São mais de 200 sítios arqueológicos existentes na Baía Babitonga, região que abrange seis cidades do Norte de Santa Catarina. Os achados nesse território permitiram a criação do Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville (MASJ) em 1972. Desde então, o local abriga cerca de 100 mil peças que contam a história dos povos originários catarinenses, que viveram na terra muito antes da colonização europeia.

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A coordenadora do MASJ, Ana Paula Klahold Rosa, explica que o local foi o primeiro do Brasil pensado para ser um museu. O grande arquivo joinvilense surgiu após um decreto, assinado em 1990, reforçar a importância da reestruturação e preservação arqueológica no país. A partir daí, o museu passou a receber diversas coleções — como a do arqueólogo amador Guilherme Tiburtius, que localizou artefatos interessantes na região entre os anos de 1940 e 1960.

— Então Joinville já tem essa visão de pesquisa, de preservação, há mais de 50 anos — pontua Ana Paula.

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A geógrafa especialista em arqueologia ainda afirma que as descobertas feitas em Joinville são importantes para mostrar ao mundo que a história sul-americana também é importante e deve ser celebrada.

— Como pesquisador, como museu, como joinvilense e como sul-americano, como um país do terceiro mundo que normalmente é subjugado, a gente vem mostrando que dentro da nossa realidade temos um desenvolvimento ancestral gigantesco. E mostrar a importância da ancestralidade desses povos que aqui viveram, do pertencimento que eles têm dessa região e de quanto foram importantes no desenvolvimento do ser humano até hoje. Então, eu acho que essas pesquisas, essas revelações, mostram o quanto a gente precisa parar e analisar que quem é o evoluído na nossa história, quem de fato pertence a esse espaço — afirma a profissional.

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Ana Paula ainda afirma que as pesquisas feita pelo MASJ — ou em parceria — levam o nome de Joinville para os holofotes mundiais.

— Ele [o MASJ] já é muito conhecido dentro do campo da pesquisa. Mas a pesquisa ficou muito restrita ao cientista. Então, eu acho que os estudos trazem ao joinvilense a percepção de que visitar o museu, estar em um espaço de memória, que visitar o que é gratuito, o que é dele, também tem grande relevância mundial — diz.

Pesquisas em campo

Manter um acervo vai além de proporcionar à população um passeio interessante pela história. Significa também endossar pesquisadores e cientistas a descobrirem ainda mais elementos sobre a memória dos povos indígenas e sambaquianos que viviam em Joinville.

O trabalho para a manutenção do local, no entanto, começa em sítios arqueológicos localizados em Joinville, Araquari, Balneário Barro do Sul, Itapoá, São Francisco do Sul e Garuva. São essas seis cidades que formam a Baía Babintoga, um território rico em história.

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Os sítios arqueológicos são tombados por lei federal e regidos pelo governo do Brasil por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Por meio de uma parceria, o MASJ é autorizado a realizar vistoriais nos sítios de sambaqui na região.

A geógrafa explica que os sambaquis são sítios arqueológicos construídos por populações pré-coloniais há cerca de 6 mil anos. Nesses locais, ficavam populações que amontoavam conchas e viviam sobre elas.

— Ali eles faziam rituais, alimentação. Eram locais de moradia, de enterramento. Então, ali dentro desse grande acumulado de conchas tem muitos vestígios humanos. E os sambaquis podem ser rasos, com um a dois metros de altura. Mas existem sítios com mais de 30 metros de altura e 100 metros de comprimento — revela.

Para escavar e estudar esses locais é preciso estruturar um projeto e apresentá-lo ao Iphan, que decide se o tema é relevante e se não haverá dano ao sítio durante a pesquisa. No entanto, Ana Paula revela que diversas possibilidades são analisadas antes de ir a campo, como se existem tecnologias que realmente vão auxiliar a identificar o que for encontrado nos sítios.

