Só no final de novembro de 2025, agricultores tiveram mais de R$ 322 milhões em prejuízos causados por um fenômeno meteorológico comum: o granizo. As pedras de gelo que caem em tempestades danificam estruturas produtivas e afetam plantações de maçã, uva e até cebola. É na Serra, Meio-Oeste e Alto Vale onde se concentram os maiores prejuízos.
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É por isso que, desde 2024, o governo estadual investe em equipamentos que parecem controlar o clima. Sistemas antigranizo foram espalhados pelos locais mais afetados, em especial municípios serranos e do Meio-Oeste catarinense. Ao todo, já são 13 municípios que contam com a tecnologia.
Existem dois tipos de sistemas antigranizo: o mais difundido em Santa Catarina usa iodeto de prata para reduzir o tamanho do granizo, que derrete na queda ou ao menos atinge o solo e a plantação com menos impacto. Este tipo é o que o governo do Estado investe para os municípios, mas há também o canhão sônico, que municípios como Chapecó têm manifestado interesse. Neste tipo, ondas hipersônicas geradas por explosões controladas de gás acetileno para “quebrar” o granizo em partículas menores.
Por que Santa Catarina investe em sistemas antigranizo
Segundo o governo do Estado, só na tempestade do fim de novembro do ano passado causou prejuízos milionários nas culturas de fumo, cebola, milho, maçã, uva, arroz, entre outras. Os maiores prejuízos ficaram concentrados na região de Rio do Sul, que concentra boa parte da produção de fumo do Estado. Lá, as perdas chegaram a R$ 207,5 milhões.
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A cebola foi a segunda cultura mais afetada na época, com mais de R$ 38 milhões em prejuízos. O milho somou R$ 29,4 milhões em danos pela tempestade.
Por causa disso, o objetivo é não só ajudar produtores a recuperarem os danos, mas evitar que eles aconteçam. É onde entram os sistemas antigranizo. Segundo o secretário de Estado da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina, Carlos Chiodini, em 2026 devem ser investidos mais de R$ 22 milhões, tanto na manutenção dos sistemas que já exitem quanto na instalação de novos equipamentos.
Atualmente, 13 municípios já contam com o sistema: Rio das Antas, Fraiburgo, Matos Costa, Timbó Grande, Lebon Régis, Tangará, Macieira, Caçador, Calmon, Videira, Pinheiro Preto, Ibiam e Arroio Trinta.
Em 2026, 12 outros municípios devem integrar a rede: São Joaquim, Bom Jardim da Serra, Atalanta, Aurora, Chapadão do Lageado, Imbuia, Ituporanga, Vidal Ramos, Petrolândia, Lacerdópolis, Presidente Castello Branco e Iomerê.
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Como funciona a semeadura de nuvens com iodeto de prata
O iodeto de prata é o método mais utilizado no mundo para semeadura de nuvens, incluindo em Santa Catarina, cujo método é o escolhido pelo governo estadual, especialmente pelo custo-benefício, segundo Chiodini. Esse método não impede a formação do granizo, mas reduz o tamanho das “pedras”, ao aumentar os núcleos congelantes de 1 a 2 para cerca de 100 a120 por metro cúbico. Isso resulta em granizos menores, que derretem durante a queda, ou caem com menor impacto.
Em Santa Catarina, o sistema utiliza geradores de solo em grandes áreas. São ao menos 130 geradores, segundo João Luiz Walter Rolim, meteorologista e diretor da AGF Antigranizo Fraiburgo, empresa fornecedora do sistema. Cada gerador cobre um raio de 5 quilômetros e libera 8,6 gramas de iodeto de prata por hora.
Rolim compara o método com uma tela, ferramenta física para diminuir os danos do granizo.
— A tela, que é um meio físico, teoricamente impediria que o granizo machucasse a planta, porém, se tiver uma formação muito forte, ele derruba a tela e machuca a planta. Então, não existe nenhum método no mundo que impeça a formação de granizo — explica. — O que a gente pode fazer é reduzir é esse tipo de dano, que é o que o iodeto de prata propõe.
Impacto ambiental do iodeto de prata
Estudos ambientais, incluindo pesquisas da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC), da Associação Mundial da Saúde (WMA, na sila em inglês) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM), indicam que as quantidades de iodeto de prata liberadas pelo sistema são muito pequenas e não causam impactos ambientais significativos. Pelo menos, não a curto prazo.
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O que acontece é que não há de fato um monitoramento pelo governo do Estado focado no iodeto de prata nas regiões onde o sistema antigranizo é usado, como explica Carlos Chiodini. A secretaria deve investir no monitoramento, a partir da expansão da rede de equipamentos.
Há limites definidos em países como Estados Unidos e Reino Unido para a concentração de prata — um metal pesado — na atmosfera. Segundo estudos, a quantidade liberada pela queima do sistema antigranizo é de 10 a 100 mil vezes inferior ao limite de 10 microgramas por metro cúbico, adotado para compostos de prata em situações de risco ocupacional com exposição de oito horas. Os estudos foram conduzidos e divulgados pela Associação Francesa de Estudo e Luta contra Flagelos Atmosféricos (Anelfa, na sila em francês).
