Orelha tinha uma rotina definida: todos os dias, às 17h, ia a uma clínica veterinária da Praia Brava, no Norte de Florianópolis, bairro em que vivia, para brincar com outros cães que estavam no local. Cheio de energia, o cão comunitário gostava de correr atrás de carros e não ficava feliz em ter que passar remédio na ferida que tinha no rosto.

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— Ele saía correndo, danado. Então a gente fazia sempre medicação oral — conta a médica veterinária Fernanda de Andrade, responsável pelos cuidados do animal em 2023.

Descrito como dócil, carinhoso e querido por moradores e turistas, o cão tinha orelhas grandes e pontudas, que sempre estavam de pé. A característica marcante é o que dava nome a ele. 

Nesta quinta-feira (5), completa um mês desde que Orelha parou de correr atrás de carros e de brincar com outros cães. O animal morreu no dia 5 de janeiro, em uma clínica veterinária, após ser brutalmente espancado. Segundo a Polícia Civil, um adolescente é o principal suspeito de cometer o crime.

— Eu tinha um pet shop na Praia Brava e eles [os cachorros] moravam no pátio ali da frente, onde ficam as casinhas deles. Tinha um condomínio ao lado do pet shop e ele adorava deitar ali. Então se ele não tivesse na casinha dele, pode ter certeza que se procurasse ele estaria ali. Ele adorava — conta a veterinária Fernanda de Andrade.

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Mesmo cheio de energia e famoso por correr atrás de carros, ônibus e motos enquanto latia, Orelha nunca demonstrou agressividade, afirma a veterinária.

— Ele latia bastante, mas nunca vi ele avançar. Era um latido no intuito de brincar […] Ele tinha bastante energia. Agora, nos últimos anos, o pessoal que estava convivendo mais com ele fala que ele já estava mais dorminhoco. Até por conta da idade, né? 10 anos — disse.

Veja fotos do cão Orelha

Polícia Civil pede internação de adolescente

Na terça-feira (3), a Polícia Civil concluiu as investigações sobre a morte de Orelha e pediu a internação de um adolescente. Outros quatro adolescentes foram representados pelo caso do cão Caramelo, que também sofreu agressões, mas sobreviveu.

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De acordo com a Polícia Civil, o adolescente saiu do condomínio na Praia Brava às 5h25min do dia 4 de janeiro de 2026. Perto das 6h, ele voltou ao condomínio com uma amiga, sendo esse um dos pontos de contradição no depoimento do adolescente. Ao todo, 24 testemunhas foram ouvidas, com oito adolescentes suspeitos investigados. Uma das provas que levaram até o autor do crime foi a roupa utilizada, registrada nas filmagens.

O adolescente viajou para fora do Brasil no mesmo dia em que a Polícia Civil teve conhecimento de quem eram os suspeitos do caso. Ele ficou fora do país até o dia 29 de janeiro e foi interceptado pela polícia ao chegar no aeroporto.

Quando o adolescente chegou ao aeroporto, um dos familiares tentou esconder um boné rosa e um moletom que estava com ele, peças consideradas importantes pela Polícia Civil na investigação. O familiar também afirmou que o moletom foi comprado na viagem, mas o adolescente admitiu que já tinha a peça, usada no dia do crime.

A delegada Mardjoli Valcareggi, da Delegacia de Proteção Animal da Capital, afirmou que havia o risco de fuga enquanto o rapaz estava fora do país, ou descartar elementos que comprovassem a autoria do crime, como o celular.

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Com a conclusão da extração e análise dos dados dos celulares apreendidos, também serão corroborados provas já obtidas, assim como outras informações levantadas sobre o caso. O Tribunal de Justiça catarinense afirmou ao NSC Total que, esse caso, por envolver adolescentes, está em segredo e, por isso, informações não podem ser divulgadas.

Os próximos passos da investigação

Na tarde desta quarta-feira (4), o Ministério Público confirmou que recebeu o relatório das investigações da Polícia Civil acerca dos maus-tratos dos cães Caramelo e Orelha. Agora, cabe a 10ª Promotoria de Justiça da Capital, com atribuição na área da infância e juventude, analisar a investigação para fins de cumprimento dos procedimentos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).  

O Ministério Público pode:

  • Requisitar diligências complementares;
  • Conceder remissão; 
  • Representar à autoridade judiciária para aplicação de medida socioeducativa; 
  • Ou promover o arquivamento dos autos.   

Em caso de medidas socioeducativas, o caso será encaminhado ao Juízo da Infância e Juventude, que dará início à fase judicial, com a realização de audiência de apresentação, oitiva das testemunhas, alegações finais e, posteriormente, sentença. 

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Paralelamente, será analisado o pedido de internação formulado de um dos adolescentes, segundo os requisitos legais. O caso, que tramita em sigilo, será analisado dentro dos princípios que regem o ECA, da forma mais breve possível.   

O que diz a defesa do adolescente

Em nota, os advogados Alexandre Kale e Rodrigo Duarte, representantes legais do adolescente apontado como responsável pela morte do cão Orelha, afirmaram que “as informações que vieram a público dizem respeito a elementos meramente circunstanciais, que não constituem prova e não autorizam conclusões definitivas”.

Confira a nota na íntegra

Os advogados Alexandre Kale e Rodrigo Duarte, representantes legais do jovem indevidamente associado ao caso do cão Orelha, alertam que informações que vieram a público dizem respeito a elementos meramente circunstanciais, que não constituem prova e não autorizam conclusões definitivas.

A defesa atua de forma técnica e responsável, orientada pela busca da verdade real e pela demonstração da inocência, e protesta contra o fato de, até o momento, ainda não ter tido acesso integral aos autos do inquérito.

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Destacamos que a politização do caso e a necessidade de apontar culpado a qualquer preço inflamam a opinião pública a partir de investigações frágeis e inconsistentes que prejudicam a verdade, infringem de forma gravíssima os ritos legais e atingem violentamente e de forma irreparável pessoas inocentes”.