O sistema financeiro brasileiro guarda hoje um tesouro silencioso e fragmentado. São R$ 10,5 bilhões que pertencem a 47,3 milhões de pessoas físicas e 3,4 milhões de empresas, mas que seguem esquecidos em contas correntes encerradas, consórcios não resgatados ou tarifas cobradas indevidamente. Esse “oceano de esquecidos” tornou-se o alvo estratégico do governo federal para viabilizar a nova fase do programa Desenrola 2.0: se o dono não contestar a utilização dos valores, o dinheiro vira o lastro que permitirá a outros brasileiros limparem o nome no mercado.

Continua depois da publicidade

FOTOS: Como o dinheiro esquecido será usado

O retrato social dos 47 milhões: Por que o dinheiro fica para trás?

O perfil de quem deixa valores nos bancos é diversificado, mas o Banco Central aponta um padrão claro: a grande massa (cerca de 63%) possui quantias pequenas, de até R$ 10,00. É a chamada “inércia do trocado” quando  o custo de tempo para realizar o resgate muitas vezes parece maior do que o valor parado. 

No entanto, há um estrato de contas com valores significativos que pertencem a pessoas falecidas, onde o desconhecimento dos herdeiros sobre a existência do patrimônio mantém o saldo imobilizado.

Economistas explicam que esse fenômeno é comum em classes de renda média e alta, que possuem múltiplas contas e acabam perdendo o rastro de pequenos resíduos financeiros. No outro extremo, empresas inativas ou em processo de falência respondem pelos R$ 2,4 bilhões que compõem a fatia jurídica desse montante.

Continua depois da publicidade

Como o dinheiro “parado” vira crédito para endividados

O governo federal, autorizado pelo Legislativo em 2024, decidiu dar um uso social a essa inércia. Ao transferir os recursos não reclamados para o Fundo de Garantia de Operações (FGO), o Estado cria uma espécie de “colchão de segurança”. 

Na prática, o seu dinheiro esquecido servirá para cobrir eventuais calotes de quem está renegociando dívidas no Desenrola 2.0.

É um contraste emblemático da economia nacional: o saldo de quem não precisa (ou não sabe que tem) financiando a oportunidade de quem está sufocado por juros e restrições de crédito.

Hoje o percentual de famílias brasileiras endividadas atingiu 80,4% em março.

A trava do FGO: O destino definitivo dos recursos

Para que essa operação seja legítima, o governo seguiu um rito de regras. As instituições financeiras têm até esta terça-feira (12) para repassar os valores ao fundo. A partir da publicação de um edital oficial pela Fazenda, os correntistas terão uma última janela de 30 dias para contestar a transferência.

Continua depois da publicidade

Se o prazo expirar sem manifestação, o patrimônio é incorporado definitivamente ao FGO. Para garantir que o sistema não seja injusto, o governo manterá uma reserva de 10% do saldo total para cobrir resgates tardios, mas a mensagem é clara: o tempo da “guarda passiva” pelos bancos acabou.

*Com edição de Luiz Daudt Junior.