Os moradores de Balneário Piçarras, no Norte catarinense, se depararam com um “paredão” de areia que surgiu do nada em um trecho da orla. Com investimento superior a R$ 53 milhões, a praia passou, com obra inaugurada há cerca de dois meses, pelo seu quarto alargamento em um período de 28 anos.
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Apesar de ter surgido “do nada”, a causa do fenômeno não é misteriosa. Balneário Piçarras enfrenta há décadas os efeitos da erosão costeira, que é a perda de areia na orla de uma praia, influenciada pelo avanço do mar. Imagens registraram o estado atual da orla que impressionou os banhistas.
Veja fotos da erosão costeira em Balneário Piçarras
Como foi a obra de alargamento
A erosão surgiu em um dos trechos da praia que passou pela megaobra de alargamento, inaugurada em meados de abril deste ano. O mesmo trecho já havia sido alargado em 1998, 2008 e 2012.
A mais recente intervenção milionária, executada em 75 dias, ocorreu no trecho de dois quilômetros entre a Avenida Getúlio Vargas e o molhe da Barra do Rio Piçarras, incluindo a ampliação do projeto no sentido norte em 430 metros.
A operação foi realizada pela draga Amazone, responsável pelo transporte de cerca de seis mil metros cúbicos de areia por ciclo, com até quatro ciclos diários. Os sedimentos utilizados possuem características semelhantes às da areia original da praia, conforme exigências do licenciamento ambiental.
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O material foi retirado de uma jazida localizada a aproximadamente 10,5 quilômetros da Praia Central, nas proximidades da Ponta da Vigia, no município de Penha. Ao todo, foram mais de 493.325,90 metros cúbicos de areia depositados na orla.
Dois meses após a inauguração que reconfigurou a orla, o desnível na faixa de areia foi flagrado por banhistas. A prefeitura da cidade informou que recebeu um parecer técnico da empresa Caruso, responsável pelo acompanhamento da obra até 12 meses após a finalização do alargamento.
Vídeo mostra desnível da areia
Confira imagens feitas logo após o fim da obra
Impactos negativos de um problema recorrente
Em janeiro deste ano, Arthur Ribeiro, secretário de Obras do município, explicou que os quatro alargamentos de praia nos últimos 28 anos foram motivados pelos mesmos problemas: a erosão costeira, ressacas e maré alta.
— A erosão costeira contínua é a perda dos sedimentos, de areia da faixa da orla. [Causa] danos recorrentes à infraestrutura pública, como à pavimentação asfáltica e também à rede de drenagem. Além, é claro, da redução da atratividade turística, já que com o estreitamento da praia limita o uso recreativo e a permanência das pessoas na faixa de areia, gerando, assim, um impacto negativo tanto para o comércio local quanto até mesmo para a arrecadação municipal — explica o secretário.
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O que diz parecer após “paredão” de areia
Segundo o parecer técnico em relação ao desnível de areia observado na última semana, trata-se de uma formação de escarpas erosivas que ocorre por conta da atuação de eventos de alta energia, processo comum nos meses de outono e inverno, período em que há aumento da frequência de ressacas e da passagem de frentes frias na região.
A ocorrência simultânea de marés de sizígia e desses eventos potencializa a remoção de sedimentos da pós-praia (porção emersa da praia), favorecendo a formação dessas feições erosivas.
“Os primeiros registros das escarpas ocorreram no final do mês de abril, período em que foram emitidos avisos de ressaca pela Marinha do Brasil para o litoral catarinense, indicando condições oceanográficas compatíveis com os processos observados”, informou o parecer.
Além disso, a formação de escarpas constitui um comportamento esperado após obras de alimentação artificial de praias, disse a empresa. Com a adição de sedimentos, a faixa de areia passa a apresentar um perfil mais elevado do que a condição de equilíbrio natural.
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Durante eventos de maior energia, ocorre um reajuste morfológico do perfil praial, com a redistribuição dos sedimentos da pós-praia para a antepraia, ou seja, a porção submersa da praia, e para outros trechos da costa, buscando uma nova condição de equilíbrio.
As ressacas associadas às ondulações provenientes dos quadrantes sul e sudeste constituem os principais agentes responsáveis pelos processos erosivos de curto prazo observados na região. Dessa forma, a formação das escarpas observadas é compatível com a dinâmica esperada para uma praia recentemente submetida a obras de alimentação artificial, não indicando, de forma isolada, uma condição de instabilidade ou comprometimento da obra executada.
“No entanto, trata-se de um processo que deve continuar sendo acompanhado por meio do monitoramento morfológico da praia, permitindo avaliar sua evolução ao longo do tempo e a resposta da faixa de areia aos eventos oceanográficos mais energéticos”, disse também o documento.
Inclusive, a empresa cita que o acompanhamento técnico dessa área já faz parte dos planos básicos ambientais previstos para a obra de engordamento da praia.
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Há um programa específico de monitoramento da linha de costa e do perfil praial, que acompanha continuamente o comportamento da faixa de areia ao longo de toda a área contemplada pela obra e também em trechos adjacentes. Na região onde ocorreu a formação da escarpa, existem perfis de monitoramento próximos que permitem avaliar a evolução das condições locais ao longo do tempo.
Esse acompanhamento vem sendo realizado desde antes do início das intervenções, permanece durante a execução da obra e continuará após sua conclusão, com monitoramentos previstos até o início de 2027.
“É importante destacar que a formação de uma escarpa após eventos de maior energia das ondas não significa, necessariamente, uma perda definitiva de areia ou um processo erosivo permanente. Em ambientes costeiros, é comum que parte da areia seja deslocada temporariamente para regiões mais profundas durante períodos de mar agitado e retorne à faixa de praia quando as condições do mar voltam à normalidade. O monitoramento contínuo é justamente o instrumento que permite acompanhar essa dinâmica e avaliar a necessidade de eventuais medidas adicionais”, cita.
Quais são as orientações para os banhistas
O paredão ou o desmoronamento dele pode apresentar risco à segurança de banhistas. Como medida de segurança, não é recomendado permanecer junto à base da escarpa nem se aproximar de sua borda superior.
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A escarpa possui altura suficiente para que eventuais desprendimentos de areia movam grandes volumes, que podem representar risco às pessoas que estejam próximas, como um soterramento, por exemplo.
Também não é recomendada a circulação próximo a borda da escarpa, pois o peso adicional pode favorecer o desprendimento de blocos de areia, aumentando o risco de acidentes além de contribuir para a erosão e o transporte dos sedimentos.
O local continuará sendo acompanhado por meio do programa de monitoramento da linha de costa, que permitirá avaliar a evolução das escarpas e a recuperação natural do perfil de praia após os eventos de maior energia. A prefeitura avaliará junto com seu corpo técnico as possíveis medidas a serem adotadas.
*Sob supervisão de Leandro Ferreira










