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    Arte

    Conheça o homem que dedicou 20 anos à construção de uma maquete de São Francisco do Sul

    Conny Baumgart sobreviveu à Segunda Guerra Mundial na Alemanha, escolheu a ilha para viver após a aposentadoria e a eternizou em um diorama 

    14/12/2019 - 11h05 - Atualizada em: 16/12/2019 - 08h41

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    Cláudia
    Por Cláudia Morriesen
    foto mostra a maquete
    (Foto: )

    Das mãos habilidosas de Conny Baumgart já nasceram réplicas das principais embarcações brasileiras e aves em tamanho natural, além de pinturas e desenhos que celebram as belezas do mar e de São Francisco do Sul. Mas nada compara-se ao seu projeto mais ambicioso: durante duas décadas, ele desenvolveu um diorama que mostra o Centro Histórico da cidade do Litoral Norte de Santa Catarina, do jeito ela era nos anos 1930.

    É a maior maquete urbanística do Brasil: são 64 metros quadrados que não só registram exatamente como eram todos os casarões de São Chico, mas apresentam também cenas urbanas. Pelas ruas da maquete, é possível encontrar, por exemplo, 260 carroças e 520 cavalos, representações de festas típicas e pessoas em seu dia a dia na ilha, da forma que acontecia no início do século. Desde novembro, ela foi considerada totalmente concluída e pode ser visitada no Museu Nacional do Mar, que fica no Centro Histórico de São Francisco do Sul.

    Nome

    Conny Baumgart

    Idade

    93 anos

    Uma época inesquecível

    A escolha de recriar a São Francisco do Sul dos anos 1930, e não do tempo atual, foi muito simples: Conny ainda era criança nessa época, e vivia em uma colônia em Rio do Sul. A mãe era natural da Alemanha e havia mudado com os pais, que vieram ajudar a colonizar aquela região. Eles moravam "no meio do mato", como ele recorda, e não havia nenhum contato com o mar. Não tinha como Conny saber que, um dia, a construção naval seria sua paixão.

    A vida era difícil, mas não se comparava ao que viria depois: em 1939, Conny foi à Alemanha com a mãe e o irmão mais novo, atraídos pela propaganda da época que chamava os imigrantes e descendentes de imigrantes para retornarem à terra natal. Enquanto atravessavam o Oceano Atlântico, a Segunda Guerra Mundial começou, e o sonho de viver na Europa tornou-se uma luta pela sobrevivência.

    Por três vezes, Conny, a mãe e o irmão precisaram fugir e tiveram a casa onde viviam destruída pelos bombardeios. Havia o frio e a fome, já que era época de recessão, e assim que entrou na adolescência, ele precisou trabalhar. O emprego na fabricação de peças para submarinos o aproximou daqueles que, durante a viagem a Santos e depois à Alemanha, tanto chamavam seu interesse: os barcos e navios.

    Commy Baumgart
    Commy Baumgart
    (Foto: )

    Trabalho coletivo

    Somente anos depois do fim da guerra é que Conny pode ser repatriado para o Brasil. No país, casou, teve duas filhas e dedicou-

    se à uma empresa de eletrodomésticos. Aos 63 anos, quando a aposentadoria chegou, ele e a esposa fecharam os olhos, tocaram um ponto do mapa do Brasil e, quando abriram, descobriram o novo destino: São Francisco do Sul.

    Na cidade, ele conheceu Dalmo Vieira Filho, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Museu Nacional do Mar, que foi inaugurado no fim dos anos 1990. Dalmo o convidou a transformar o que, até então, era um hobby de aposentado, em um grande projeto: construir o diorama do Centro Histórico.

    No início, aquele era um "trabalho de um homem só". Com o tempo, a notícia daquele projeto audacioso se espalhou e estudantes de artes e arquitetura chegaram a voluntariarem-se para colaborar no projeto no período de férias. Entre eles, estava o arquiteto Márcio Rosa, que participou da construção quando era universitário e, anos depois, quando a visão de Conny já não permitia mais que ele liderasse os trabalhos, apresentou um projeto à Arcellor Mittal e garantiu a conclusão do diorama.

    A artesã Rosete Maria da Rosa Menezes também estava entre os voluntários. Conny conhecia seus trabalhos de pintura e a convidou a ajudar em outro projeto: a confecção de aves em tamanho natural para outra sala do Museu do Mar. A amizade entre eles cresceu e Rosete tornou-se a principal colaboradora, além de tornar-se cuidadora de Conny e da esposa.

    — Aprendi muito com ele, que tem um jeito próprio de confecção das figuras. Ninguém o ensinou, ele fazia os cálculos próprios para a escala que, depois, com os universitários, pude verificar que funcionavam perfeitamente — conta Rosete.

    Rosete e Márcio também foram responsáveis pela produção do diorama
    Rosete e Márcio também foram responsáveis pela produção do diorama
    (Foto: )

    História eternizada

    Aos 93 anos, Conny não produz mais suas réplicas. Ele agora deixou a Praia de Paulas, local que havia escolhido para viver quando se aposentou, no início dos anos 1990, e tornou-se morador do Centro Histórico, fazendo parte do cenário atual do local que ajudou a eternizar.

    O diorama de Conny

    O diorama retrata o Centro Histórico da cidade entre os anos 1930 e 1940 e ocupa 64 metros quadrados de uma das salas do museu. Nele, é possível observar a paisagem e cenas do cotidiano daquela época — é isso que o diferencia de uma maquete urbanística, onde há apenas a reprodução tridimensional de um projeto arquitetônico. São cerca de 400 figuras e tudo é exatamente 75 vezes menor do que a escala real.

    O trabalho está aberto à visitação no Museu Nacional do Mar (rua Manoel Lourenço de Andrade, 133 – Centro). O Museu do Mar abre das 9h às 17h30 de terça a sexta-feira; e aos sábados e domingos, das 10h às 17h30.

    Saiba mais sobre o diorama do Centro Histórico de São Francisco do Sul

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