Recentemente, Santa Catarina entrou no radar da Polícia Federal e da Vigilância Sanitária. Na Operação Heavy Pen, deflagrada em abril de 2026, mandados de busca foram cumpridos em Joinville e Lages, mirando um esquema nacional de falsificação de medicamentos para emagrecer (como a semaglutida e a ainda não autorizada retatrutida).
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Este cenário não é um caso isolado, em 2025, uma investigação em Jaraguá do Sul chocou o estado: uma mulher foi parar na UTI após aplicar o que acreditava ser Ozempic, mas que na verdade continha insulina, uma substituição que pode ser fatal para quem não é diabético.
Não estamos falando apenas de “perda de dinheiro” ou “falta de efeito”, mas de um risco biológico e químico real que entra diretamente na sua corrente sanguínea. Sabemos que o mercado das canetas emagrecedoras (como Ozempic, Wegovy e Mounjaro) explodiu, e com ele, o mercado paralelo, então, hoje, meu alerta vai além do emagrecimento: estamos falando de risco de morte, infecções graves e danos irreversíveis.
Para ser mais clara possível, conversei com o especialista José Santin,professor de farmacologia da UNIVALI e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Toxicologia (SBTox), sobre os aspectos toxicológicos e farmacêuticos desses produtos.
Do ponto de vista toxicológico e farmacêutico, quais são os sinais de alerta no aspecto do produto (embalagem, cor do líquido, armazenamento) que indicam que aquela “caneta” é clandestina?
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— Alguns detalhes simples já ajudam a identificar quando uma “caneta emagrecedora” pode não ser confiável — diz Dr Santin.
A embalagem é um dos primeiros pontos de atenção: a ausência de registro na ANVISA, a falta de informações como lote, validade e fabricante, ou até erros de impressão são sinais importantes de alerta. A própria caneta também deve ser observada, já que produtos regulares apresentam acabamento adequado e sistema de dose preciso, qualquer aspecto frágil ou funcionamento impreciso levanta suspeitas.
Outro ponto fundamental é o líquido: o esperado é que seja transparente e sem partículas, então qualquer turvação, mudança de cor ou presença de resíduos pode indicar degradação ou contaminação.
Além disso, esses medicamentos exigem refrigeração, e falhas no armazenamento ou transporte comprometem a qualidade do produto. Por fim, a origem da compra é determinante, produtos adquiridos fora de farmácias, especialmente por redes sociais, representam um risco muito maior. Em síntese, sempre que houver dúvida sobre procedência, integridade ou conservação, o mais seguro é não utilizar, pois o risco à saúde pode ser relevante.
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Por que a compra em canais não oficiais (redes sociais, academias ou sites sem registro) anula qualquer garantia de eficácia e segurança do tratamento?
— A compra por canais não oficiais praticamente elimina qualquer garantia de eficácia e segurança porque rompe toda a cadeia de controle sanitário que existe para medicamentos.
Produtos regularizados junto à ANVISA passam por avaliação de qualidade, segurança e eficácia, além de seguirem regras rigorosas de fabricação, transporte e armazenamento. Quando o produto é adquirido por redes sociais, ou sites sem registro, não há garantia de que ele contenha o princípio ativo correto, na dose adequada, nem de que esteja livre de contaminações.
Além disso, perde-se a rastreabilidade, não é possível saber a origem, o lote ou as condições em que aquele produto foi armazenado, o que é especialmente crítico para medicamentos injetáveis e biológicos, que são sensíveis à temperatura.
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Também não há controle sobre possíveis falsificações ou adulterações, o que pode levar tanto à ineficácia do tratamento quanto a efeitos adversos inesperados. Em resumo, fora dos canais oficiais, o produto deixa de ser um medicamento confiável e passa a ser uma substância de origem incerta, sem qualquer garantia de qualidade, o que, do ponto de vista toxicológico, representa um risco real ao paciente.
Quais são as possíveis sequelas irreversíveis que o uso de uma substância tóxica ou contaminada pode deixar no fígado, rins ou sistema cardiovascular?
— O ponto mais importante é que, sem controle de qualidade e sem saber exatamente qual substância, e em que dose está sendo administrada, não há como prever o tipo nem a gravidade do dano.
Por isso, o uso desses produtos representa um risco real de efeitos não só agudos, mas também crônicos.
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Existe o risco de contaminação biológica (bactérias ou fungos) em produtos fabricados sem as normas da ANVISA? Quais doenças podem ser transmitidas por essa via?
— Sim, esse risco é real! — enfatiza Santin — E do ponto de vista toxicológico e regulatório, bastante preocupante.
Medicamentos injetáveis precisam ser produzidos em condições rigorosas de assepsia, seguindo normas estabelecidas pela ANVISA. Quando essas boas práticas não são seguidas, há possibilidade de contaminação por bactérias, fungos e endotoxinas.
Na prática, isso pode levar a infecções locais, como abscessos no local da aplicação, mas também a quadros muito mais graves. Ou seja, além do risco químico da substância em si, existe também um risco biológico importante quando o produto não segue padrões sanitários, o que reforça a gravidade do uso de produtos clandestinos.
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Por qual motivo as canetas emagrecedoras necessitam de registro da ANVISA?
As “canetas emagrecedoras” precisam de registro na ANVISA porque são medicamentos. Ou seja, Isso exige uma avaliação rigorosa antes de chegarem ao paciente. O registro garante que o produto passou por estudos que comprovam eficácia, segurança e qualidade, além de assegurar que ele é fabricado dentro de padrões controlados, com pureza, dose correta e ausência de contaminantes.
Também envolve a validação das condições de armazenamento, transporte e estabilidade, que são fundamentais para esse tipo de produto. Sem esse processo, não há garantia de que o paciente está recebendo o que realmente está no rótulo, nem de que o uso será seguro.
Do ponto de vista regulatório e toxicológico, o registro não é apenas uma formalidade: é o que diferencia um medicamento confiável de um produto de risco incerto.
A comercialização dessas canetas fora de farmácias licenciadas é crime e coloca toda a saúde pública em risco. Se você se deparou com anúncios suspeitos em redes sociais, vendas em academias ou recebeu um produto com sinais de falsificação, não se cale. A fiscalização em Santa Catarina atua com base no relato de quem consome. Para denunciar irregularidades, você pode utilizar os seguintes canais:
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- Vigilância Sanitária de Santa Catarina (DIVS): Através do site oficial ou diretamente com a vigilância do seu município.
- Disque-Denúncia da Polícia Civil: Ligue 181 ou envie uma mensagem via WhatsApp para o número (48) 98844-0011. O sigilo é absoluto.
- Ouvidoria da ANVISA: Pelo site oficial ou pelo telefone 0800 642 9782.
Emagrecer com saúde exige acompanhamento médico e medicamentos de procedência garantida. No mercado paralelo, o barato pode custar a sua vida. Na dúvida sobre a procedência ou conservação? Não utilize.
Por Sabrina Sabino, médica infectologista, formada em Medicina pela PUCRS, mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora de Doenças Infecciosas na Universidade Regional de Blumenau.

