Nascido e criado nas ruas blumenauenses, Jonas Serpa Souza foi ao festival de cinema em Seattle, nos Estados Unidos, com uma camiseta amarela da Copa das Confederações de 2013 por pensar que nem ia ganhar alguma coisa, então qualquer formalidade de vestimenta podia ficar pra lá.
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Mal acreditou quando o nome foi chamado e veio o reconhecimento internacional, logo no primeiro festival que participava com uma produção inédita inscrita. Emocionado, subiu no palco e recebeu o prêmio de melhor diretor no National Film Festival for Talented Youth (NFFTY), festival que representa uma das principais portas de entrada para a nova geração de cineastas.
A 19ª edição do NFFTY ocorreu entre os dias 26 e 29 de março, descrito pelos críticos como o maior festival global dedicado a cineastas com até 23 anos e chega a ser dito como o equivalente a eventos como Cannes e Sundance. É uma vitrine decisiva que permite um espaço sob o holofote para jovens cineastas em um mercado tão competitivo.
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Era o primeiro festival que participava, o primeiro envio do filme “Soldiers” e o primeiro feedback que receberia do curta-metragem. Dizer que os nervos do diretor e de toda a equipe da Bicho Productions, produtora responsável, estavam à flor da pele é eufemismo, uma vez que Jonas descreve a experiência como “uma explosão maluca de emoções”.
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O prêmio chegou às mãos do diretor com emoção e uma salva de aplausos.
— A gente realmente não esperava! Pô, eu levei um blazer bonitinho para o festival e fui receber o prêmio com uma camiseta da Copa das Confederações de 2013. Falei para Genna [diretora de fotografia], “meu, espero que a gente não ganhe nada porque eu tô só de camiseta”. Acabou que ficou simbólico.
— Brincadeiras à parte, o prêmio foi um reconhecimento absurdo do nosso trabalho. Nosso objetivo com o filme e com a nossa produtora é ser fiel a nossa visão e estar aberto a experimentações, o que sempre vem com certos riscos — completa o diretor blumenauense.
Veja algumas fotos de Jonas e da direção
Um júri técnico concede os reconhecimentos depois de avaliar o conjunto da obra, considerando elementos como direção de elenco, ritmo narrativo, edição, fotografia e coerência estética. Na Bicho Productions, Jonas atua como escritor, diretor e editor, e tem como sócia Rebecca Rhodes, que também é produtora criativa e diretora, e Genna Roth completa a equipe, com a atuação como diretora de fotografia e colorista.
— Receber um prêmio de melhor direção é ser reconhecido por esses riscos e isso só nos dá vontade de correr riscos maiores! Mas é sempre bom deixar claro que embora receber o prêmio seja muito massa, o nosso objetivo com esses festivais é trazer olhos pro nosso filme. Espero que a repercussão do prêmio faça a galera querer assistir “Soldiers”! — celebra.
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Criando um artista
Nascido em fevereiro de 2003, Jonas viveu quase a vida inteira na mesma casa no bairro Vila Nova, local em que a mãe também cresceu. Filho único, “cria de escola particular”, como ele mesmo diz, passou a infância na Escola Barão e a adolescência no Colégio Bom Jesus no Ensino Médio.
Jonas agradece até hoje a criação dos pais e pelo privilégio de se expressar. As pinturas que ele realizava com lápis de cor nas paredes do quarto quando pequeno são um exemplo concreto do incentivo, que já entendiam que estavam criando um artista.
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O próprio pai, Marlon, sempre foi do teatro e fazia parte do grupo da Universidade Regional de Blumenau (Furb) “quando o Phoenix ainda se escrevia Fênix”, junto da tia de Jonas. Já a mãe do diretor, Silvana, se inclinava para o lado da música e o filho se lembra até hoje que ela está lhe devendo uma “palinha”.
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— O Fenatib e o Fitub eram tradição absoluta lá em casa. Eu sempre encontrei no teatro uma liberdade de expressão e um convite pra jogo que não existia no meu dia a dia. Numa cidade como Blumenau, há coisas que só o teatro permite. Logo entrei no grupo de teatro da Barão, na época dirigido pela maravilhosa Su Junkes, e não larguei nunca mais — relata.
As artes cênicas puxaram Jonas para a escrita, que aprendeu cedo, aos 11 anos, “o poder da contação de história como instrumento de catarse”. Um dos trabalhos foi a tradução e adaptação do filme “O Clube dos Cinco” para o português e também teve uma peça autoral sobre os Smurfs, o que faz o diretor refletir que a maioria das referências que tinha, na época, eram gringas.
Nesse mesmo momento, Jonas também ajudou a fundar, com a diretora e educadora Suellen Verônica Junkes, o Coletivo Teatral Flor’Arte, um grupo dedicado ao teatro e artes integradas.