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— Hoje em dia a gente tem essa noção de que não precisamos sair escavando o sambaqui porque a nossa tecnologia é limitada. Cada vez a gente descobre uma tecnologia a mais. Por isso, a gente só faz a escavação, o salvamento de um sítio arqueológico, se ele for pontual e tiver muita significância. Caso contrário, a gente prefere preservar, porque a gente sabe que sempre vão ter coisas a mais para descobrir. E se retirarmos agora e não preservarmos corretamente, podemos danificar uma pesquisa futura — afirma.

Endosso institucional

No entanto, caso o estudo seja relevante para o momento, a escavação é liberada com um endosso institucional junto a alguma instituição de salvaguarda, como o Iphan.

— Também existe um outro tipo de pesquisa, que é o que a gente [o MASJ] serve de apoio — esclarece.

Caso um cientista pesquise um tema relacionado às populações sambaquianas ou suas criações, o MASJ pode fornecer os artefatos para estudo. O projeto também precisa ser aprovado pela coordenação do museu.

Recentemente, o MASJ recebeu uma obra de ampliação, que permitiu o museu a aceitar, novamente, doações e compras de mais artefatos para o acervo. Isso significa que o museu poderá apoiar ainda mais pesquisas no futuro.

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Descobertas arqueológicas

A última descoberta que ganhou os holofotes mundiais foi descrita no estudo “Identificação molecular e zooarqueológica de arpões de osso de baleia com 5000 anos de idade no litoral do Brasil”, que foi publicado pela revista científica Nature em janeiro deste ano.

A pesquisa feita por cinco anos culminou em um achado que reconta a história da caça de baleias em todo o mundo. Pesquisadores brasileiros, incluindo arqueólogos do MASJ, e estrangeiros se uniram para analisar peças do MASJ sob uma nova perspectiva.

Com a ajuda de novas tecnologias, foi descoberto que esses artefatos na verdade eram arpões criados e usados há mais de 5 mil anos para abater animais marinhos na Baía Babitonga.

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O estudo explica que o fato mostra que os povos originários da região caçavam e matavam baleias, de forma intencional, há mais tempo do que se imaginava. Até então, as evidências mais antigas desse tipo de prática vinham de sítios arqueológicos no Ártico e no Pacífico Norte, com registros entre 3.500 e 2.500 anos atrás.

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Até a conclusão do estudo, acreditava-se que os povos sambaquianos se limitavam apenas a construir arpões com matéria prima que vinha da exploração de baleias encalhadas ou carcaças trazidas pela maré.

No entanto, ficou provado que as ações também eram feitas de forma intencional. Os arpões eram produzidos para abater baleias em alto mar, o que demonstra conhecimento técnico e organização social suficientes para organizar as caças.

A coordenadora do MASJ ainda revela que uma nova pesquisa de geoarqueologia poderá, em breve, expor novas informações sobre a região Norte catarinense. Além disso, o museu apoia diversas pesquisas internacionais e deve continuar sob os holofotes mundiais nos próximos anos.

Desafios de preservar o patrimônio

Apesar da região ser rica em história, Ana Paula alerta sob os desafios de preservar o acervo e os sítios arqueológicos na Baía Babitonga. O localizado no Cubatão, por exemplo, passa por frequentes erosões costeiras devido às mudanças climáticas.

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— Como os sambaquis são montes, chuvas torrenciais muitas vezes causam o desmoronamento. Então, as mudanças climáticas são um grande desafio. A expansão urbana e a especulação imobiliária também são grandes adversidades — expõe.

Além disso, a falta de financiamento para novos estudos dificulta o andamento da ciência brasileira, assim como a falta de interesse de jovens para pesquisar os povos originários.

Visitas ao MASJ

As peças e pesquisas citadas nesta matéria, como os arpões feitos de ossos de baleia, podem ser conhecidos no acervo do Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville, na Rua Dona Francisca. O museu atende de terça-feira a domingo, das 10h às 16h.