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Projeto Comprova

É falsa a corrente que acusa a Embaixada do Brasil nos EUA de ser "reduto do PT"

Comprova investigou e verificou que mensagem que circula em redes sociais contém informações que não são verdadeiras

12/08/2019 - 07h26

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Por Redação NSC
Projeto Comprova
Comprova investigou e verificou que a mensagem que circula em redes sociais é falsa
(Foto: )

É falso que a Embaixada do Brasil em Washington, nos Estados Unidos (EUA), seja um "reduto do PT", que tenha batizado uma sala de reuniões com o nome de Marielle Franco e que tenha sido usada politicamente para apoiar a esquerda, como afirma uma corrente que circula no WhatsApp e nas redes sociais.

Segundo o texto, o presidente Jair Bolsonaro teria escolhido o filho Eduardo Bolsonaro, deputado federal pelo PSL de São Paulo, para ser o novo embaixador em Washington para que ele "faxinasse" o órgão. A corrente faz acusações sobre as quais não há evidências em outras fontes de informação.

O texto acusa a Embaixada de batizar uma sala de reuniões com o nome de Marielle Franco, vereadora carioca assassinada em 2018, e de exibir nas paredes a inscrição "Lula Livre", em referência à prisão do ex-presidente. A peça também acusa a Embaixada de ter patrocinado manifestantes que reivindicam a soltura de Lula e abrigado integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

A fonte dessas informações, segundo a corrente, seria um advogado brasileiro que vive em Washington e "muitas vezes precisa ir à Embaixada" para "resolver assuntos de outros brasileiros".

Como verificamos

Para fazer esta verificação, o Comprova entrou em contato com a Embaixada em Washington, com o Itamaraty e com o MST. Foram também consultadas jornalistas brasileiras que trabalham na capital americana e três outros brasileiros que residem na cidade e frequentam a Embaixada.

Além disso, buscamos informações sobre as despesas da Embaixada no Portal da Transparência do governo federal e levantamos fotos do local nas redes sociais e no Google Maps.

A Embaixada do Brasil em Washington afirmou ao Comprova, por e-mail, que as informações divulgadas na corrente "são patentemente falsas" e não têm "nenhum fundamento". Afirmou que é um órgão oficial do governo brasileiro, que não conta com inscrições de cunho político, não recebe ou apoia atos políticos de qualquer sorte nem "oferece espaço para a realização de reuniões que não sejam relacionadas diretamente às suas atividades oficiais".

A Embaixada também ressalta que não tem setor consular, ou seja, não atende a brasileiros para resolver problemas pessoais (como renovar visto ou pedir segunda via de passaporte), competência que hoje cabe a outro órgão, o Consulado-Geral do Brasil em Washington.

A informação contradiz o conteúdo do texto que viralizou, segundo o qual um advogado teria "descoberto" o viés de esquerda do órgão por causa de visitas feitas para resolver contratempos de clientes brasileiros. A Embaixada afirma que trata exclusivamente de assuntos de política externa, com o objetivo de "defender os interesses do Brasil nos EUA". No local trabalham servidores do chamado Serviço Exterior Brasileiro.

A resposta da Embaixada foi corroborada por outros brasileiros consultados pelo Comprova. As correspondentes em Washington Beatriz Bulla, do Estadão, e Marina Dias, da Folha de S. Paulo, afirmam que nunca viram escritos de "Lula Livre" nas paredes nem souberam de salas com o nome de Marielle Franco em nenhum dos prédios da Embaixada.

— Posso dizer com segurança que isso é boato — disse Marina, correspondente desde março.

André Borges, conselheiro da diretoria do Banco Interamericano de Desenvolvimento, disse ao Comprova poder "afirmar categoricamente que nunca viu ou ouviu menção a nenhum dos pontos mencionados no texto" que viralizou, incluindo as acusações relacionadas ao MST. Ele respondeu à reportagem enquanto estava a caminho de uma reunião na Embaixada.

O Comprova fez uma ronda nas principais redes sociais em busca de fotos internas da Embaixada e não encontrou nenhuma imagem ou relato de usuário que corrobore o conteúdo do texto. É possível conferir fotos cuja localização é a Embaixada do Brasil em Washington no Instagram e no Facebook (é preciso clicar nas setas ao lado das fotos para ver as imagens seguintes). O Google Maps também disponibiliza fotos do local.

Nunca ouvi dizer de (a Embaixada) dar contribuição financeira para protestos, nunca me foi oferecido e nunca chegou a mim notícia de alguém que tenha recebido — também contou ao Comprova Livia Lopes, professora na George Washington University.

