A gestão dos Correios apresentou na última semana um balanço dos 100 primeiros dias do plano de reestruturação financeira da empresa anunciado no fim do ano passado. O resultado foi um prejuízo líquido de R$ 8,5 bilhões em 2025, mais do que o triplo em relação ao ano anoerior. A notícia agravou a crise e aumentou as preocupações com a saúde financeira da estatal. 

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O prejuízo foi o maior, pelo menos, desde a criação do Plano Real, em 1994. Ainda assim, a nova gestão dos Correios apontou que a estimativa da equipe era de um revés ainda maior para o ano passado — entre R$ 9 bilhões e R$ 10 bilhões de “rombo”. 

Este foi o quarto ano consecutivo que o balanço dos Correios apresentou prejuízo. Mas o que explica o rombo nas contas da estatal em um período em que o e-commerce e os serviços de entrega de mercadorias compradas pela internet está em alta?

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As explicações para o rombo nos Correios são variados e vêm sendo apresentados pela empresa desde a adoção do atual plano de recuperação até o balanço da ações divulgado esta semana. Em geral, o prejuízo da estatal nos últimos anos envolve razões como

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  • Concorrência acirrada no setor de e-commerce;
  • Receita estagnada e fluxo de caixa comprometido; 
  • Obrigações judiciais futuras (precatórios) incluídas no balanço de 2025;
  • Aumento de custos operacionais de gastos com pessoal;
  • Prejuízo com o programa Remessa Conforme.

Os fatores que explicam o prejuízo dos Correios 

Concorrência acirrada no e-commerce 

Um dos fatores citados pelo atual presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, ao apresentar o rombo de R$ 8,5 bilhões em 2025 foi a “concorrência acirrada no setor de e-commerce”. O assunto não foi detalhado, mas na prática se explica pelo fato de que grandes varejistas e donos de marketplaces (canais de vendas pela internet) passaram a construir suas próprias redes logísticas de entregas, o que acabou reduzindo a demanda de entregas de encomendas dos Correios. Além disso, a empresa estatal tem a obrigação de atender todo o território nacional, incluindo regiões distantes e que não são consideradas rentáveis. 

Receita estagnada 

Outra explicação dada pelo presidente dos Correios foi o fato de a empresa ter receita total estável ao longo dos últimos anos. Como os custos operacionais, como funcionários e combustíveis, aumenta em razão dos reajustes, na prática isso representa menos margem para a empresa estatal. No fim do ano passado, os Correios captaram um superempréstimo de R$ 12 bilhões junto a um grupo de cinco bancos, com garantia do governo federal, para permitir que a empresa tivesse dinheiro em caixa para cumprir com as obrigações nos meses seguintes. 

Obrigações judiciais incluídas no balanço 

Outro fator que teria agravado o rombo de R$ 8,5 bilhões no balanço apresentado na última semana foi definido pela gestão como o “provisionamento responsável de obrigações judiciais”. Na prática, significa que a administração incluiu no balanço obrigações judiciais futuras que a empresa deve ter, em razão de derrotas em ações na Justiça. A prática seria uma exigência para as operações financeiras feitas no fim do ano passado e, segundo a atual presidência, não teria sido incluído nas contas nas gestões anteriores. No total, os Correios teriam reconhecido R$ 6,4 bilhões de débitos que vinham sendo postergados — a maior parte deles seria referente a dois tipos de adicionais de salário de servidores. O valor desses precatórios foi 55% maior do que o do ano anterior.

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Aumento de custos operacionais 

O aumento de custos operacionais, como combustíveis e estrutura para atendimento, é outro fator mencionado pela gestão dos Correios como explicação para a atual crise financeira da qual a empresa tenta sair. Um dos fatores citados ainda no fim do ano passado seriam os gastos com pessoal, que vinham aumentando em razão da concessão de reajustes para profissionais. O plano de recuperação chegou a lançar um Plano de Demissão Voluntária (PDV) para tentar chegar a 10 mil pessoas que poderiam deixar a empresa com incentivos, mas apenas 3,7 mil aderiram. 

Prejuízo com o programa Remessa Conforme   

Ao detalhar a situação financeira dos Correios e o plano de recuperação no fim do ano passado, os Correios também sinalizaram que um dos fatores que teriam prejudicado as receitas da empresa foi o lançamento do programa Remesse Conforme, conhecido mais tarde como “Taxa das Blusinhas”

A iniciativa foi criada em 2023 e passou a cobrar imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até 50 dólares, que até então eram isentas de cobrança. No entanto, outra mudança do programa foi o fato de que as encomendas provenientes das compras internacionais passaram a poder ser entregues também por outras transportadoras privadas, sem exigência de serem centralizadas pelos Correios, como ocorria até então. Na prática, isso reduziu o volume de entregas da empresa pública, gerando uma frustração de receita de R$ 2,2 bilhões segundo um estudo da estatal. 

Para tentar compensar a perda, a empresa tem apostado no transporte de mercadorias do próprio território brasileiro, mas até o momento a situação não foi equilibrada. 

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As boas notícias 

Apesar do prejuízo de R$ 8,5 bilhões em 2025, a atual gestão dos Correios apresentou como sinais positivos da primeira fase de implantação do plano de reestruturação uma queda de custos variáveis, que mostraria uma “maior produtividade e melhor gestão de recursos por parte da empresa. Além disso, também foram citadas as 3,7 mil adesões ao Plano de Demissão Voluntária. 

Outro ponto favorável citado pela administração da estatal foi uma queda de 43% no volume de encomendas em atraso, o que refletiu também em um aumento da satisfação dos clientes com os serviços conforme os levantamentos internos.

O plano apresentado pela gestão dos Correios tem três fases e envolve também pontos como o fechamento de até 1 mil agências em todo o país.

* Com informações de portal g1