Um vídeo gravado por moradores da Praia de Palmas, em Governador Celso Ramos, mostra uma retroescavadeira da prefeitura atuando na faixa de areia, à noite, na saída de um canal que deságua no mar. As imagens, registradas no dia 27 de janeiro, reacenderam o alerta sobre balneabilidade na praia.

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O vídeo mostra a máquina movimentando a areia da praia durante a noite, bem na saída de um canal que leva água pro mar. Segundo moradores, a operação teria como objetivo esconder o lançamento de efluentes.

— Alguns vizinhos filmaram onde as máquinas municipais estão jogando esgoto para o mar para esconder essa realidade. E o pior de tudo: essa máquina estava trabalhando na frente de uma unidade de recuperação ambiental, ou seja, nem sequer esse negócio funciona — afirma Javier Guido, presidente da Associação de Moradores do Loteamento Gaivotas.

A reportagem da NSC TV esteve no local indicado no vídeo. No ponto funciona uma estrutura que, segundo a Fundação do Meio Ambiente de Governador Celso Ramos, é destinada ao tratamento da água antes de chegar à praia.

Questionada especificamente sobre o uso da retroescavadeira, a fundação não quis se pronunciar.

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Veja o vídeo

Balneabilidade crítica em plena temporada de verão

Dados do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) mostram que a situação das praias do município é preocupante. Dos 22 pontos monitorados em Governador Celso Ramos, apenas 10 estão próprios para banho. Na Praia de Palmas, dos sete pontos monitorados, apenas um está próprio.

Para quem vive na região, a cena registrada no vídeo seria reflexo de um problema antigo. Segundo moradores, o crescimento urbano acelerado não foi acompanhado por investimentos suficientes em saneamento básico.

— Eu moro aqui há mais de 20 anos. As minhas crianças brincavam nessa praia e nunca teve problema de virose. De uns quatro, cinco anos pra cá, a coisa ficou muito feia — relata o aposentado Marcelo Batistone.

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Fiscalizações apontam irregularidades em prédios

De acordo com a Fundação do Meio Ambiente do município, vistorias são realizadas nos imóveis da Praia de Palmas para apurar o descarte irregular de esgoto. Só neste ano, cerca de 70% dos prédios fiscalizados apresentaram algum tipo de irregularidade.

— A gente tem localidades com tratamento centralizado, ou seja, uma estação centralizada, e nós temos localidades que não existe esse tratamento, onde o tratamento é feito diretamente com os condomínios. As unidades multifamiliares, elas precisam ter as suas estações de tratamento de esgoto e ser operadas pelos particulares e, consequentemente, encaminhada a informação para o órgão ambiental — explica o presidente da Fundação, Josué Ocker da Silva.

— Os relatórios apontam que, infelizmente, os condomínios permanecem ainda com um baixo índice de comprometimento com relação ao funcionamento das suas estações. E uma estação sem funcionar como deve, lança resíduos na pluvial e, consequentemente, nos córregos e drenagens que vão desencadear diretamente na praia, impactando essa balneabilidade — acrescenta.

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Durante a Operação Verão, fiscais verificam estações próprias de tratamento, fossas e o destino final do efluente tratado. No ano passado, quase R$ 2 milhões em multas foram aplicadas durante as fiscalizações. A prefeitura acredita que o valor possa ser ainda maior este ano.

— A gente abre as tampas, confere se há tratamento, cloração e onde esse efluente está sendo lançado — afirma Guilherme Brzoskowski, chefe da fiscalização.

Especialistas defendem sistema centralizado

Para especialistas, o modelo atual de tratamento individual não é adequado para uma região que cresceu e se verticalizou.

— É muito difícil você ter um controle tratando em pequenas estações espalhadas porque, às vezes, basta uma estação não estar funcionando para ser capaz de gerar um impacto de vulnerabilidade para toda uma coletividade. Nesses casos, não tem outra saída. A engenharia sanitária existe para que, nesses casos, se faça um sistema centralizado — afirma Vinicius Ragghianti, conselheiro da Associação Catarinense de Engenharia Sanitária e Ambiental.

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Apenas 30% do esgoto é tratado em Governador Celso Ramos

Atualmente, cerca de 30% do esgoto do município recebe tratamento. A Fundação do Meio Ambiente afirma que estão previstas melhorias na estação existente e a concessão do serviço de coleta e tratamento de esgoto para viabilizar novos investimentos.

— Já foram feitos os estudos, já foi feita a audiência pública, acredito que agora deve ser encaminhado [o estudo] para o Tribunal de Contas e, posteriormente, a gente deve ter uma empresa concessionária que vai aportar esses investimentos que realmente precisam ser feitos para resolver de uma forma definitiva a questão de alguns problemas de saneamento que impactam na balneabilidade — afirma Josué Ocker da Silva, presidente da Fundação.

O marco legal do saneamento estabelece que, até 2033, 90% do esgoto dos municípios brasileiros deve ser coletado e tratado. Até lá, moradores seguem temendo os impactos do problema.

— Porque a tendência que tá tendo em Palmas é de crescimento. Só que se eu não acompanhar o crescimento pra base, isso aqui daqui cinco, seis anos, infelizmente vai ficar terrível — alerta o terapeuta Paulo Ayrton.

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