Ela diz que tem contato frequente com órgão brasileiro para firmar parcerias em projetos acadêmicos.

— Nunca vi membros do MST por lá nem de nenhum movimento social. A Embaixada em geral recebe autoridades e "notáveis" para eventos oficiais, mas que duram poucas horas — disse.

— Diplomatas e funcionários têm linhas ideológicas e preferências distintas, mas noto que todos são respeitosos com a figura do presidente no poder — continuou ela, que diz ter começado a frequentar a Embaixada durante o mandato de Dilma Rousseff (PT).

— Os diplomatas ali são profissionais com décadas de experiência, dedicados ao aprofundamento da relação entre Brasil e Estados Unidos — acrescentou Roberta Braga, que é diretora associada no Atlantic Council, think tank que atua com assuntos internacionais.

A Embaixada afirmou ao Comprova que não publica agenda ou calendário de atividades oficiais, mas divulga as principais ações do órgão em um boletim mensal por e-mail. De outubro de 2015 a junho de 2019, mês da edição mais recente do boletim, não foram divulgadas atividades relacionadas ao MST ou a outra organização de esquerda.

Alguns dos eventos em destaque nesse tempo foram a eleição de Bolsonaro, em outubro de 2018, reuniões de grupos multilaterais, visitas de autoridades brasileiras aos EUA, ciclos de palestras sobre temas do país e apresentações culturais, entre outros. No último mês, a Embaixada divulgou chamadas para uma cerimônia sobre as vítimas do comunismo para o 30º aniversário da queda do Muro de Berlim, que marcou o início da derrocada da antiga União Soviética (1917-1991) e da polarização entre comunismo e capitalismo no mundo.

Ao Comprova, Gilmar Mauro, integrante da coordenação nacional do MST, afirmou que insinuar que a Embaixada tenha apoiado o movimento é "um absurdo".

— Nenhum membro do MST ficou hospedado na Embaixada em Washington, e nunca tivemos nenhum financiamento de nenhuma Embaixada de nenhuma parte do mundo — disse.

Mauro contou que a organização realizou manifestações nos EUA e que seus integrantes com frequência participam de debates no país, mas por meio de "apoio de amigos", não de órgãos oficiais.

Ao lado de outros grupos, integrantes do MST, sob o movimento de nome Amigos do Brasil, realizaram um ato em frente à Embaixada em Washington em junho de 2017. Eles protestavam na época contra atos de repressão no Brasil a manifestações que criticavam o governo do ex-presidente Michel Temer (MDB). Apesar de ter acontecido em frente ao órgão, o evento não teve apoio institucional da Embaixada, mas de movimentos sociais.

— Protestos (na Embaixada) em geral vejo organizados pela sociedade civil — disse Livia Lopes ao Comprova. — Como ocorre com a sociedade americana e as questões que os afetam, também a comunidade brasileira protesta quando não está satisfeita — completou.

As despesas da Embaixada em Washington, de 2012 até julho de 2019, podem ser consultadas (veja como) no Portal da Transparência do governo federal. Para verificar se o órgão financiou algum protesto no Brasil em favor da liberdade do ex-presidente Lula, preso em abril de 2018, o Comprova consultou dados do portal desde aquele mês até o presente.

Não foram encontradas entre as despesas referências a alguma manifestação de esquerda no Brasil, mas a gastos com folha de pagamento, material e eventos no órgão.

Bolsonaro e membros do governo foram à Embaixada

Em março deste ano, Bolsonaro fez uma visita oficial aos EUA acompanhado de uma vasta comitiva: seu filho, Eduardo Bolsonaro, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara; os ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Paulo Guedes (Economia), Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Tereza Cristina (Agricultura), Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) e Ricardo Salles (Meio Ambiente); e Filipe Martins, assessor especial da Presidência para assuntos internacionais.

O primeiro compromisso da delegação, na noite do dia 17, foi um jantar com o então embaixador do Brasil nos EUA, Sérgio Amaral, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior no governo de Fernando Henrique Cardoso e à frente da Embaixada desde 2016.

O evento contou ainda com a presença de Olavo de Carvalho, que mora em Richmond, estado da Virgínia. O presidente postou em suas redes sociais uma foto em que aparece com Filipe Martins, Carvalho, o chanceler Araújo e o filho Eduardo com a legenda "Jantar na embaixada do Brasil nos EUA". Martins retuitou e comentou: "Grande dia!".