Análises de água e solo em Fraiburgo, feitas pela UNOESC, mostraram que existem concentrações de prata na cidade, mas o índice encontrado é abaixo dos limites legais, sendo que parte da prata detectada pode vir de outras fontes agrícolas. O estudo, no entanto, é de 2007.
Apesar das preocupações, o governo considera o custo-benefício como principal fator para a escolha do método:
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— A escolha do [sistema de] iodeto de prata considera a eficácia, e também ele é mais barato em termos de instalação, apesar de ter um custo de manutenção relevante, já que funciona como queimadores — explica Carlos Chiodini. — A ideia é expandir ainda mais esse sistema e torná-lo uma política pública de longo prazo.
O que são os canhões sônicos e como eles atuam na atmosfera
Em dezembro de 2025, Chapecó recebeu e iniciou a instalação das primeiras peças de um sistema antigranizo diferente, com ondas hipersônicas. Equipamentos assim são usados normalmente em outros países e municípios do Sul do Brasil. Na cidade, o sistema deve ajudar a proteger principalmente residências e edificações comerciais, reduzindo prejuízos urbanos causados por eventos climáticos severos.
Esse método gera ondas hipersônicas a cada sete segundos, formando camadas de energia na atmosfera que atingem acima de 10 mil metros. Essa energia fragiliza a célula de granizo, desestruturando o gelo ainda na nuvem e fazendo com que ele caia em dimensões menores, que derretem durante a queda, resultando apenas em chuva na área protegida.
O acionamento é remoto, com monitoramento meteorológico 24 horas, e também pode ser manual. O raio de proteção efetiva desse equipamento é de 500 metros, com 98% de eficiência, segundo Emerson Carneiro, diretor da Try Brazil, empresa responsável pelo equipamento. Segundo ele, o canhão pode até alcançar áreas maiores, mas com menor eficiência.
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Cada onda dura cerca de 29 segundos, com proteção para, em média, 30 minutos. A intensidade sonora a 500 metros é próxima de 50 decibéis, e o som pode ser ouvido até cerca de 1 quilômetro, dependendo do relevo. Isso — e o preço do equipamento —, segundo o secretário de Agricultura de Santa Catarina, Carlos Chionidi, contribuíram para a escolha do outro método para os investimentos estaduais. No caso de Chapecó, o investimento foi municipal, sem a participação do governo do Estado.
No caso do canhão hipersônico, o vento — fator comum em tempestades — não interfere na eficiência. O número de canhões é definido a partir de estudo técnico baseado no histórico de granizo da área. Segundo a empresa, não há registros de danos por granizo em áreas protegidas por seus sistemas. A tecnologia não pode ser instalada em áreas residenciais, exigindo distância mínima de 200 metros.
Segundo o secretário de Agricultura, apesar de eficaz, o método é mais caro e de difícil ampliação. O som emitido também é relevante como impacto para a comunidade, especialmente se estiver perto de casas, já que dura quase 30 segundos e pode ser ouvido em um raio de até 1 quilômetro.
— O modelo hipersônico é mais tecnológico, porém muito mais caro e difícil ampliação. O som também é muito alto, o que gera poluição sonora — pontua.
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Apoio aos produtores
Além dos sistemas antigranizo, o governo do Estado tem projetos de apoio a agricultores para reconstrução após eventos climáticos, que podem ir além do granizo — chuvas ou ventos, por exemplo. O Reconstrói SC financia até R$ 20 mil por família para recuperar estruturas e equipamentos, e oferece ainda até 50% de desconto no financiamento para quem pagar em dia. Além disso, o Pronampe Agro SC Emergencial concede até R$ 100 mil por família, com juros subsidiados em até 3% ao ano e prazo de oito anos para pagamento.
Voltado aos produtores de maçã, cultura presente especialmente na Serra catarinense, o Projeto Emergencial Recupera Maçã SC apoia produtores com até R$ 100 mil para reposição de mudas e reconstrução de proteções, oferecendo desconto de até 30% por pagamento em dia. O Proteção de Pomares financia até R$ 150 mil por família para instalar telas antigranizo, com prazo de até oito anos e subvenção de juros de até 3% ao ano.
Os Sistemas Antigranizo são implementados e operacionalizados pelo governo o Estado em convênio com os municípios.
Para potencializar a produção catarinense e garantir renda ao pequeno produtor que sofre com as intercorrências climáticas, há ainda o Safra Garantida SC. O programa oferece subsídio estadual de até R$ 1,5 mil referente à taxa de adesão ao Proagro Mais.
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O que é granizo?
O granizo é um tipo de precipitação, como a chuva e a neve, mas que ao invés de cristais ou líquida, a água cai em forma de gelo, como se fossem pedras que, às vezes, podem ser do tamanho de ovos.
O fenômeno ocorre quando ventos sobem e transportam água para as regiões mais frias da nuvem, causando o congelamento da água. Para isso, os ventos precisam ser rápidos, e quanto mais forte for o transporte da água dentro da nuvem, maior será o granizo.

