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Avanço das dunas

Duas semanas após dunas 'engolirem' casas, prefeitura de Florianópolis ainda busca solução

Imóveis localizados na Praia dos Ingleses foram condenados pela Defesa Civil, que segue monitorando a região

22/07/2021 - 06h00 - Atualizada em: 22/07/2021 - 07h57

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Caroline
Por Caroline Borges
Por Luana Amorim
Segundo a prefeitura, casas foram construídas em área de preservação ambiental
Segundo a prefeitura, casas foram construídas em área de preservação ambiental
(Foto: )

Quinze dias após casas serem interditadas pelo avanço das dunas na Praia do Ingleses, a prefeitura de Florianópolis ainda não definiu quais intervenções serão feitas no local. A Defesa Civil segue monitorando a área atingida e alega que qualquer interferência precisa ser avaliada com cuidado para não prejudicar o meio ambiente ou acentuar o problema. As informações são do G1.

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No dia 6 de julho, duas casas foram interditadas na Servidão Fermino Manoel Zeferino. Uma semana depois, no dia 12, um perito da prefeitura condenou os imóveis, e um restaurante desativado foi interditado de maneira preventiva. Eles foram construídos em área de preservação ambiental. Ainda segundo o órgão, o risco de habitar os espaços é alto.

Desde que o problema foi registrado, nenhum sedimento foi retirado. Mas existe a possibilidade de recolher a areia que entrou nas casas e a levar para outro ponto, que deve ser definido pelo órgão ambiental da Capital. Porém, ainda não há previsão para isso.

Em entrevista ao G1, o agente da Defesa Civil Marcos Alberto Leal disse que os trabalhos de monitoramento continuam e não há risco de outras casas serem atingidas. Ao menos uma vez ao dia, o órgão vai até o local para analisar o espaço.

— Estamos monitorando e trabalhando nisso. Quando eu falo em trabalhar é porque a gente tem que fazer com cautela por conta do envolvimento do meio ambiente. Não podemos agir de uma forma tão imediatista — disse Leal.

"Realmente não sei o que fazer"

Em nota, a prefeitura informou que a Secretaria de Assistência Social entrou em contato com os donos das casas atingidas e ofereceu vagas em hotéis. Mas, até o momento, o apoio não foi aceito, segundo a administração.

Denise Guimarães Santana, 42 anos, é uma das moradoras que teve a casa condenada devido o avanço da areia. Ela, que se mudou há dois anos para o local, também é a responsável pelo restarurante interditado.

A comerciante conta que chegou a contratar funcionários para retirar a areia atrás do imóvel. No entanto, a pandemia fez o movimento cair e o dinheiro diminuir, a obrigando a fechar o restaurante. Com a interdição, o problema aumentou. O filho mais novo, de 11 anos, está com pai, enquanto ela ainda aguarda uma solução para o problema, dentro de casa, com o outro de filho, de 25. 

— O meu quarto era do lado do montinho de areia. Viver com a areia não era tão terrível, tão desesperador quanto a situação que eu estou vivendo hoje, porque eu realmente não sei o que fazer — conta.

Morando de aluguel no imóvel, ela afirma que não tem para onde ir. Mesmo que fosse para o hotel disponibilizado pela prefeitura, ela teme que os pertences do restaurante sejam furtados e o investimento, perdido.

Floram diz que não tem um levantamento de quantas casas estão irregulares na região
Floram diz que não tem um levantamento de quantas casas estão irregulares na região
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Casas foram construídas de maneira irregular, diz Floram

As casas atingidas pela areia foram construídas de maneira irregular, e estão dentro de uma Área de Preservação Permanente (APP). Segundo a Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis (Floram), como a construção é consolidada, legalmente não é possível fazer uma demolição sumária. O assusto está há cerca de 10 anos em discussão na Justiça Federal. 

A Floram disse, ainda, que não há um levantamento sobre quantas construções na área são irregulares. Ao G1, o Ministério Público Federal (MPF) disse nesta quarta-feira (21) que vai instaurar um procedimento sobre o caso.

Além das casas, as dunas também atingem o cemitério municipal dos Ingleses. Em 2017, a prefeitura chegou a construir um muro de contenção no local. Porém, no início de julho os sedimentos voltaram a atingir o espaço. 

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O cemitério, no então, está construído em uma Área Comunitário Institucional e, portanto, não é irregular, segundo o município, mas já apresentou problemas, pois a areia passa por cima do muro que fica nos fundos. Segundo o Intendente dos Ingleses, Agnaldo Ivo Garcia, a prefeitura realiza a limpeza do local ao menos uma vez ao ano. 

— Em torno de meses, ela [duna] começa a caminhar novamente, a vir para a frente. Chega ao muro e vem para dentro do cemitério. Lógico que já fizemos várias limpezas ali. A gente tira a areia — afirmou.

Apesar disso, Garcia explica que não há risco para a estrutura. A Defesa Civil informou que o local, que fica a cerca de 150 metros das casas, não está sendo monitorado pelo órgão. 

Mas o que causa o avanço das dunas? 

Segundo o geólogo e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), João Carlos Rocha Gré, o avanço das dunas é um processo natural que começou há 2 mil anos por conta de dois fatores: a existência de um banco de areira e o vento forte que transporta os grãos. 

O especialista disse ao G1 que o banco de areia está localizado na Praia de Moçambique, que fica a cerca de 10 quilômetros da Praia dos Ingleses, onde há o registro dos problemas. 

— Quando a maré baixa e o sol seca a areia, o vento se encarrega de levá-la para a terra. O vento Sul se encarrega de transportar, vagarosamento ao Norte, em Ingleses — afirma. 

Ele diz, ainda, que o que vai determinar onde haverá mais acúmulo é a intensidade do fenômeno. 

— O vento Sul, apesar de ser menos frequente, sempre venta com mais força. Por isso, o transporte final é para o [sentido] Norte [em relação a Moçambique] — disse Gré.

Como estão no caminho do percurso natural dos grãos de areia, “a tendência natural é haver soterramento das edificações construídas ali”, explicou o professor. 

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