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CONVIVENDO COM O MEDO

Com 94 enchentes em 169 anos, como o Vale do Itajaí aprendeu a lidar com as cheias

Sistemas de alerta avançaram e são aliados de quem vive em áreas de inundação

02/10/2021 - 07h00 - Atualizada em: 03/10/2021 - 18h10

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Talita
Por Talita Catie
Morador de bateira no Centro de Blumenau, ao lado da Catedral São Paulo Apóstolo
Morador de bateira no Centro de Blumenau, ao lado da Catedral São Paulo Apóstolo
(Foto: )

Basta a chuva persistir por alguns dias e a preocupação surge na cabeça de Márcia Regina Silva, de 50 anos. Na parede da sala de costura, de onde vem o sustento da família, ainda está o papel com as medições do Rio Itajaí-Açu de janeiro deste ano. Na parte de baixo do bilhete, grifado, a cota da cheia para a casa dela: 7,40 metros. Neste ano a enchente não veio, mas sempre que a água sobe, assusta.

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Há 18 anos morando na Rua São Rafael, no bairro Itoupava Norte, em Blumenau, a única alternativa foi aprender a lidar com a situação. O imóvel dela está numa das primeiras áreas a alagar na cidade quando o nível do rio aumenta. Nessas quase duas décadas, Márcia viu a água invadir a casa ao menos sete vezes, perdeu muita coisa e criou estratégia para diminuir os prejuízos.

— Quando a Defesa Civil fala para ficar em alerta eu já começo a empacotar tudo. Primeiro as coisas do trabalho e depois da casa. Em 2008 e 2011 a casa ficou coberta pela enchente. Não deu tempo de tirar nada. Agora os móveis são simples, não comprei muita coisa e outras ganhei, porque aqui não adianta. É um bom lugar para morar, perto de tudo, mas tem esse problema — desabafa.

Enchente é parte da rotina de quem vive no Vale do Itajaí desde quando se tem registro da colonização. Dados do Arquivo Histórico revelam uma carta do Dr. Blumenau de 21 de abril de 1848. Nela o fundador da cidade escreve à família na Alemanha para contar sobre as inundações. “Com a chuva, o nível do rio sobe muito, chegando às vezes a elevar-se até 24 pés em três dias”, disse.

Dados do AlertaBlu apontam 94 inundações no município nos últimos 169 anos. Quase metade desses episódios ocorreu a partir de 1971. Só na última década foram nove cheias. Frederico de Moraes Rudorff, coordenador de Monitoramento e Alerta da Defesa Civil de Santa Catarina, diz que o governo do Estado tem monitorado o que ele chama de “aumento expressivo” do fenômeno.

— Vários fatores podem explicar isso, como ciclos de períodos mais chuvosos que às vezes são até décadas, e também das tendências de alterações do clima. Observamos eventos cada vez mais extremos, tanto para o excesso, com os alagamentos, quanto para a estiagem, quando falta chuva — explica.

As enchentes dos últimos 10 anos em Blumenau variaram entre 8,1 e 12,6 metros. Com essas medições, a Defesa Civil municipal estima de 462 moradores a até 31,3 mil afetados. Márcia não está sozinha nessa conta. Quando os pais de Hélio Silveira, 61 anos, compraram a casa na Rua Paris, Região Norte da cidade, estavam contentes por ser perto de uma escola, para garantir a educação dos filhos. O que não esperavam eram as enchentes.

Hoje Hélio se mantém alerta quando a previsão indica a possibilidade de cheias. Um olho na informação e outro direto no rio. Afinal, aprendeu na marra em 1980, quando a família vinda do Alto Vale pegou enchente pela primeira vez em Blumenau. Sabe, agora, que se água bater na ponte, tem chance de atingir a residência.

Na época as informações não eram tantas e nem tão rápidas quanto atualmente. E apesar do conhecimento empírico, não imaginava o que estava por vir. Em 1983, Hélio tinha recém-casado com Nívia Zenaide Schappo, então com 18 anos. Ela estava prestes a ganhar o primeiro filho quando as chuvas começaram e a gestante foi para a maternidade. Só pôde voltar para casa, já com o filho nos braços, cerca de um mês depois. Nada se salvou, nem o enxoval feito com carinho para Marcelo.

— Fiquei apavorada, porque a minha casa tinha um ano. Eu não cheguei nem a comprar todos os móveis, perdi o que tinha. Até o bercinho do bebê, que ele nunca dormiu, as roupinhas, não sobrou nada — relembra Nívia, atualmente moradora de uma área livre de enchentes em Navegantes.

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Nívea, Marcelo e Hélio
Nívea, Marcelo e Hélio
(Foto: )

Hoje apenas a mãe de Hélio ainda mora no endereço da Rua Paris. Aos 82 anos, Olga lembra com carinho da casa bonita que comprou com o marido por estar bem perto da escola para garantir a educação dos filhos. A matriarca também tem muitas recordações das duas maiores inundações da história de Blumenau: assustadoras e devastadoras.

