Santa Catarina tem a maior desigualdade associada à cor da pele no país no que se refere às pessoas que conseguem viver em um domicílio próprio, segundo aponta estudo recém-publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre pessoas brancas, quase oito em cada 10 (77,5%) moravam em uma habitação própria em 2019, ano com dados mais recentes. No caso de pretos e pardos, ambos considerados negros no recorte do IBGE, esse número é de cerca de seis em cada 10 (58,2%).

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Além de ser a maior no Brasil, a diferença em Santa Catarina, de 19,3 pontos percentuais (p.p.), representa mais do que o dobro da margem do Distrito Federal, a segunda unidade federativa mais desigual neste critério, onde brancos estão 8,5 p.p. à frente de negros. A distância era de 1,4 p.p. na média nacional.

Os percentuais aparecem na segunda edição do estudo “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, da última sexta-feira (11), que reúne disparidades raciais em vários indicadores socioeconômicos.

— O que norteia um estudo dessa natureza é considerar que a questão racial ocupa um lugar central na determinação das desigualdades do país, uma vez que ele teve seus ciclos econômicos estruturados por mais de 300 anos tendo o trabalho escravo como um de seus pilares. Essa característica deixou como consequência maiores níveis de vulnerabilidade econômica e social para as pessoas de cor ou raça preta, parda ou indígena — explica João Hallak, analista do IBGE.

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O estudo mostra que, entre as pessoas que viviam em domicílios próprios no Estado, a proporção das que tinham documentação de propriedade era maior entre brancos (93,9%) do que negros (84,7%).

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Além disso, a pesquisa identifica que as pessoas brancas em Santa Catarina viviam em domicílios mais amplos, com 6,5 cômodos cada em média — no caso dos negros, eram 5,7 —, e com maior valor agregado. Se fossem alugados, os imóveis das famílias brancas custariam R$ 851 mensais em média, valor 21% maior do que o dos domicílios de residentes pretos ou pardos (R$ 672).

O levantamento do IBGE também traz dados sobre outras posses, mas referentes aos anos de 2017 e 2018 e especificados apenas por região. Na que Santa Catarina se encontra, o Sul do país, eram maiores as proporções de pessoas brancas, se comparadas às negras, que tinham bens domésticos comuns, como geladeira, freezer, micro-ondas, máquina de lavar roupas, ar condicionado e televisão.

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O estudo acrescenta que era mais comum que negros tivessem motocicletas (22,6%) do que brancos (20,8%). No entanto, quando se trata de automóveis, a situação volta a se inverter. Quase sete de cada 10 pessoas brancas (69,8%) em Santa Catarina tinham ao menos uma unidade em casa, enquanto, no caso dos negros, eram menos de seis em cada 10 (58,1%).

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A pesquisa do IBGE ainda aponta disparidades raciais em posses no campo, fazendo menção a dados nacionais do Censo Agropecuário de 2017. Naquele ano, negros eram maioria (50,6%) entre os proprietários de estabelecimentos agropecuários, à frente dos brancos (48%).

Contudo, pretos e pardos eram minoria entre os donos das maiores propriedades (19%), de mais de 10 mil hectares, em comparação às pessoas brancas (79,1%). Além disso, negros representavam 76,6% dos produtores que não tinham posse sobre área alguma, enquanto brancos somavam 20,6%.

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