Com cerca de 16 mil habitantes, a praia de Canasvieiras, em Florianópolis, deixou de ser uma vila de pescadores, no século passado, para se transformar em um reduto argentino do Brasil. Na noite de quarta-feira (15), o bairro foi palco da festa argentina pela classificação à final da Copa do Mundo de 2026, com torcedores lotando as ruas com bandeiras celestes, cantos em espanhol e fogos de artifício.

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Segundo estimativa da prefeitura com base no Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Canasvieiras tem 15.979 habitantes. O bairro tem moradores argentinos e costuma atrair turistas vindos do país vizinho, especialmente durante o verão.

Após a vitória da Argentina sobre a Inglaterra, orcedores lotaram as ruas do “centrinho” do bairro. Entre eles estava a argentina Antonella Meneguzzi, de 25 anos, que mora em Florianópolis há três anos e escolheu assistir à semifinal em Canasvieiras justamente para viver o clima da torcida.

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— A gente gosta de se sentir acolhido por outros argentinos, e aqui vai ter muito. Então, a gente veio pra cá — disse. antes da partida.

Veja fotos da festa argentina em Canasvieiras

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“Portunhol” é o idioma em Canasvieiras

Localizada no Norte da Ilha, Canasvieiras foi fundada como freguesia em 1835. No início do século 20, era um pequeno núcleo de pescadores, marcado pela influência de imigrantes açorianos. Ao longo do século passado, passou a reunir cada vez mais turistas argentinos, atraídos pelas águas quentes, pelo mar tranquilo a apenas duas horas de voo.

Hoje em dia, na faixa de areia, é comum ver turistas com garrafas de mate, camisas da seleção argentina ou de clubes como River Plate e Boca Junior. Nas placas em frente aos imóveis, aluguel vira “alquiler” e no comércio o “portunhol” vira um segundo idioma oficial nos meses de verão.

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Com Canasvieiras foi de vila de pescadores a reduto argentino

O sucesso entre os argentinos começou na década de 1960, quando empresário José Carlos Daux, percebeu o potencial turístico da região, após encontrar alguns argentinos que já viajavam para Canasvieiras e se hospedavam em casas de pescadores ou ranchos de pesca.

Naquela época, não havia um acesso direto à região e a viagem do Centro de Florianópolis levava até duas horas. Em algumas praias, a passagem dependia da variação da maré e não havia nem energia elétrica. José Carlos Daux comprou terrenos e construiu um hotel formado por casinhas de madeira de frente para o mar.

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— Nos anos 1980 e 1990, durante o inverno, ele ia para Buenos Aires, alugava um escritório dentro de um hotel na área central e anunciava nos jornais Clarín e La Nación ofertas de imóveis para alugar em Canasvieiras. Isso começou a incentivar, e quase que criou essa vida toda para a região — conta o neto, o engenheiro e empresário José Augusto Daux. 

Fotos mostram passado de Canasvieiras

A invasão porteña nos anos 1970

Na primeira metade da década de 1970, os argentinos descobriram de vez o litoral de SC. O livro “A História do Turismo de Florianópolis” narra que eles vinham em especial em voos charter (fretados) da companhia aérea Austral. Em janeiro de 1974, a “invasão portenha” trouxe argentinos de carro para destinos como Balneário Camboriú e Florianópolis. 

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Programas e propagandas de rádio na emissora Diário da Manhã começaram a ser veiculados também em espanhol. O jornal Clarín era encontrado nas bancas e até missas em espanhol eram celebradas na região de Ponta das Canas. A imprensa nacional começou a noticiar a capital catarinense como destino de turistas estrangeiros. 

A dificuldade para lojistas aceitarem dólar começou a ser driblada com câmbio paralelo negociado em ruas da Capital. Surgiram o asfalto, hotéis, casas de aluguel, bares e restaurantes erguidos por empreendedores locais e de cidades como São Paulo e Porto Alegre. 

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Boom de argentinos e a época do “dá-me dos” 

A partir da década de 1980, Florianópolis tornou-se destino consolidado para os argentinos. O escritor e pioneiro do turismo da Capital, Antônio Pereira Oliveira, conta que a crise financeira brasileira valorizou o câmbio para os turistas e fez o consumo explodir de vez. 

Era a época do “dá-me dos”. Surpresos com os preços acessíveis para os padrões argentinos, os hermanos pediam tudo em dobro para aproveitar. Uma fase que está parecendo familiar a quem acompanha a onda de consumo dos argentinos no verão deste ano em Florianópolis. 

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Desde produtos de praia até móveis embutidos entravam nas compras de famílias argentinas, chegando a fazer com que fabricantes de Florianópolis se unissem para enviar caminhões e entregar os produtos no país vizinho. 

— Minha família tinha uma loja de eletrodomésticos. Quando foi lançada a TV colorida, lembro de um casal que veio de motor home e encheu o veículo de aparelhos de televisão — conta o escritor Antônio Pereira Oliveira, citando que na época havia pouco controle sobre o trânsito de mercadorias entre os países. 

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As décadas de 1980 e 1990 foram consideradas as de maior explosão de argentinos em Canasvieiras. Desde então, a oscilação do dólar alternou momentos em que argentinos vinham em maior número com outros em que os brasileiros aproveitavam a moeda forte para passear por Buenos Aires. 

Desde então ocorre uma espécie de vento Sul e vento Norte. Se o câmbio está bom para eles, era como se fosse um vento Sul que os trazia, se o câmbio estava bom para nós, era um vento Norte que levava os brasileiros para lá — brinca o escritor. 

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Veja fotos atuais de Canasvieiras