Daniel era um típico cão caramelo: sem raça definida e pelos curtos de cor marrom claro. Mas algo em seu comportamento o diferenciou de outros animais parecidos com ele. O cão foi visto apenas como agressivo boa parte da sua vida. Fontes contaram ao NSC Total, no entanto, que ele tinha um lado doce e carinhoso, pouco explorado, escondido e não percebido em seu diagnóstico. Daniel foi o pivô para uma denúncia feita contra o Centro de Bem-Estar Animal (CBEA) de Joinville, que alega que o local faz uso irregular de eutanásias para “liberar baias”. Ele viveu 1.338 dias no local até ser eutanasiado em 14 de novembro de 2025.

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Veja fotos de Daniel

Como Daniel chegou ao CBEA

Daniel era um cão que morava na rua, principalmente no bairro Jarivatuba, na zona Sul de Joinville. Em 17 de março de 2022, ele foi resgatado após moradores da região denunciarem seu comportamento agressivo.

Conforme o boletim de ocorrência de número 0240569/2022, o cão estava solto na Rua Pedro Felipe Borges e avançando em pessoas que por ali passavam. A moradora que acionou a Polícia Militar (PM) ainda disse que Daniel chegou a morder uma senhora, que não estava no local para dar sua versão dos fatos quando os agentes chegaram.

A mulher, então, usou alimentos para atrair o cão e conseguiu o amarrar com uma corda. A PM solicitou apoio ao CBEA, que enviou um representante para resgatar o animal. De lá, Daniel foi levado ao centro, onde iniciou acompanhamento.

Diagnóstico de agressividade

Conforme o prontuário, ao qual a reportagem do NSC Total obteve acesso, Daniel foi diagnosticado com sinais graves e persistentes de agressividade, “bem como comportamento de posse por recursos, especialmente em relação à baia e aos recipientes de alimentação, indicando comprometimento significativo do comportamento adaptativo.”

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Dois meses depois, em 25 de maio de 2022, Daniel recebeu alta e foi transferido para albergagem no CBEA. No Centro, foi novamente avaliado por um médico veterinário.

No prontuário, o profissional detalhou que Daniel era um “animal de difícil manipulação”. Fica agressivo ao uso de coleira e/ou cambão, não deixar ser contido. Precisa adestramento para condicionamento ao manejo.”

Ainda na ficha, o veterinário afirmou que o cão estava visualmente saudável e classificou seu comportamento como “medroso”.

Ficha do Daniel (Foto: Reprodução)

Permanência no CBEA

Durante o tempo que ficou no CBEA, Daniel foi observado e recebeu cuidados básicos, como alimentação e higienização. De acordo com seu prontuário, devido ao escalonamento da agressividade, o cão foi transferido para uma baia específica destinada a animais com histórico de comportamento agressivo.

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“Ressalta-se que o animal não aceitava sair da baia, inviabilizando passeios, enriquecimento ambiental externo, interação com outros animais ou com a equipe de manejo. Observou-se, ainda, a presença de comportamentos estereotipados, como rodopiar continuamente no interior do recinto, indicativos de sofrimento psíquico, estresse crônico e comprometimento do bem-estar animal”, aponta ainda o prontuário.

Veja fotos do CBEA

Início de tratamento

Em março de 2023, a equipe veterinária iniciou um tratamento medicamentoso para reduzir a agressividade de Daniel. Foram três tentativas, com dois medicamentos diferentes, que não obtiveram sucesso.

Apenas em janeiro de 2024, um ano e sete meses após ser resgatado, Daniel passou a receber um treinamento exclusivo com um analista de comportamento animal — três meses após o município oficializar o convênio com uma clínica veterinária, que assumiu os serviços veterinários do centro, bem como transporte, plantão e manejo dos animais.

Em audiência pública realizada na Câmara de Vereadores de Joinville no dia 23 de fevereiro, a gerente do CBEA, Elisabet de Sousa Mendes, afirmou que Daniel foi um dos primeiros animais a passar por esse treinamento.

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Primeira intervenção com analista comportamental

Ainda em janeiro de 2024, Daniel passou por uma nova tentativa de abordagem, além da medicamentosa. A técnica utilizada buscava o reforço positivo com base em alimento (drive alimentar); e associação de estímulos, equiparando a presença da guia ao estímulo reforçados (alimentação).

As ações ocorreram, segundo o prontuário, durante um período de duas a três semanas. Enquanto isso, o animal foi alimentado na presença da guia, buscando reduzir respostas emocionais aversivas ao equipamento.

No entanto, Daniel teria recusado o uso da guia e apresentado “agressividade intensa” com a aproximação de qualquer pessoa. Além disso, teria aumentado sua posse pela baia e a resistência em sair do local.

Segunda intervenção

Já em junho de 2024, iniciou mais um ciclo de treinamentos. O objetivo era desenvolver respostas comportamentais mais adaptativas por meio da extinção do comportamento de mordida em humanos.

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Para isso, o profissional utilizou equipamentos de contenção, como guia e cambão, e apresentou a Daniel um dispositivo artificial: uma mão falsa. A ideia era que o cão direcionasse seu comportamento agressivo a esse objeto inanimado.

