Servidores públicos do Distrito Federal realizam um ato público unificado com paralisação nesta quinta-feira (11), na Praça do Buriti, em Brasília. A mobilização contesta as contrapartidas do acordo de socorro financeiro homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para salvar o Banco de Brasília (BRB).

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O movimento ganha repercussão nacional por estabelecer um precedente rígido de ajuste fiscal e envolver repasses federais como contragarantia da operação.

O arrocho fiscal 

Para receber o crédito, o plano impõe um ajuste fiscal severo ao funcionalismo até março de 2027 ou até que as contas atinjam a meta de Capacidade de Pagamento (Capag A+). Estão suspensos reajustes salariais, progressões de carreira, criação de cargos e novos concursos, permitida apenas a reposição de vagas abertas por aposentadoria ou desligamento. O bloqueio de reajustes retém cerca de R$ 25,4 bilhões da folha em 2026, enquanto o custo anual estimado apenas em juros da nova dívida supera R$ 1 bilhão.

O magistério público é uma das áreas mais afetadas. A rede opera hoje com 10.599 professores temporários, enquanto o último concurso registrava mais de 12 mil aprovados aguardando convocação. Um novo concurso com 10.604 vagas efetivas teve o cronograma paralisado pelas metas fiscais. Atualmente, os salários dos professores efetivos (40h) variam de R$ 4.229,99 (nível médio) a R$ 13.184,23 (topo da carreira com doutorado).

O Sindicato dos Professores (Sinpro-DF) justificou a adesão ao ato criticando os termos do acordo:

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“O que nós combatemos é esse acordo prejudicial que entrega o controle e a essência do banco a interesses privados, fragiliza o serviço público, precariza as relações de trabalho e coloca em risco o que tanto lutamos para construir.”

O acordo de socorro 

Homologado pelo ministro Luiz Fux, o plano de recuperação emergencial prevê a captação de um empréstimo em parcela única estimado entre R$ 6,5 bilhões e R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), instituição privada mantida por aportes dos maiores bancos do país.

A operação financeira possui taxa de juros fixada em IPCA mais 4,5% ao ano, contando com uma carência de 18 meses e prazo total de quitação estabelecido em 180 parcelas mensais ao longo de 15 anos.

Embora a transação não utilize recursos diretos da União nem possua o aval do Tesouro Nacional, o governo local ofereceu como contragarantia os repasses constitucionais do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e do Fundo de Participação dos Municípios (FPM).

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César Bergo, economista e professor da Universidade de Brasília (UnB), avalia o cenário institucional:

“É um negócio que possibilita ao BRB respirar um pouco, por aparelhos, mas serão necessárias outras ações. E, por isso, ele está pedindo [mais de R$ 6 bilhões] de empréstimo ao Fundo Garantidor de Créditos [FGC] e sinalizando a intenção de implementar uma administração austera, com uma possível mudança da estratégia de negócios.” 

Foto mostra uma agência do BRB, em Brasília, com portas abertas
Agência do Banco de Brasília (BRB), no DF (Crédito: Agência Brasil/Divulgação, NSC Total)

Fraudes e rombo bilionário: a crise no BRB

O pacote de suporte financeiro tem o objetivo de conter perdas projetadas em R$ 8,8 bilhões pelo atual presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza. Investigações da Polícia Federal e do Banco Central apontam indícios de gestão fraudulenta e temerária em anos anteriores.

Auditorias independentes identificaram inconsistências que superam R$ 20 bilhões em transações com o Banco Master, incluindo a compra de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito sem comprovação documental de existência física e sem análise de risco adequada.  

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Investigação envolve ex-governador 

A crise está diretamente conectada aos desdobramentos da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal para apurar uma rede de fraudes estruturadas com créditos fictícios estimada em até R$ 17 bilhões.

O Banco Central liquidou o Banco Master após vetar sua fusão com o BRB por inviabilidade financeira. Na esfera política, o caso gerou pedidos de impeachment contra o ex-governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), citado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, em depoimentos sobre suposta interferência política na gestão do banco.

Em meio ao desgaste do escândalo e cumprindo o calendário eleitoral para concorrer ao Senado nas eleições de 2026, Ibaneis Rocha deixou em definitivo o comando do Palácio do Buriti.

A vice-governadora Celina Leão (PP) assumiu a chefia do Executivo do Distrito Federal e foi a responsável por comandar a articulação política que resultou na homologação do acordo de socorro financeiro junto ao STF e ao FGC para evitar a liquidação do BRB. Diante do cenário, a gestão de Celina Leão também determinou a demissão de 12 diretores executivos do banco e promoveu uma reformulação no Conselho de Administração.

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