nsc
dc

Jornalismo

DC 35 anos: repórter relembra histórias que marcaram o jornalismo de Santa Catarina

Diário Catarinense celebra aniversário neste 5 de maio; com 27 anos de atuação na reportagem, Ângela Bastos traz memórias e fatos que cruzam com a história do jornal

05/05/2021 - 12h12

Compartilhe

Por Ângela Bastos
Primeira capa do Diário Catarinense.
Primeira capa do Diário Catarinense.
(Foto: )

Pediram-me para escrever sobre a minha relação com o jornal Diário Catarinense. Uma história que já celebrou Bodas de Prata. Para falar desses 27 anos de convívio, preciso fazer uso de uma licença poética. 

O DC, como a gente carinhosamente o chama, era um jornal-menino quando o conheci. Tinha apenas oito anos de vida, embora já tivesse nascido grande, desde aquele 5 de maio de 1986: foi o primeiro jornal totalmente informatizado da América Latina. 

> Receba as notícias do Diário Catarinense por WhatsApp

Uma verdadeira proeza para a época. Jornalistas de outros estados vinham a Florianópolis para se inspirar e montar as próprias editorias e ilhas de edição. Minha linha do tempo e a do jornal se tocam. É fato. E hoje posso encharcar este texto com boas memórias. 

Se o DC nasceu com o logotipo azul em alusão ao mar catarinense, desembarquei na cidade vindo da Porto Alegre do pôr do sol dourado do estuário do Guaíba. Antes disso, meus primeiros passos no jornalismo foram dados em Rio Grande (RS), cidade marítima quase lá na fronteira com o Uruguai, banhada pelas correntes frias do Atlântico, e águas encrespadas da Lagoa dos Patos.  

> Liberata: a história de uma escrava em terras catarinenses

> Pescadeiras: o dia a dia das mulheres que vivem no mar em SC

Em Florianópolis, tive o privilégio de trabalhar na primeira redação, às margens da bruxólica Praia de Itaguaçu; na segunda, num arrojado prédio na SC-401. Por fim, na redação integrada com as rádios e a TV, no Morro da Cruz. Como comemoram-se os 35 anos do DC, é natural que eu tenha vivenciado as diferentes fases deste que se consolidou como o principal jornal de Santa Catarina. 

Pelo interior de SC
Pelo interior de SC
(Foto: )

Testemunhei uma adolescência ousada, em que se atravessavam mares e oceanos para com grupos catarinenses peregrinar pela Terra Santa, caminhar pelos corredores do Vaticano, fazer anotações aos pés do túmulo de Galileu Galilei, em Florença, na Itália. Também uma juventude valente, que me fez pisar pelo menos duas vezes no solo dos 295 municípios catarinenses. 

> Serra do Rio do Rastro: patrimônio de SC e uma das paisagens mais lindas do mundo

> Cartas na Pandemia: Jovens de SC e de campos de refugiados trocam mensagens sobre sonhos e aflições

Não apenas para destacar sua gente, belezas e potencialidades, mas para denunciar crimes ambientais, violência no campo, violação de direitos humanos e sociais. Assim como para estar entre os índios e ribeirinhos da Amazônia, junto aos sambistas na Marquês do Sapucaí, no entorno da visita de Barack Obama ao Rio de Janeiro. 

Aos pés do túmulo de Galileu, na Itália
Aos pés do túmulo de Galileu, na Itália
(Foto: )

Presenciei também a chegada da era digital, em estilo inovador e competitivo, disputando e vencendo os principais prêmios de jornalismo do país nas categorias internet, inovação em cobertura, multimídia. 

Apresentei ao Brasil a saga de Iracema e Dirceu, uma família de agricultores que saiu da condição de miséria extrema e que, com a reportagem “As Quatro Estações”, me proporcionou um dos maiores reconhecimentos profissionais, o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos (2015). 

Fui aos gabinetes de Brasília mostrar “Tempo Perdido”, no Ministério Público do Trabalho, onde os personagens eram adolescentes mutilados pelo trabalho infantil; em Buenos Aires, na Argentina, recebi o troféu da Agência para Refugiados Organização das Nações Unidas, da ONU, como o único jornal brasileiro a retratar a presença de imigrantes que, assim como no passado, escolheram o solo catarinense para empreender, desfrutando da “Fronteira Aberta”. 

Prêmio na ONU. Buenos Aires
Prêmio na ONU. Buenos Aires
(Foto: )

Chego a este momento do Diário Catarinense na função que escolhi para mim desde o início: repórter. Optei por permanecer neste campo por acreditar que seria mais útil ao jornal e às pessoas que generosamente me contaram sobre suas realidades. Fui recolhendo essas histórias ao longo do tempo. 