Os avanços vieram depois das perdas

As enchentes de 1983 e 1984 atingiram em cheio o Vale do Itajaí e deixaram 65 mortos e 268 mil desabrigados em Santa Catarina. As barragens de Taió e Ituporanga, ativadas na década de 1970, verteram e escancararam que era preciso mais ação do Poder Público para proteger os cidadãos. É a partir desse momento que o trabalho de monitoramento do nível do rio, projeções de alcance e alerta às cheias ganhou força, principalmente com a criação do Centro de Operações do Sistema de Alerta da Bacia Hidrográfica do Rio Itajaí-Açu (Ceops).

— Professores se reuniram após as enchentes de 1983 e propuseram a criação de um grupo de pesquisa para entender o problema das enchentes, as causas, as consequências e ações que pudessem minimizar os impactos. Logo após a criação desse projeto, o Departamento Nacional de Águas, hoje denominado de Agência Nacional das Águas, montou no Vale do Itajaí um sistema de alerta experimental, o primeiro no Brasil — relembra o professor da Furb Dirceu Severo

Com o passar do tempo, o sistema passou a ser administrado pela Universidade Regional de Blumenau, recebeu atualizações, foi modernizado e garantiu à população da região informações certeiras sobre a medição que o rio iria atingir, bem como em qual horário aquilo ocorreria. Agora a ferramenta está mudando de mãos após divergências sobre quem paga a conta, até então custeada apenas pela universidade. Até 2022, todo o trabalho do órgão será transferido à prefeitura de Blumenau.

O trabalho do Ceops, que em breve será do AlertaBlu, junto às cotas de inundação, forma a principal aliada de quem vive em área alagável. É isso que dá tranquilidade à dona Olga. Hoje o filho não mora mais com ela, mas acompanha as projeções para saber o momento de ir à casa da mãe e erguer os móveis. O imóvel mudou, ganhou um segundo andar pensando já nas enchentes. Aliás, casas com dois pavimentos predominam em áreas vulneráveis às inundações. É uma solução. Assim a família viu a água invadir a residência em 2008 e 2011, mas sem acumular grandes prejuízos.

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— A Bacia do Vale do Itajaí tem a maior recorrência de desastres em Santa Catarina. Ali nas enchentes de 1983 tivemos uma mobilização forte na região para implantação do sistema de alerta, mas uma virada de chave mesmo para projetos de mitigação de desastres veio a partir de 2008. Foi feita uma nova parceria com a Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica) e ali apontou investimentos em obras estruturais — diz o coordenador de Monitoramento e Alerta da Defesa Civil de Santa Catarina, Frederico de Moraes Rudorff.

Entre as obras, ele cita a elevação das barragens de Taió e Ituporanga, melhoramentos fluviais, canais extravasores, dique, previsões e radares – como o de Lontras que passou um longo período desativado por falta de peças. Embora nem todas tenham a estrutura desejada — algumas cidades ainda não contam nem com cota de cheias – a maioria das prefeituras se articula para atuar diante dos fenômenos e conseguem dar uma resposta mais rápida à sociedade em eventos extremos.

Na visão de Rudorff, informações e obras existem, o que falta é os municípios alinharem esse conhecimento técnico ao planejamento urbano das cidades. Ele também aponta a necessidade de investir em “drenagens atualmente subdimensionadas e malconservadas”.

O professor e naturalista Lauro Bacca complementa. As retificações e canalização de cursos d’água causam impacto na água que bate à porta de famílias como Márcia e Hélio. Outro aspecto a ser considerado, segundo ele, são os aterros de áreas baixas, que acabam eliminando áreas alagáveis que somadas em todo o território do Vale do Itajaí poderiam amenizar a proporção das cheias.

Ficha técnica

Barragem Norte – José Boiteux, colocada em operação em 1992, é a maior barragem de contenção de cheias do Brasil, com o volume de 357 milhões de metros cúbicos.

Barragem Oeste – Taió, colocada em operação em1973, volume de 83 milhões de metros cúbicos.

Barragem Sul – Ituporanga, colocada em operação em1979, volume de 93,5 milhões de metros cúbicos.

Para não esquecer

1983: em julho daquele ano, cinco dias de chuvas intensas fizeram o Rio Itajaí-Açu subir mais de 15 metros, inundando 90 municípios, entre eles Blumenau, Itajaí e Rio do Sul. Ao todo, foram 49 mortes e aproximadamente 198 mil desabrigados, conforme a Defesa Civil do Estado de Santa Catarina.

1984: o Rio Itajaí-Açu novamente inundou as cidades do Vale do Itajaí, deixando cerca de 150 mil desalojados, 70 mil desabrigados, o que representou, na época, em média 40% da população de Blumenau, Brusque, Gaspar e São João Baptista. A enchente de 1984 fez 16 vítimas fatais.

Assista ao especial do Rio Itajaí-Açu

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