“A intervenção resultou em efeito contrário ao esperado, com: aumento significativo da agressividade; surgimento e intensificação de comportamentos de autoagressão; retorno rápido e exacerbado ao padrão comportamental agressivo”, detalhou o profissional no prontuário.

Ainda durante as tentativas de reabilitação, foram notados episódios de estresse extremo, como hemorragia nasal, cianose de mucosas e comportamentos de autoagressão.

Eutanásia

Após as tentativas de treinamento, junto com a utilização de medicamentos por alguns meses, os profissionais do CBEA e da clínica conveniada concluíram que o quadro do comportamento era incompatível com a reabilitação segura e eficaz.

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Com isso, a eutanásia foi recomendada. Daniel morreu em 14 de novembro de 2025, às 17h, no CBEA.

Atestado de óbito (Foto: Reprodução)

A gerente do CBEA afirmou que o centro segue as normas do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) para a indicação de eutanásia em animais.

No art. 3º da resolução 1.000 do dia 11 de maio de 2012, o CFMV afirma que a eutanásia pode ser indicada nas seguintes situações:

  1. O bem-estar do animal estiver comprometido de forma irreversível, sendo um meio de eliminar a dor ou o sofrimento dos animais, os quais não podem ser controlados por meio de analgésicos, de sedativos ou de outros tratamentos;
  2. O animal constituir ameaça à saúde pública;
  3. O animal constituir risco à fauna nativa ou ao meio ambiente;
  4. O animal for objeto de atividades científicas, devidamente aprovadas por uma Comissão de Ética para o Uso de Animais – CEUA;
  5. O tratamento representar custos incompatíveis com a atividade produtiva a que o animal se destina ou com os recursos financeiros do proprietário.

Denunciantes questionam diagnóstico

O caso de Daniel levou à abertura de um inquérito civil pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC). Duas pessoas denunciaram as indicações de eutanásia realizados pelo CBEA. Entre 14 de novembro de 2023 até o final de 2025, 413 animais foram submetidos à eutanásia. Em contrapartida, nesse período o centro atendeu mais de cinco mil cães e gatos.

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Em entrevista ao NSC Total, uma das denunciantes contou que conheceu Daniel em 2023, quando o cão já era cuidado pelo CBEA e estava na área destinada a cães agressivos, conhecida como “guilhotina”.

— Lembro da primeira vez que o vi, ele ficava rodando na baia, pulando e latindo muito. Realmente, foi o cachorro que mais me impressionou. A tratadora me avisou que ele era meio arisco, mas que eu poderia dar carinho nele pelo lado de fora da baia. Foi ali que decidi pegar o desafio de ajudá-lo — afirma.

Ela conta que passou a ir todos os dias até a baia de Daniel, e ficava lá por cerca de 10 minutos. Conversava, tentava fazer carinho, ou até mesmo ficava em silêncio, apenas fazendo companhia ao animal. Após um mês, conseguiu realmente fazer carinho no cão, ainda pelo lado de fora da grade.

— Até que, em um certo dia, senti que era hora de entrar e tentar uma aproximação, e foi quando deu tudo certo. Ele abanava o rabinho, ficava feliz e deixava dar carinho nele. Aos poucos, fui me sentando no chão para que ele me cheirasse e entendesse que eu não era uma ameaça. Consegui fazer com que ele confiasse em mim. Ele deitava no meu colo, deixava eu mexer em seu corpo inteiro para verificar se havia alguma dor, já que ninguém mexia nele — relata.

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A mulher, que não será identificada pela reportagem, ainda conta que conseguiu passar a guia no pescoço de Daniel e o levar para passear em um solário aberto em frente à baia.

— Também consegui dar banho nele com balde, sempre respeitando os limites dele. Ele nunca me atacou, pelo contrário, sempre demonstrou querer o meu carinho e atenção — diz.

Treinamentos não eram suficientes

Outra denunciante também conversou com o NSC Total. Ela conheceu Daniel e diversos outros animais que foram eutanasiados pelo CBEA.

Conforme ela, o treinamento para reabilitação realmente ajudou diversos animais do centro, já que muitos não eram agressivos, apenas precisavam ganhar confiança e contar com a paciência dos tratadores na hora dos passeios. No entanto, critica a forma como os processos aconteciam e ainda questiona se Daniel realmente passou por adestramentos.

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— O responsável pelos adestramentos tinha outras funções também. Os cães mais agressivos e reativos ele mal manejava, quem fazia isso eram os tratadores. Adestramento ocorria bem pontualmente, duas ou três vezes ao mês com algum cão escolhido. Os adestramentos não seguiam a linha de educação positiva, o que funcionava para alguns cães, mas não para todos. Mas nunca vi o Daniel passar por esses poucos adestramentos — diz.

De acordo com ela, os treinamentos tiveram o efeito contrário em outros cães, assim como no caso de Daniel. Tratadores, que lidam com os animais todos os dias, precisaram modificar a rotina para que ganhassem novamente a confiança deles.

