquisadores da UFSC e por um grupo de trabalho da Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis (Floram). O órgão municipal fiscaliza o Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD) elaborado e executado pela Casan. 

Segundo a Floram, das ações previstas pelo PRAD é feito o monitoramento da água, sedimento e da fauna e flora na região, que será acompanhado por um ano. O prazo pode ser estendido. Além disso, o plano prevê a recomposição da vegetação nativa na área de dunas que será feita por três anos.

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A Casan também estabilizou o talude – terreno que segurava a estrutura – de forma emergencial. Por meio de nota, a empresa afirmou que trabalha na recuperação das casas e na assistência psicológica e médica aos afetados. Três editais foram publicados até o momento para fins de ressarcimento de danos materiais e para despesas emergenciais. Um quarto documento está com cadastro aberto até o dia 30 de abril.

Segundo a Casan, foram pagos até o momento R$ 2,2 milhões em indenizações. Deste valor, a empresa diz que R$ 163.937,25 foram destinados ao pagamento do benefício emergencial para 55 famílias. O dinheiro era pago em parcela única de R$ 10 mil por família. O restante do valor está sendo pago aos cadastrados no edital para o ressarcimento de bens materiais. De acordo com a empresa, 74 pessoas solicitaram os valores e 28 processos foram concluídos

Outro ponto do PRAD que já foi cumprido, segundo a Floram, foi a limpeza da área afetada por meio da retirada dos resíduos sólidos e entulho.

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Muito do que do foi chamado de entulho, para os moradores da Servidão Manoel Duarte era sua memória. Perderam os registros dos primeiros anos dos filhos, fotos de casamentos, aniversários e formaturas. 

Tudo foi inundado pela lama de sedimentos. Pablo Zimmer lembra que quando teve a casa tomada por uma enchente em Blumenau, conseguiu salvar as imagens da família da água. Com a limpeza, porta-retratos foram recuperados. Já na tragédia de janeiro em Florianópolis, o efluente que veio da estrutura da Casan corroeu até as imagens e levou parte da memória.

Alternativas como a da Beira-Mar Norte

Há dois anos a prefeitura de Florianópolis anunciou um sistema para despoluição de um trecho de mais de três quilômetros da Beira-MarNorte, na região central da cidade. Com investimento de R$ 18 milhões, se tinha a expectativa de que com o tratamento o banho fosse liberado depois de décadas. O equipamento funciona até hoje, mas o relatório de balneabilidade feito pelo IMA considera o local impróprio. Além da unidade central, outras 15 unidades foram distribuídas ao longo da orla.

À NSC TV, a Casan informou que mais de 7 bilhões de litros de esgoto foram recuperados desde que a unidade começou a funcionar. O montante equivaleria a 2.849 piscinas olímpicas que deixaram de contaminar o mar. Mais de 600 toneladas de resíduos também foram retiradas do local. Mesmo com as melhorias, o banho de mar ainda não é aconselhado.

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De janeiro a março deste ano, o IMA recolheu 10 amostras de água da Beira-Mar Norte e apenas duas foram consideradas próprias. Ambas foram retiradas do mesmo ponto. A Casan atribuiu as diferenças de resultados às chuvas e não dá prazo para tornar a Beira-Mar Norte balneável. O professor Paulo Horta diz que a Lagoa da Conceição guarda problemas semelhantes aos da Beira-Mar, mas acredita que o trabalho que deve ser feito na região Leste da Ilha deve seguir outro caminho.

– Nós acreditamos que as soluções para a Lagoa devem se colocar numa posição de vanguarda e que de fato tenha eficiência naquilo que se propõe. Essas soluções são diversificadas e complexas. Não podemos de maneira nenhuma vender facilidades – comenta.

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