Ao olhar para as tendências de mercado do futuro, cada vez mais tecnológico e embalado por rápidos avanços como o da inteligência artificial, muitas vezes uma parcela importante da população é deixada de lado na equação. A população 50+ é a que mais cresce no Brasil e em países desenvolvidos, com vidas mais longas, e também com mais qualidade. Além da demanda crescente por negócios voltados especificamente para esse público, eles representam uma fatia cada vez maior dos consumidores nos setores tradicionais, e têm perfis que fogem dos estereótipos.

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Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida ao nascer do brasileiro é de 75,7 anos, com uma diferença grande entre homens e mulheres. Eles têm 72,2 anos de expectativa de vida. Elas, 79,3 anos — cerca de 7 anos de diferença. O mesmo se repete em Santa Catarina, que tem valores acima da média nacional, e segue essa diferença entre homens e mulheres. A esperança de vida ao nascer do catarinense é de 79,1 anos, sendo que dos homens é de 75,8 anos e das mulheres de 82,4 anos.

Também chamada de economia da longevidade, a economia prateada é composta pelos serviços e demandas voltados para atender a uma população madura que cresce a cada dia. Passando por diversos setores, do cuidado ao turismo, esse universo busca trazer mais qualidade de vida ao processo de envelhecimento, assim como valorizar essa parcela da população no mercado de trabalho, de forma a continuar contribuindo e indo contra preconceitos como o etarismo.

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A consultoria Data8 estima que o consumo de produtos e serviços por pessoas com mais de 50 anos movimente R$ 2 trilhões por ano no Brasil. Esse público corresponde por 23% do consumo de bens e serviços, com uma renda anual estimada em R$ 940 bilhões. Atualmente, a economia prateada movimenta 7,1 trilhões de dólares todos os anos no mundo, e é considerada a terceira maior atividade econômica.

Os comportamentos de consumo do público 50+ fogem do óbvio. Um estudo da KPMG mostrou que os baby boomers — pessoas nascidas entre 1946 e 1964 — fazem quase tantas compras online quanto a geração X (1965-1983) e os millennials (1984-1995) — com 15 transações por ano, seguidos por 19 e 16 respectivamente. Porém, com uma diferença: seu gasto médio por compra é o maior entre os grupos analisados.

Entre os setores para os quais a população madura destina sua renda mensal, a alimentação dentro e fora de casa vem em primeiro lugar, seguida de gastos com a casa, como aluguel e contas. Em terceiro lugar aparece a farmácia e medicamentos, gasto que cresce com o passar do anos, segundo dados da Tsunami60+, Hype50+ e Pipe.Social. Depois vem o carro próprio e transporte, que cai com o passar do tempo; gastos com familiares; e com turismo e viagem, setor bastante relevante entre 55 a 74 anos, com uma queda depois dos 75 anos.

Turismo em destaque

O setor de turismo está em destaque entre os mercados promissores na economia prateada, e um dos exemplos é a iniciativa do Turismo Social do SESC. Anna Luiza Pillar Correa, analista de turismo, no Departamento Regional do SESC/SC, aponta que a grande maioria do público dos roteiros oferecidos por eles é composta por idosos.

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— Esse público vem muito forte, eles gostam da ideia de viajar em grupo para poder compartilhar um pouco mais de experiências, trocar ideia, ter uma companhia e no fim das contas o nosso trabalho acaba sendo muito voltado para esse público apesar de ser aberto para qualquer pessoa interessada no programa Viajar com SESC — aponta.

Anna explica que o SESC viabiliza roteiros que possam ser feitos de forma segura e com a participação de grupos, geralmente entre 30 a 40 pessoas. A ideia é que todas as atividades sejam feitas com conforto e que esse público possa participar de todas elas sem restrição. A instituição trabalha com turismo social, que possui uma vertente educativa, voltada para o desenvolvimento e construção, tanto de quem viaja, quanto de quem é visitado.

