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Conheça a jornada das águas cristalinas que dão vida ao Rio Itajaí-Açu; fotos

Reportagem do Santa foi ao interior do Alto Vale, da Grande Florianópolis e do Planalto Norte para registrar as nascentes que dão vida ao principal rio da região

02/10/2021 - 07h01 - Atualizada em: 03/10/2021 - 18h01

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Talita
Por Talita Catie
Gotas límpidas são encontradas nas nascentes do Itajaí-Açu
Gotas límpidas são encontradas nas nascentes do Itajaí-Açu
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No alto de montanhas e dos paredões rochosos cobertos pelo verde da mata se escondem as nascentes do Itajaí-Açu. A vegetação fechada e o solo íngreme se impõem como guardiões das gotas que brotam tranquilas, límpidas e despretensiosas. Quem se aventura a chegar bem perto, se espanta com a diferença do rio que passa por 11 cidades do Vale imponente e barrento em direção ao mar.

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Genésio Rech tem a satisfação de viver às margens do Rio Azul, na pequena cidade de Rio do Campo, no Alto Vale. Pelo quintal de casa passam as águas que vêm da nascente localizada a cerca de 10 quilômetros dali. A poucos metros de uma plantação de arroz, ele não é mais o mesmo de antigamente, reconhece o morador. Apesar de ainda bem cristalino, já não leva a cor que carrega no nome.

— Os antigos contam que essa água era bem azulzinha. Hoje não é tanto, principalmente agora que está muito seco, mas os moradores cuidam com os agrotóxicos das plantações e para ninguém jogar lixo. Pode ver, está limpinho — afirma Genésio no auge dos 50 anos e dos quais mais da metade foram se divertindo no Rio Azul.

Com a estiagem deste ano, a água mal chega na altura das canelas do agricultor. Nem parece o que costuma ficar até com dois metros de altura e às vezes assusta pela força quando chove. Genésio já viu o rio transbordar e atingir as casas, mas se apega mesmo aos bons momentos. Fala entusiasmado das tardes de sol, aos fins de semana, quando os vizinhos se reúnem às margens da nascente do Itajaí-Açu para descansar.

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— Já peguei carpa de 10 quilos aqui. Uma vez eu e meu irmão vimos um cardume e pegamos uma tarrafa emprestada para pescar. Era tanto peixe que chegou a arrebentar — recorda o agricultor.

A pouco metros de distância da casa dele, o Rio Azul se encontra com o Ribeirão Verde. Juntos ganham mais volume, força e vão desaguar no Rio Itajaí do Oeste, ainda na cidade de Rio do Campo. Dali a jornada é de aproximadamente 132 quilômetros até se encontrar com outro majestoso: o Rio Itajaí do Sul. A nascente está em Alfredo Wagner, na região da Grande Florianópolis, no alto da Serra Geral.

Genésio mostra orgulhoso a transparência da água em Rio do Campo
Genésio mostra orgulhoso a transparência da água em Rio do Campo
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É perto de espetaculares formações rochosas de arenito batizadas de Soldados Sebold, no Campo dos Padres, que corre cristalino e cercado por árvores o Rio Lajeado. A região é o lar do jovem Renan Schuller e da esposa, Vanessa. A paixão do casal pela natureza os tirou da cidade e os levou para o campo. Os dois são guias de turismo e fizeram da morada um lugar a ser desbravado.

— Lá em 2012 ou 2013 viemos aqui a primeira vez de bicicleta. Antigamente o pessoal usava muito esse local para caçar e criar gado, então encontramos muita sujeira. Tanto que na segunda vez viemos de camionete, e até então isso era difícil porque não tinha estrada como hoje, e tiramos bastante lixo. Fizemos uma limpeza e começamos a trabalhar com grupos para trekking e acampamento — conta.

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Para ver de perto a nascente, é preciso estar de carro 4x4 e ainda ter muita força nas pernas. Mas o cenário vale o esforço. O verde contrasta com as rochas por onde escorre o Rio Lajeado que mais à frente se encontra com o Águas Frias e segue o fluxo levando o nome também de Caeté, onde desagua o Rio Adaga para então dar origem ao Itajaí do Sul, bem no Centro da Alfredo Wagner. Lá é possível até observar cardumes de peixes.

