Em março de 2020, o mundo foi impactado pela pandemia do coronavírus, mas a disseminação do Sars-Cov-2 não impediu a ocorrência e o reaparecimento de novas doenças que se espalharam por diferentes países. A varíola dos macacos (monkeypox) e a hepatite misteriosa são exemplos de enfermidades que tiveram expressivo aumento de casos nos últimos anos, e esse fenômeno pode estar diretamente ligado ao desequilíbrio ambiental causado pelos seres humanos. 

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De acordo com os especialistas, o “boom” de doenças que tem sido percebido atualmente pela população não é tão novo assim, pois, há pelo menos duas décadas, os estudiosos têm observado a evolução de patologias e o retorno de males que eram considerados erradicados. 

— Para nós não é um acaso, nem é algo que esteja se desenvolvendo nesse ano ou nos últimos anos. A gente já vê esse incremento muito grande de doenças, emergentes ou reemergentes, desde os anos 1990. O que a gente percebe é a intensificação de novas doenças — afirma o virologista e professor da Universidade Feevale, Fernando Spilki.  

E o que o desequilíbrio ambiental tem a ver com tudo isso? Segundo o pesquisador, os processos de desmatamento, expansão humana para áreas de floresta e urbanização sem controle tiram os animais do seu ambiente e os colocam em contato inadequado com os humanos — o que é suficiente para que as doenças sejam impulsionadas. 

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— Muitos desses vírus e novos agentes ocorriam na natureza em estabilidade com os seus hospedeiros. Por exemplo, o vírus infecta morcegos e isso não representava um grande problema. Mas, esses animais estavam espalhados em uma grande região de mata e de repente essas espécies começam a ser empurradas para habitats muito pequenos. Esses vírus então atingem uma multiplicação geral muito grande e aí começa o processo que pode trazer esses vírus para perto dos humanos — explica Fernando Spilki. 

Outros fatores que estão diretamente ligados a esse cenário são as mudanças climáticas e a desordem social.

— As mudanças fazem com que as espécies se desloquem, tenham dificuldade para procriar, fazem com que insetos alcalcem regiões que não eram comuns — diz o virologista.

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Deslocamento das doenças

Uma das doenças que registrou uma rápida disseminação em áreas diferentes de onde era identificada inicialmente foi a chamada varíola dos macacos, ligada ao vírus monkeypox. Anos atrás, o vírus circulava de forma endêmica em alguns países da África, e ocasionalmente casos eram identificados fora do continente. 

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Neste ano, os casos da doença cresceram rapidamente e foram registrados em ao menos 29 países, inclusive no Brasil, onde o primeiro caso foi confirmado nesta quarta-feira (8). 

— No caso do monkeypox, esse é um vírus conhecido desde os anos 1970, com casos clínicos em humanos. É uma doença endêmica sim, normalmente identificada abaixo do Saara. Mas o que aconteceu? Nos últimos anos, os vírus começaram a aumentar suas atividades nesas áreas. Além desse aumento, as crises e desordens sociais também atrapalham o trabalho dos órgãos de saúde, fazem com que o número de refugiados cresça e a disseminação das doenças se torna mais fácil — pontua Spilki.  

De acordo como virologista, no Sul do Brasil, um dos exemplos mais palpáveis é o da dengue, que não registrava índices tão altos de casos e mortes quanto os que tem sido vistos neste ano. 

— No Rio Grande do Sul e Santa Catarina, principalmente, o que nós estamos vendo com relação à dengue é inedito e não é por acaso. O número de casos é incrível e isso tem muito a ver com a maior presença dos mosquitos [Aedes aegypti] na região dos anos 2000 para cá — explica.   

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Preservação e monitoramento 

Para tentar amenizar o “boom” de novas doenças, o virologista destaca que é necesário reavaliar a forma com que o ser humano explora o meio ambiente para evitar o aumento contínuo do desequilíbrio ecológico.  

— Precisamos pensar novos modelos de exploração dos recursos naturais. O modelo que temos de desenvolvimento é baseado na ocupação do espaço, mas não avaliamos se ele está adequado e se é capaz de garantir estabilidade para outras espécies. Também é importante fazer melhor a vigilância dos agentes que existem a nossa fauna, pois, além de conservar, a gente precisa olhar melhor a natureza e ter um esforço para diagnsoticar essas novas doenças. Precisamos ter sistemas de alerta mais rápidos e bem constituídos que identifiquem esses vírus, para que a gente consiga trabalhar mais rápido — ressalta o virologista.

Para que a investigação ocorra, é necessário ainda que haja investimentos em pesquisas e monitoramento. 

— Para identificar [as doenças], precisa haver investimento, qualidade na pesquisa e investigação. Nem sempre a gente vai ver o efeito imediato, mas é preciso trabalhar com prevenção. Por outro lado, a gente precisa de solidariedade. É preciso que regiões mais ricas do país e do mundo consigam ajudar os que mais necessitam para evitar que tenhamos cada vez mais esses problemas — destaca Fernando Spilki.  

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