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    Litoral Norte 

    Canal do Linguado em São Francisco do Sul volta ao debate com a duplicação da BR-280 

    Trecho é a única ligação rodoviária e de linha férrea entre o continente, a Ilha e o Porto de São Francisco  

    29/06/2019 - 11h45 - Atualizada em: 29/06/2019 - 12h09

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    Luan
    Por Luan Martendal
    Discussão sobre os impactos ambientais ao abrir o Canal do Linguado se arrasta há décadas
    Discussão sobre os impactos ambientais ao abrir o Canal do Linguado se arrasta há décadas
    (Foto: )

    O avanço das discussões em torno do andamento das obras de duplicação da BR-280 no Norte de Santa Catarina reacende outro tema de interesse para a região: o destino do Canal do Linguado, única ligação rodoviária e de linha férrea entre o continente, a Ilha e o Porto de São Francisco do Sul.

    Embora tratados separadamente, os assuntos se conectam porque, uma vez duplicada, a estrada pode manter um gargalo ao longo do aterro caso ele permaneça como é hoje. Isto sem contar os debates sobre os impactos ambientais e a possibilidade de reabertura do Linguado, que se arrastam há décadas.

    Para contar essa história é preciso rever o passado. No início do século 20, foi criada uma via de trem entre São Paulo e os três estados do Sul. A rota incluiu um ramal entre Joinville e São Francisco do Sul e, em 1905, os trilhos chegaram à região. Foi então aterrado o chamado “lado Norte” do canal e erguida uma ponte para viabilizar o traçado entre a terra firme e as ilhas do Linguado e de São Chico.

    Essa ponte foi projetada para, em sua estrutura central, possibilitar a passagem de embarcações no canal, no entanto, devido ao avanço do tempo aliado à correnteza do mar, ao peso dos trens e à falta de manutenção, a estrutura da obra corroeu e veio a ceder no começo dos anos 30.

    À época foi decidido aterrar todo o Canal do Linguado para a construção de nova ferrovia e de uma estrada, a atual BR-280, com a alegação de trazer desenvolvimento à região. O então presidente Getúlio Vargas autorizou em 1933, o fechamento total do Linguado.

    Causas do fechamento

    Atualmente transmite-se a lenda de que o aterro foi posto em prática por causa de um acordo entre Brasil e Alemanha, devido à proximidade entre os dois povos. No imaginário popular, o trajeto serviria de passagem para escoar material bélico a partir do porto e incluir a instalação de uma operação militar na cidade além de uma fábrica.

    Essa tese é confrontada pelo historiador de Joinville e São Francisco do Sul, Wilson de Oliveira Neto. Segundo ele, é fantasiosa a ideia de que o fechamento tenha alguma relação com o governo nazista alemão para escoar material bélico. "O Brasil não tinha parque industrial com poderio bélico, tanto que a indústria bélica nacional se desenvolve de forma tímida. Essa relação não tem sustentação alguma", indica.

    Ainda segundo ele, para determinar os motivos que levaram ao fechamento, é preciso considerar outros fatores, como o desenvolvimento econômico de São Francisco do Sul e a necessidade de criar um canal de ligação terrestre entre a ilha e o continente.

    Concluído em 1935, o aterro interrompeu a ligação do canal com o mar, porém criou justamente essa conexão de terra firme. O que se tem agora é a chance de rever essa escolha e decidir o futuro do Linguado.

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    Cidades impactadas

    O prefeito de São Francisco do Sul, Renato Gama Lobo, atualmente participante da Câmara Técnica do Canal do Linguado, destaca que o tema é de suma importância regional porque envolve não só a cidade de São Chico em si, mas os cerca de um milhão de habitantes do entorno da Baía da Babitonga.

    Prefeito de São Francisco destaca que o tema é de suma importância regional
    Prefeito de São Francisco destaca que o tema é de suma importância regional
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    Para se ter uma ideia, são mais de 1,4 mil famílias dependentes da pesca nas águas da região, que abrange os municípios de Joinville, Araquari, São Francisco do Sul, Garuva, Itapoá e Barra do Sul. Para o prefeito, trabalhar em torno de soluções para o Linguado é corrigir um desastre ambiental e garantir o futuro do seu entorno.