Eduardo foi menos econômico e escreveu em sua página no Facebook: "Privilégio poder participar deste momento, na minha opinião histórico: encontro de Jair Messias Bolsonaro com Olavo de Carvalho. Foi um jantar agradável, um bate-papo à vontade propiciado pelo embaixador do Brasil nos EUA Sérgio Amaral. Grande noite!".

O chanceler Ernesto Araújo chegou a dar uma entrevista coletiva na Embaixada, além de ter postado foto no Twitter.

Nem Bolsonaro nem Eduardo, Araújo, Olavo de Carvalho ou algum outro ministro relatou ter visto o termo "Lula livre" nas paredes do local ou uma sala com o nome de Marielle Franco. Tampouco relataram ter encontrado na Embaixada um "reduto do PT".

Por e-mail, o Comprova perguntou ao Itamaraty se o conteúdo da corrente que viralizou é verdadeiro, considerando que o ministro das Relações Exteriores e outros integrantes do órgão frequentaram a Embaixada em Washington. Em resposta, o órgão afirmou que as "informações" do texto enviado pelo Comprova "não procedem". A assessoria de Eduardo Bolsonaro também foi procurada, mas não enviou resposta até a publicação deste texto.

A corrente que viralizou foi divulgada pela página Notícias Servseg e por perfis pessoais no Facebook e no Twitter. A corrente também transitou em grupos de WhatsApp acompanhados pelo Monitor de WhatsApp da Universidade Federal de Minas Gerais, que mapeia conteúdo viral em grupos públicos do aplicativo. Além do Comprova, o Boatos.org verificou o texto.

Contexto

Deputado federal e presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, Eduardo Bolsonaro virou assunto no dia 11 de julho, quando o pai disse em entrevista a jornalistas que indicaria o "Zero Três" para o cargo de embaixador do Brasil nos EUA. O cargo está vago desde 10 de abril, quando o chanceler Ernesto Araújo demitiu o diplomata Sérgio Amaral, à frente da Embaixada desde 2016.

Historicamente, o cargo de embaixador é ocupado por diplomatas de carreira do Itamaraty, como mostra esta reportagem do portal Huffpost Brasil. Advogado e escrivão da Polícia Federal, o filho do presidente não tem formação internacional. Ao responder sobre suas qualificações, o deputado disse:

"Já fiz intercâmbio, já fritei hambúrguer lá nos EUA, no frio do Maine, estado que faz divisa com o Canadá. No frio do Colorado, numa montanha lá, aprimorei meu inglês. Vi como é o trato receptivo do norte-americano para com os brasileiros. Então acho que é um trabalho que pode ser desenvolvido. Certamente precisaria contar com a ajuda dos colegas do Itamaraty, dos diplomatas, porque vai ser um desafio grande. Mas tem tudo para dar certo."

A indicação de Eduardo Bolsonaro para a Embaixada do Brasil em Washington ainda precisa passar pela aprovação do Senado.

A Embaixada do Brasil em Washington

A Embaixada do Brasil em Washington, principal representação diplomática nos EUA, dedica-se a defender os interesses brasileiros no país. É considerada fundamental para a execução da política externa brasileira – atraindo investimentos e promovendo o comércio exterior – e para integrar o Brasil a temas importantes da agenda internacional.

É também considerada uma das Embaixadas mais estratégicas para o Ministério das Relações Exteriores, devido à longa tradição na diplomacia entre Brasil e EUA, ao grande poder econômico e militar norte-americano e à influência do país nas Américas. Os Estados Unidos também são o país com a maior comunidade brasileira no exterior.

A Embaixada divide-se em dois prédios. A residência do Embaixador, um prédio clássico onde vive o chefe do órgão, nomeado pelo presidente da República, e a Chancelaria, edifício modernista onde fica o corpo de funcionários.

Ali trabalham diplomatas e integrantes do chamado Serviço Exterior Brasileiro, corpo de servidores federais que representam o Brasil nos Estados Unidos. Estão também na Embaixada representantes de outros órgãos da administração federal, como o Ministério da Defesa, a Polícia Federal e a Receita Federal.

Projeto Comprova

O projeto Comprova está em sua segunda etapa e, neste ano, reúne 24 veículos de imprensa do Brasil. A checagem acima foi investigada e verificada por jornalistas da piauí, Nexo, NSC Comunicação, Estadão, UOL, Jornal Commercio, SBT, AFP, GaúchaZH, Exame e Poder360.

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