Como naquela fria manhã, em Lages, em que encontrei Gilson José Maciel de Souza, nove anos, O Menino Carteiro, que por R$ 10 mensais entregava cartas na cidade. Entre a contextualização e o trocadilho com o filme “O Carteiro e o Poeta”, mergulhei na infância marcada de crianças queimadas por bitucas de cigarro, surras que lhes quebraram ossos e dentes, abusos sexuais e a dor de serem devolvidas – mesmo depois de adotadas. 

Assim como no encontro com os Herdeiros do Contestado, resistentes no sertão que lhes restou; ou com os Índios do Sul, corridos do chão original pelo colonizador. 

No semiárido nordestino, ouvi a saudade das famílias dos novos retirantes que vieram habitar nossas periferias, encarnando Os Desapartados, assim como escutei o som da bengala do casal de cegos no chão silencioso de um domingo sem transeuntes no Centro de Florianópolis. 

Aquelas cenas em que o título está pronto antes da primeira linha do texto: “O amor é cego”. 

No mar mergulhei no universo das corajosas “Pescadeiras”
No mar mergulhei no universo das corajosas “Pescadeiras”
(Foto: )

Pelo DC, toquei o Céu de Brazilício, um astrônomo nascido na antiga Desterro, topei com o Paredão dos Sonhos, formado pelas crianças do Morro do Horácio, onde insistiam em brincar, mesmo com o morro ocupado pelas polícias, cheguei à Fronteira da Saudade, atravessada pelos irmãos venezuelanos, lá em Roraima, e que migraram em busca de destino melhor. 

Se no campo encontrei a solidão de “Sozinhas”, as mulheres que sofrem violência; no mar mergulhei no universo das corajosas “Pescadeiras”, as trabalhadoras artesanais invisíveis que participam ativamente do sustento de suas famílias. Algumas dessas personagens me deram a oportunidade de levar o nome do DC para longe, como em São Tomé e Príncipe, na África, onde acompanhei ações humanitárias da Cruz Vermelha e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). 

Com a Cruz Vermelha em São Tomé e Príncipe, na África
Com a Cruz Vermelha em São Tomé e Príncipe, na África
(Foto: )

Igualmente quando, depois de uma reportagem sobre a Guerra do Contestado (1912-1916) – em que pela primeira vez o Exército Brasileiro planejou usar aviões contra civis – aterrissei nos Estados Unidos para receber o Prêmio Santos Dumont de Jornalismo. 

Na minha estante guardo troféus com os nomes de outros grandes brasileiros: Ayrton Senna, Tim Lopes, Guga Kuerten, Dom Helder Câmara, Irmã Dorothy Stang, Vladimir Herzog. É disso que falo quando digo que minha linha do tempo toca com a da existência do DC. 

Nos Estados Unidos premiação Santos Dumont de Jornalismo
Nos Estados Unidos premiação Santos Dumont de Jornalismo
(Foto: )

Lembro-me do tempo em que viajávamos pelo interior do Estado nos carros com a logomarca do jornal e, mal abríamos a mala, da portaria do hotel tocava o telefone: era algum morador para conversar sobre uma pauta, fazer uma denúncia, sugerir uma entrevista. Ouvíamos das pessoas: “Só vocês podem fazer isso para nós”. E a gente fazia. E segue fazendo. 

Mais recentemente, a reportagem “Cartas na Pandemia” sugeriu que crianças catarinenses trocassem correspondência com meninos e meninas que vivem em campos de refugiados. Também reportamos o impacto da pandemia em oito países da América Latina a partir do olhar de jornalistas de diferentes países. 

Prêmio Vladimir Herzog, em 2015
Prêmio Vladimir Herzog, em 2015
(Foto: )

Nem sempre os prêmios são públicos ou representados por troféus ou medalhas. Agorinha, em abril, um resultado prático desse jornalismo que acredito ter relevância social: uma reportagem publicada no site da NSC Total embasou um pedido de socorro por organizações não governamentais que trabalham para ajudar famílias em situação de vulnerabilidade social em São José, na Grande Florianópolis, à Ação e Cidadania, idealizada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Como resposta, foram enviadas 2 mil cestas básicas para as famílias.

Quando me pediram para escrever este texto, perguntei: “Vão cortar?”. Sim, ter o texto cortado sempre foi motivo de brigas nas redações. O jornal digital não tem tamanho, responde-se hoje. O desafio está em fazer uma narrativa igualmente atraente para prender o leitor, bombardeado por tantas informações, inclusive pelas famigeradas fake news. Da minha parte, agradeço pela leitura, mantendo o compromisso de não transformar o cotidiano de tanta gente em uma simples atividade conceitual, mas resultado de uma ação verdadeiramente jornalística.

Nos 25 anos de Jubilado, 2019
Nos 25 anos de Jubilado, 2019
(Foto: )

Colunistas