— A maioria dos cães que chegaram por mordedura no CBEA tiveram melhora no comportamento com os tratadores que estavam presentes todos os dias. Mas em relação às veterinárias e outras pessoas, eles mantinham postura de agressividade — relata.

Alguns animais ainda teriam sido beneficiados com a transferência para uma área menos barulhenta e com menor incidência de luz. Entretanto, esse não foi o caso de Daniel.

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— Mesmo as veterinárias pedindo a mudança de baia, pois o animal demonstrava uma diminuição considerável de estresse e frustração, era dito que a prioridade sempre seria por tamanho. Um animal de porte menor mesmo com estresse crônico não teria vantagem se comparado a um cão grande que tinha comportamento mais equilibrado e controlado — detalha.

Ainda segundo ela, os animais não receberam um adestramento contínuo eficaz, visando a individualidade de cada um.

— Daniel estava sofrendo sim, no estado que ele estava era triste, mas ninguém adestrou ele, ninguém fez manejo correto, as medicações não fazem milagres. Os cães eutanasiados não passaram por adestramento, não tiveram uma avaliação de melhora. Foi algo superficial, decidido por pessoas que não mantinham contato mínimo com esses cães. Os tratadores estavam continuamente com eles, e nenhum deles foi questionado se aquele cão havia tido melhora — afirma.

“Injusto”

As denunciantes afirmam ao NSC Total que não concordam com a indicação de eutanásia a alguns animais que passaram pelo CBEA nos últimos anos, principalmente ao Daniel.

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— Acredito que foi injusto, porque ele tinha a possibilidade de melhorar com um adestrador preparado para isso. Todos reconheciam a melhora dele comigo, então, quem dirá com um profissional qualificado — afirma uma delas.

Um dos treinamentos de Daniel (Foto: Reprodução)

MP apura denúncia

O MPSC solicitou, por duas vezes, informações ao município de Joinville sobre o uso de eutanásia no CBEA. O município deve enviar ao MPSC uma série de documentos e informações consideradas essenciais para esclarecer os fatos denunciados em 23 de janeiro.

Entre elas está o prontuário completo e individualizado dos 413 animais submetidos à eutanásia desde 14 de novembro de 2023, incluindo registro de entrada e saída, anamnese, exames, evolução clínica, justificativa técnica, identificação dos médicos veterinários responsáveis e detalhes sobre medicações utilizadas.

A 21ª Promotoria de Justiça da Comarca de Joinville, sob responsabilidade da promotora Simone Cristina Schultz, também requisitou a relação atualizada dos profissionais que atuaram em uma clínica veterinária particular, e vinculada ao CBEA, no período dos fatos investigados.

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O estabelecimento deve enviar uma cópia de eventuais Procedimentos Operacionais Padrão (POPs) relacionados à eutanásia, indicação dos métodos utilizados e comprovação documental da destinação final dos cadáveres. A Sama deverá, ainda, esclarecer se as práticas adotadas no CBEA estão alinhadas às normas legais e sanitárias vigentes.

Em nota, a Prefeitura de Joinville informou que o atendimento aos animais do Centro de Bem-Estar Animal é realizado “sob responsabilidade de veterinários qualificados e com experiência, visando sempre a atenção e o cuidado necessários. A eutanásia, conforme prevê o protocolo, somente é utilizada como última alternativa, quando não há uma outra possibilidade de tratamento.”

Ainda conforme o município, apenas o tratamento de Daniel custou mais de R$ 115 mil, considerando as diárias de 2022 até 2025 e o acompanhamento veterinário permanente. As medicações utilizadas, no entanto, não foram incluídas no cálculo.

Como funciona um processo de reabilitação, segundo especialista

Guilherme Magnabosco, CEO da Matilha Equilibrada — empresa especializada em comportamento animal —, afirma que cães com histórico de agressividade precisam de um manejo mais controlado, incluindo protocolos de segurança, profissionais treinados, ambientes preparados, leitura corporal constante e progressão extremamente gradual das interações.

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— Diferente de um cão comum, não se trabalha apenas socialização, trabalha-se principalmente prevenção de risco e estabilidade emocional. Em muitos casos, o manejo é tão importante quanto o treinamento em si — diz.

Segundo Magnabosco, não existe um tempo padrão para o processo de reabilitação. Casos leves podem evoluir em alguns meses, mas casos graves, principalmente quando o comportamento está consolidado há anos, podem levar muito tempo ou exigir manejo permanente.

— Em comportamento animal, quanto mais tempo o padrão agressivo existe, mais difícil é modificar. Em alguns cenários, o trabalho não busca tornar o cão adotável para qualquer família, mas apenas torná-lo manejável dentro de condições muito específicas — afirma.

Magnabosco explica que o comportamento agressivo é, na maioria das vezes, uma estratégia de defesa que funcionou para o animal em algum momento.

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— Costuma estar ligado a medo, frustração, dor, experiências negativas anteriores, falta de socialização adequada ou aprendizagem ao longo da vida. Por isso, o tratamento não é apenas ensinar comandos, mas mudar a emoção que está por trás do comportamento — detalha.