A cidade de Santos, no litoral sul de São Paulo, vai receber R$ 200 milhões do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para financiar um plano ambicioso contra o avanço do mar sobre a cidade. O dinheiro, aprovado em abril, virá do Fundo Clima e será usado em obras de drenagem, proteção costeira, modernização de canais e em um estudo inédito para tentar corrigir os 65 edifícios inclinados da orla, os famosos “prédios tortos” que se tornaram símbolo do problema climático da cidade. Segundo o BNDES, o projeto deve beneficiar diretamente mais de 200 mil moradores, o equivalente a cerca de metade da população santista.

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A cidade está no centro da discussão sobre adaptação climática no Brasil por motivos visíveis: alagamentos recorrentes, erosão em vias pavimentadas, danos a garagens subterrâneas, desaparecimento de faixas de areia e a inclinação gradual de prédios construídos décadas atrás.

A combinação de fatores naturais e urbanos fez da cidade litorânea um dos casos mais simbólicos do avanço do mar no país.

Os “prédios tortos” de Santos: o que aconteceu

A inclinação de edifícios na orla santista é um fenômeno que se arrasta há décadas, mas que ganhou urgência nova com o avanço do mar e as mudanças climáticas. Atualmente, a Prefeitura de Santos acompanha 65 edifícios com desaprumo (inclinação), concentrados entre os canais 2 e 6, principalmente nos bairros:

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  • Gonzaga
  • Boqueirão
  • Embaré
  • Aparecida

As inclinações desses prédios variam entre 1,5° e 2,2° e estão associadas a dois fatores principais. O primeiro é o tipo de fundação adotado na época de construção: entre as décadas de 1950 e 1970, os edifícios foram erguidos sobre fundações rasas, porque a tecnologia de estacas profundas ainda não era dominada no Brasil.

O segundo é a natureza do solo santista, formado por argila mole, altamente compressível e sensível à elevação do lençol freático, agravada pelo avanço do mar.

Desde 2024, moradores dos edifícios afetados passaram a se organizar por meio da Associação dos Condomínios dos Prédios Inclinados (ACOPI) em busca de soluções técnicas e financeiras para o reaprumo das estruturas.

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Uma das propostas em estudo, em paralelo ao financiamento do BNDES, é um mecanismo privado que permita aos condomínios acessarem crédito para intervenções de engenharia nas fundações.

Como os R$ 200 milhões serão usados

O financiamento do BNDES foi aprovado no âmbito do Programa Cidades Resilientes e se divide em intervenções urbanísticas, estruturais e de proteção ambiental.

O plano, batizado de projeto de resiliência climática, prevê atuação especialmente na Zona Leste da cidade, região populosa e historicamente mais afetada por alagamentos e ressacas. Entre as principais frentes de investimento estão:

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  • Obras de macro e microdrenagem para escoar chuvas intensas
  • Modernização do sistema de canais e comportas, hoje com infraestrutura defasada
  • Reforço da proteção costeira para conter a erosão da orla
  • Requalificação de espaços urbanos na Zona Leste, Centro, Noroeste e Zona Intermediária
  • Soluções baseadas na natureza, como áreas permeáveis e espaços de infiltração de água da chuva
  • Estudos técnicos sobre os prédios inclinados e possíveis rotas de intervenção

“São investimentos que vão reduzir alagamentos, proteger a orla e melhorar a qualidade de vida de mais de 200 mil pessoas, ao mesmo tempo em que fortalecem a atividade econômica e a resiliência urbana do município”, afirmou o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, em nota oficial no anúncio da operação.

Quando as obras começam

A liberação do dinheiro, no entanto, não é imediata. O prefeito Rogério Santos explicou, em entrevista ao jornal A Tribuna, que o processo exige uma série de etapas antes da execução:

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  • Elaboração de estudos técnicos detalhados
  • Desenvolvimento dos projetos básico e executivo
  • Licenciamento ambiental junto aos órgãos competentes
  • Aval da Câmara Municipal de Santos
  • Formatação técnica dos projetos (estimada em R$ 7 milhões adicionais)

A previsão da Prefeitura é que todo o processo, da aprovação à conclusão das primeiras obras estruturais, leve entre quatro e cinco anos.

Por que o mar avança em Santos três vezes mais rápido que a média global

A situação de Santos é especialmente grave por causa da combinação de dois fatores. O primeiro é o aquecimento global e o derretimento das calotas polares, que elevam o nível médio dos oceanos em todo o planeta. O segundo é específico da costa paulista: por fatores geográficos e oceanográficos, a região tem registrado elevação do mar três vezes acima da média global.

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Nos últimos 100 anos, o litoral paulista viu o nível do mar subir cerca de 30 centímetros — enquanto a média global no mesmo período ficou em torno de 10 cm. A velocidade do avanço, combinada à urbanização densa da orla, cria um efeito cascata:

  • Quando o mar sobe, a praia tende a recuar naturalmente em direção ao continente, buscando equilíbrio
  • Como existem prédios, avenidas e muretas no caminho, a areia não tem para onde migrar
  • A areia acaba sendo levada pelo mar, e a faixa de praia desaparece
  • Sem a barreira natural da areia, as ondas batem diretamente nas estruturas urbanas
  • O lençol freático sobe, afetando fundações de edifícios antigos e agravando a inclinação

É por esse encadeamento que Santos se tornou referência no debate nacional sobre adaptação climática, a cidade concentra, em poucos quilômetros quadrados, quase todos os fenômenos associados à crise climática no litoral brasileiro.

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O que vem pela frente

O financiamento do BNDES é um passo importante, mas, como o próprio prefeito reconheceu, não é uma solução imediata. O projeto se soma a outras iniciativas em andamento na região, como o túnel imerso entre Santos e Guarujá, outra obra bilionária que promete transformar a mobilidade da Baixada Santista na próxima década.

A expectativa é que o conjunto dessas intervenções, clima, mobilidade, drenagem, redefina a relação da cidade com o mar nos próximos anos. Enquanto isso, os moradores convivem com uma rotina que inclui alagamentos em dias de ressaca, vistoria periódica em prédios inclinados e o olhar permanente sobre uma faixa de areia cada vez mais estreita.