— Atuamos realmente como guardiões aqui. Ficamos a semana toda cuidando do acesso do pessoal, mantendo para não fazerem fogueira em local proibido, não sujarem o rio, fazerem as necessidades só nos banheiros, que estamos trocando para poluir menos. Trabalhamos para deixar tudo sempre o mais natural possível e manter essa água limpa e pura por mais tempo possível — pontua o guia.

Mapa mostra a extensão dos principais afluentes do Itajaí-Açu
Mapa mostra a extensão dos principais afluentes do Itajaí-Açu
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Um gigante de 187 quilômetros

As águas que correm pelas casas de Genésio, em Rio do Campo, e de Renan, em Alfredo Wagner, se encontram no Centro de Rio do Sul, tida como a capital do Alto Vale. Exatamente sobre a Ponte Viriato Alves Garcia ganha vida o Itajaí-Açu. O gigante sinuoso corre por cerca de 187 quilômetros em direção ao Oceano Atlântico. Nessa viagem a caminho do mar, além da cidade de origem, vai passar por Lontras, Ibirama, Apiúna Ascurra, Indaial, Blumenau, Gaspar, Ilhota, Navegantes e Itajaí.

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O caminho longo é cercado por um emaranhado de cursos d’água que vão alimentar o Itajaí-Açu durante o percurso. Não à toa, ele é o maior rio da bacia hidrográfica do Vale, que por sua vez é a maior de Santa Catarina. Compreende 51 cidades, soma mais de 1,5 milhão de habitantes e tem ao menos outros quatro grandes afluentes. No mais distante, em Papanduva, Região Norte de Santa Catarina, mora Adão Estoieski, de 65 anos.

O produtor rural nasceu, cresceu e criou família numa propriedade por onde passa o Ribeirão das Pedras, que chega ao Rio Bonito, deságua no Iraputã e vai cair no Itajaí do Norte. Uma gota de água que brota nesta região percorre o maior caminho dentro da Bacia do Itajaí. São 364 quilômetros até chegar ao Oceano Atlântico, calcula o naturalista e ambientalista Lauro Bacca, presidente da Associação Catarinense de Preservação da Natureza (Acaprena).

As terras da família estão em localidade rural, bem afastada da urbanização. Sinais de proteção à água. Fresca, transparente, sem cheiro, refrescou as filhas e a esposa de Estoieski enquanto ainda viviam do campo. “As crianças” do casal cresceram, foram para a cidade grande, mas o refúgio segue lá intocável para recebê-las.

— Já pensei em vender, não tenho mais como cuidar disso tudo. Mas aí soube que iam desmatar. Daí não quis. Vou deixar tudo para os meus filhos e netos — fala o agricultor no alto da propriedade, de onde brotam inúmeras nascentes.

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Adão é morador de Papanduva e faz questão de tomar a água da nascente para mostrar o quão limpa é
Adão é morador de Papanduva e faz questão de tomar a água da nascente para mostrar o quão limpa é
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O Rio Itajaí do Norte vai encontrar o Açu na cidade de Ibirama. Dali para baixo o gigante do Vale ainda é banhado pelas águas vindas dos rios Benedito, Luiz Alves e Itajaí-Mirim. Curiosamente os últimos sete quilômetros antes de chegar à foz não leva mais Açu no nome e o majestoso formado em Rio do Sul passa a se chamar apenas Rio Itajaí.

Para o professor Lauro Bacca a explicação histórica é bastante compreensível. Na colonização o acesso ao Vale era exclusivo por água. Ao entrar no rio, ainda na foz, ele foi batizado de Itajaí. Mais para frente, ao se observar uma confluência, ficou nominado de Mirim o curso menor de água e Açu o maior. As duas palavras são de origem indígena e querem dizer, respectivamente, pequeno e grande.

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O imponente Rio Itajaí-Açu se esparrama no mar com outra face: amarelado e com cheiro forte. A pouca vegetação às margens não consegue mais protegê-lo da ação humana e escancara a erosão e falta de saneamento básico ao longo do caminho. Apesar de já descaracterizado, sobretudo para quem vê de onde ele nasce, ainda é um gigante e serve de casa para os portos.

Assista ao especial do Rio Itajaí-Açu

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