Ao olhar para trás, Jonas pensa que, se pudesse dar um conselho para ele mesmo da adolescência, diria para que não tivesse medo de ser ele mesmo. Porém, reflete que talvez seja “bom que ele aprenda isso com o tempo”.
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De malas feitas e com passaporte na mão
De tanto escutar os outros falarem, cinema e Estados Unidos se tornaram sinônimos na cabeça do Jonas. Ou seja, se você queria fazer cinema e viver disso, era preciso morar em pleno letreiro de “Hollywood” na Califórnia. No terceiro ano do Ensino Médio, a possibilidade de viver somente da sétima arte, em território estrangeiro, começou a ser tratada com mais seriedade por Jonas. Porém, o plano só foi tirado do papel quando recebeu a primeira oferta de faculdade.
— O processo em si foi um apagão. Eu realmente só fechei os olhos e segui os direcionamentos da Késia Biondo, que hoje trabalha na Agência de Intercâmbio Travelmate mas, na época, estava com a World Study Blumenau. Honestamente, eu quase desisti diversas vezes. A ideia de largar tudo que eu conhecia e me mudar pra outro continente era desesperadora — confessa.
Ele já tinha conseguido uma vaga de cinema na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), em São Paulo, que constituía um “plano B”. Foi através do apoio do círculo social que conseguiu criar coragem para arriscar uma vida americana — tanto que um amigo chegou a ameaçar cortar relações com ele caso a oportunidade passasse. Em 2021, com as malas cheias e o passaporte na mão, Jonas embarcou em Chicago, estudou na DePaul University, conquistou um bacharelado em Cinema e Televisão, com especialização complementar em Estudos Teatrais.
— A indústria cinematográfica americana é super robusta (embora ela esteja em um momento crítico atualmente) e o tipo de filme que a gente tá acostumado a assistir no cinema é de propriedade norte-americana. Porém, depois de estudar cinema aqui na terra de Hollywood, percebi que muito disso é propaganda. A gente tá tão acostumado com o cinema americano e o jeito de contar histórias americano que começamos a vê-los como “naturais” e a questionar qualquer outro tipo de fazer cinema — elabora o diretor.
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Hoje, ele compreende que o sucesso em Hollywood não é o único tipo de sucesso. O diretor destaca como existem outras formas de fazer e viver cinema e “são tão válidas quanto o cinema dos blockbusters”.
— Existe um universo lindo de filmes brasileiros e estrangeiros que destoam do cinema Hollywoodiano por trazerem consigo especificidades de um lugar, povo, tempo, grupo minoritário e cultura. A indústria norte-americana quer nos ver viciados nela porque assim eles mantém hegemonia, até por isso o cinema independente e experimental é propositalmente difícil de acessar — Jonas aconselha.
Chegar em Chicago é descrito como maluquice pelo jovem, “o mundo virando de cabeça para baixo”. Um local novo, completamente desconhecido, a mais de 8 mil quilômetros de casa em uma cidade sete vezes maior que Blumenau, e um mundo de possibilidades para serem exploradas. A dificuldade dos americanos de pronunciarem o nome de batismo, João Vinicius, fez com que ele adotasse um apelido de infância, quando um amigo do teatro decidiu apelidá-lo de “Jonas” ironicamente por achar difícil encontrar um apelido para “João”.
— Morar nos Estados Unidos é engraçado porque é exatamente igual a gente vê nos filmes, só que sem a magia do cinema, o que acaba gerando um uncanny valley maluco [aquela sensação de estranheza quando algo parece quase real, mas soa artificial ou “errado”]. Ah, e eu preciso dizer que Chicago é uma cidade maravilhosa! Sobre surpresas, eu já dominava bem o inglês quando me mudei, mas viver em inglês é outra coisa. Tu acha que sabe falar inglês até ter que comprar produtos de limpeza ou temperos de cozinha. Foi um longo período de adaptação até eu aprender que parsley é salsinha — brinca.
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Por mais que tenha se apaixonado pela vida internacional, é impossível falar da cidade natal sem uma boa dose de nostalgia.
— Blumenau me lembra meus amigos. Eu lembro de sentar na calçada da Alameda Rio Branco com alguma bebida barata e passar a madrugada fazendo nada com eles. Blumenau tem um quê de cidade pequena que eu sinto falta. De madrugada, parecia que a cidade era só nossa. Lembro disso e do cheiro de cerveja com mijo que só a Oktoberfest produz. Ô, que saudade da Oktober — recorda Jonas.
Confira algumas cenas de “Soldiers”
Luz, câmera, ação
Cada artista possui a própria metodologia, manias e processos criativos. Jonas, por exemplo, conta que é fã de carteirinha de playlists musicais. Para ele, a produção de uma obra precisa ser como um mergulho quase abissal, que o mantém submerso naquele universo fictício ao longo da criação. Uma das formas que o cineasta encontrou de atingir esse objetivo é através da música.