    — Lá atrás, o poder econômico, pelas mãos do homem, cometeu um crime ambiental. Agora, nós, enquanto sociedade, temos que saber o que vai acontecer daqui a 30 anos se o canal ficar fechado ou o que acontece se ele for reaberto. O que queremos é acessar aos recursos, ter estudos conclusivos e entregar à população para saber como será o amanhã — defende o prefeito de São Francisco.

    Veja linha do tempo sobre o Canal do Linguado:

    — 1889 – Feita concessão para construção de uma estrada de ferro integrando Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

    — 1901 – Concedida licença de construção do Ramal Ferroviário São Francisco.

    — 1905 – Início do serviço de terraplanagem entre Joinville e São Francisco do Sul e chegada dos trilhos à região, que hoje compreende o Canal do Linguado.

    — 1906 – Inauguração simbólica da linha férrea.

    — 1907 – Aterrado o lado “Norte” para viabilizar o ramal ferroviário de ligação do porto ao continente. Depois foi fechado parcialmente o lado “Sul”, com 400 metros de extensão, entre o continente e a Ilha do Linguado.

    — 1910 – Inauguração de uma ponte de 120 metros com três vãos de 40 metros cada, com centro giratório capaz de permitir a passagem de embarcações maiores pelo canal (foto abaixo).

    Ponte giratória sobre o canal do Linguado e que funcionou de 1910 a 1931
    Ponte giratória sobre o canal do Linguado e que funcionou de 1910 a 1931
    (Foto: )

    — 1931 – Ponte começa a afundar devido à corrosão. Ali surgia a ideia de fazer um aterro de pedras para manter essa importante ligação do porto com cidades como Joinville e Blumenau.

    — 1933 – O então presidente do Brasil, Getúlio Vargas, aprova o projeto e a construção do aterro que viria a fechar por completo o Canal do Linguado. Foi providenciada também a construção da atual BR-280. Na foto abaixo, grupo de operários que trabalhou na obra.

    Grupo de operários trabalha no aterro
    Grupo de operários trabalha no aterro
    (Foto: )

    — 1935 – A obra de aterramento é concluída e inaugurada em 21 de outubro daquele ano.

    — 1936 – Jornais da época já apontavam possíveis danos ambientais decorrentes do fechamento do canal.

    — Décadas de 1960 e 1980 – Primeiros estudos sobre os impactos do aterro na região, liderados pelo Instituto Nacional de Pesquisa Hidroviária.

    — 1999 – Devido ao início do processo de licenciamento ambiental para duplicação da BR-280, o Procurador Federal da República, em Joinville, solicitou as primeiras informações oficiais sobre as condições do canal.

    — 2001 – Ministério Público Federal (MPF) abre Ação Civil Pública cobrando estudos e possíveis soluções relacionadas ao fechamento do Linguado. Eram relacionados no processo o DNIT e empresa ALL (América Latina Logística), administradores da estrada e da linha férrea.

    — 2003 – Estudo aponta danos causados pelo fechamento do Canal do Linguado e apresenta alternativas que podem ser aplicadas na região. Material elaborado pelo Instituto Militar de Engenharia do Rio de Janeiro, que contratou pesquisadores de universidades da região.

    — 2017 – Justiça decide que o canal ficará fechado e o processo é encerrado sem possibilidade de mais recursos, no entanto, sem julgamento de mérito, o que permite o uso do objeto para ações futuras como a elaboração de estudos complementares sobre o tema. A tramitação na justiça levou 16 anos e chegou a passar pelo Superior Tribunal Federal (STF).

    — 2018 — Câmara Técnica Canal do Linguado é formada pelo Grupo Pró-Babitonga (GPB) junto com cerca de 30 instituições e representantes da sociedade, como MPF e universidades nacionais e até internacionais, com objetivo de fornecer subsídios técnicos para a tomada de decisão com relação à reabertura ou não do canal. Propondo cenários desde deixar como está até impactos de uma possível abertura.

    — 2019 — Busca de recursos e parcerias para viabilizar as pesquisas da primeira fase do projeto de mobilização em prol de uma decisão sobre o destino do canal. Estima-se custo entre R$ 1,5 milhão e R$ 2 milhões.

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