Um visitante de primeira viagem que desembarca na Joinville do século 21 provavelmente desconhece que o maior polo industrial de Santa Catarina nasceu com uma vocação bem diferente. A cidade que se tornou conhecida pelas grandes fábricas foi constituída em 1851 para ser uma colônia agrícola. Os primeiros imigrantes que nela chegaram, no entanto, trataram de dar novo rumo às terras que compunham o dote de Dona Francisca, filha de Dom Pedro I. Da Europa, sobretudo da Alemanha, vieram comerciantes, oficiais, acadêmicos e artesãos de toda ordem, uma mão de obra qualificada que se somou aos agricultores e que ajudou a plantar a semente para um desenvolvimento que iria muito além de atividades primárias.

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Registros históricos apontam que a primeira indústria instalada em Joinville foi uma olaria, criada pelo imigrante Bernhard Poschaan já em 1852. O jornalista e escritor Joel Gehlen narra no livro “Acij na História de Joinville – 110 anos de legados econômicos e sociais” que, à medida em que chegavam novos colonos com algum capital para investir, começam a surgir novos empreendimentos. Ferrarias, alambiques, engenhos, cervejarias, marcenarias, curtumes, tecelagens, processamento de alimentos em conserva e cerâmicas foram estabelecidos para suprir as necessidades dos moradores, dando ares urbanos à colônia.

– Vieram para cá pessoas que não eram da agricultura. Isso é uma coisa recorrente dos europeus, de se voltarem para aquilo que eles realmente conheciam, a manufatura – avalia Gehlen.

O passado ajuda a explicar o dinamismo da Joinville de 2022. Vigésima sexta maior economia do Brasil e a maior de Santa Catarina, dona de um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 34,5 bilhões, a cidade tem uma indústria bastante diversificada. Há empresas líderes de mercado nos ramos metalúrgico, têxtil, plástico e automotivo, uma carteira de peso formada por nomes como Tupy, Nidec (que comprou a Embraco), Tigre, Krona, Schulz, Ciser e centenárias como Dohler e Lepper, entre outras. O segmento já não é predominante no PIB – representa 25,9% da soma de riquezas, bem atrás do setor de serviços, que responde por 43% –, mas ainda é um impactante cartão de visitas.

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Um dos símbolos desse vigor industrial é o Perini Business Park. Fundado em 2001, o maior parque multissetorial da América do Sul já reúne mais de 250 empresas, tem 8 mil trabalhadores diretos e concentra 20% do PIB da cidade em um espaço de 312 mil metros quadrados de área construída. E que vai ficar ainda maior. Mais 12 mil metros quadrados de uma estrutura modular devem ser entregues em 2022, antecipa o presidente do Perini, Marcelo Hack. O investimento estimado é de R$ 30 milhões.

> Perini Business Park planeja investir R$ 30 milhões para ampliar estrutura em Joinville

Assim como a própria cidade, o Perini também está revendo a própria vocação. O parque que nasceu com uma proposta de concentrar indústrias hoje se considera um empreendimento empresarial. É uma mudança de status que pode parecer sutil, mas que abre um leque para o setor de serviços e de atividades de apoio à indústria.

Perini Business Park
Perini Business Park, fundado em 2001, já tem 250 empresas (Foto: Rodrigo Philipps / Agencia RBS)

Essa transformação começou a ganhar mais corpo a partir de 2015, com dois acontecimentos importantes de consolidação: a inauguração de um campus da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 2018, onde atualmente estudam em torno de 2 mil alunos, e a construção, em 2019, do Ágora Tech Park, um parque tecnológico para fomentar a inovação que é o lado “mais promissor do Perini”, avalia Hack.

– Joinville é uma cidade que historicamente tem um perfil mais industrial, mas nos últimos anos a cidade viveu um movimento organizado para fomentar a inovação e o empreendedorismo. Isso passa pelo fomento de tecnologias e startups – acrescenta Fabiano Del Agnollo, diretor da Join.Valle, uma associação que reúne empreendedores dispostos a investir em novos negócios com potencial de rápido crescimento.

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Há terreno fértil para isso. Um estudo recente da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate) e da Neoway mostrou que, em Joinville, são 2,4 empresas do setor instaladas para cada mil habitantes do município. Uma parte desse ecossistema é formado por startups. A Join.Valle, segundo Del Agnollo, está finalizando um novo mapeamento para identificar e atualizar o perfil deste tipo de negócio na cidade.

Associativismo impulsiona transformação social

A geração de empregos é uma importante contribuição social das empresas, mas em Joinville muitas delas têm se unido para ir além. Um dos bons exemplos vem da mobilização da associação empresarial (Acij) que resultou na doação de 83 leitos para o Hospital São José em um momento em que a pandemia estava no seu auge e ainda não havia vacinas para proteger a população. A entidade ainda viabilizou, em março do ano passado, outros 27 leitos à Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) Leste, no bairro Aventureiro, para atendimento de pacientes com Covid-19.

– A agilidade do poder privado em promover isso é muito maior. A sociedade não podia ficar esperando – justifica o presidente Marco Antônio Corsini, ao ressaltar o legado deixado à infraestrutura pública de saúde.

Na área econômica, há atenção especial também para um desafio comum a muitos setores e que não se restringe a Joinville: a carência de mão de obra capacitada para algumas funções, mesmo em um cenário de pleno emprego. Para tentar suprir este gargalo, Acij, Senai e prefeitura juntaram forças para criar o programa Joinville Emprega +. A ideia é oferecer cursos gratuitos descentralizados e focados em necessidades específicas do mercado.

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A própria associação mapeou que a cidade tem 9,8 mil desempregados, 14 mil desalentados – gente que quer trabalhar, mas desistiu de procurar um ofício por acreditar que não conseguiria encontrar – e 69 mil trabalhadores informais. Tamanho contingente pode ser aproveitado, avalia Corsini, em grandes empresas que têm vagas formais abertas e que precisam de pessoal.

– É um trabalho que tem dois vieses: o econômico, para atender a necessidade da indústria, e o social, que é dar dignidade para essas pessoas terem uma carteira assinada, um salário no final do mês – resume o presidente.

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