— “Soldiers” teve várias playlists diferentes durante o processo. Eu também organizo playlists de filmes que são de alguma forma relacionados com a história que estou escrevendo. Cinema é 100% sobre referência — esclarece.
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As marcas mais fortes de Jonas no cinema são a intimidade, identidade e as vivências individuais através de uma fascinação pela transgressão sexual e de gênero na mídia. Os filmes “extrapolam o absurdo de nossas instituições — política, religião, família — através da sexualidade”, conforme explica o site oficial da produtora. Como cinema consiste em referência, Jonas compartilhou cinco obras brasileiras e outras cinco estrangeiras favoritas:
- Eles Não Usam Black Tie (1981)
- O Bandido Da Luz Vermelha (1968)
- A Meia Noite Levarei Sua Alma (1964)
- Bye Bye Brasil (1980)
- Marte Um (2022)
- Pink Flamingos (1972)
- Tudo Sobre Minha Mãe (1999)
- LA Plays Itself (1972)
- Castration Movie Anthology i. (2024)
- West Indies (1979)
“Soldiers”
O curta-metragem “Soldiers” nasce de uma influência tanto pelos protestos pró-Palestina no ambiente universitário quanto por uma investigação constante sobre identidade. O filme trata de homossexualidade, violência, sexo, revolução e descobrimento. O protagonista, Renato, é descrito como um reflexo direto do mundo ao redor. Jonas explica que é um filme de época e contou até com a ajuda de pesquisa de uma professora de história do Colégio Bom Jesus, Joice Brignoli.
“Em tempos de turbulência política, um operário em greve luta para encontrar satisfação sexual. À medida que a agitação se transforma em violência, seu desejo o leva por um caminho inesperado”, diz a sinopse do filme.
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Sorte é uma das primeiras palavras que Jonas expressa ao pensar na trajetória como cineasta e diretor. A companhia e amigos que fez ao longo do percurso fizeram toda a diferença no processo. Isso se explicita na produção do curta-metragem que lhe rendeu o prêmio de melhor direção, um filme produzido nos Estados Unidos e com uma equipe norte-americana, porém, com uma narrativa complexa e fundamentalmente brasileira.
— Todo mundo se mostrou muito interessado em aprender mais sobre o Brasil. Claro que isso exigiu um baita processo de pesquisa. Eu e Genna Roth, que dirigiu a fotografia do filme, fizemos algumas maratonas de filmes brasileiros, de “Eles Não Usam Black-tie” até “Os Sete Gatinhos”. Mandei pro time muitas playlists, fotos antigas de família, matérias de jornal, um monte de coisa pra tentar explicar visualmente o sentimento de ser brasileiro. Tive uma reunião inteira pra explicar que o bar no final do filme precisaria ter copos americanos — desenvolve.
Bicho Productions e próximos passos
A Bicho Productions é composta por: Jonas, que atua como escritor, diretor e editor; a sócia Rebecca Rhodes, que também é produtora criativa e diretora; e Genna Roth, que atua como diretora de fotografia e colorista. Até o momento, produziram em conjunto “The Woodcutter & The Weaver” (2025), “Soldiers” (2025) e Homily (2024).
— Bicho é a reivindicação de uma identidade marginal imposta a nós. Viados, imigrantes, transexuais, minorias em geral… Para nós, ser tratado como bicho é uma realidade. Quando convêm, somos família, mas quando aperta, bicho é bicho e nossos direitos são os primeiros a ir pela janela. Na Bicho, nós cansamos de lutar para sermos aceitos em um mundo feito para nos excluir. Nós preferimos viver em um mundo nosso. Nós reivindicamos nosso título de bicho com a cabeça erguida e estamos gastando nossas energias para criar um mundo nosso, para nós, e por nós — explica o motivo do nome.
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Jonas conta que os próximos passos do filme “Soldiers” incluem mais festivais, como a exibição no CineYouth que acontecerá em 25 de abril, em Chicago, descrito como um baita festival estudantil. Atualmente, o Bicho Productions está co-produzindo um longa-metragem de drama pós-apocalíptico em parceria com a Broken Radiator, outra produtora independente da cidade. O filme se chama “The Woodcutter & The Weaver” e está na fase de pós-produção.
O diretor de cinema também conta que, em outubro deste ano, se prepara para dirigir o próximo filme com a produtora, “Erotica”, que conta a história de um pintor de quadros eróticos. Os detalhes ainda estão sendo arranjados e a equipe ainda busca financiamento, mas as ideias da equipe já correm a mil.
