— Trabalhar com as viagens de grupo também auxilia essas pessoas muitas vezes a se reinserir na sociedade. A gente vê muitos idosos que perderam algum familiar ou passaram por algum tipo de perda, algum tipo de trauma que, através do SESC, conseguem se reinserir nesses grupos, conviver mais — detalha.

O público das viagens em grupo do SESC é formado, em sua grande maioria, por mulheres. Anna pontua que existe também a procura por casais, que costumam fazer as viagens de forma recorrente, e uma procura menor por parte dos homens. 

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— As meninas acabam se unindo e criando elas mesmas pequenos grupos que vão participar das programações — relata a analista do SESC.

Mulheres vivem mais, mas enfrentam etarismo de forma mais intensa

No formato em grupo de viagens, os idosos conseguem compartilhar suas experiências e vivências, o que possibilita uma troca que às vezes não é possível ou tão rotineira no dia a dia. Roteiros e programações específicas, como o Encontro 60+ do SESC e o 4º Encontro Nacional da Pessoa Idosa também possibilitam essa interação.

— No fim a gente acaba transformando um pouco essas pessoas e a visão que elas têm de que o mundo está aí pra eles. Eles podem viver, aprender e construir através dessas experiências, eles têm mais que direito de aproveitar e poder viver todas essas oportunidades — afirma Anna.

Startup inova em solução para cuidados

A história da própria família fez Gabriela Alban, co-fundadora e líder da área de cuidadores da startup Nonno, de 23 anos, investir no mercado da longevidade. Em 1996, depois de uma promessa do avô por conta de um câncer de mama enfrentado pela avó de Gabriela, uma capela construída pela família no Rio Grande do Sul começou a receber pessoas em situação de vulnerabilidade. 

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Com o tempo, o local se tornou um lar de idosos que recebeu mais de 600 pessoas de forma beneficente. Na época, o lar era mantido por uma empresa da família, mas atualmente ele caminha por conta própria.

Já em 2015, Gabriela, os pais e os dois irmãos, Mateus e Lucas, embarcaram em uma viagem pela América do Sul, na qual ouviram histórias de pessoas idosas em uma série de entrevistas, no projeto chamado “Origem do Saber”, e se depararam com os mesmos desafios do envelhecimento sentidos no Brasil. 

— A gente viu o quão caro, difícil e arriscado era encontrar alguém para cuidar de quem a gente ama. Na época minha bisavó também estava precisando de um cuidador, precisou de cinco profissionais e aí a gente passou pela dificuldade de buscar essa pessoa. Quando encontrava, muitas vezes não tinha aquela confiança, então isso foi o que chamou muito a nossa atenção na época — relembra Gabriela.

Em um projeto conjunto, surgiu o Nonno, startup lançada em outubro de 2019. A plataforma conecta famílias a cuidadores de pessoas, oferecendo serviços de acompanhamentos a domicílios ou hospitais e Instituições de Longa Permanência (ILPs). O Nonno também oferece serviços para essas instituições, de forma pontual, recorrente ou esporádica.

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Os cuidadores do Nonno passam por verificação rigorosa, com checagem de antecedentes legais e avaliação de aspectos psicológicos através de testes e entrevistas para garantir a confiabilidade do serviço.

Gabriela destaca que a demanda do serviço tem crescido, e que a empresa fundada em Santa Catarina já expandiu as operações para São Paulo. Os dados referentes ao envelhecimento da população e de crescimento deste mercado estão entre os motivos que levaram à criação da empresa.

— A OMS divulgou que até 2050, um quinto da população vai ser idosa. Então, com certeza, tem muito espaço para crescimento. Não só no Brasil, mas no mundo afora também, é uma percepção desse serviço que só cresce — afirma a co-fundadora.

Os serviços do Nonno são majoritariamente buscados por mulheres de 35 a 60 anos, geralmente filhas que estão cuidando dos pais e buscam alguém para dar um apoio, por terem outras tarefas para conciliar, e não possuírem a técnica do cuidado. Já em relação ao perfil do público atendido pelos cuidadores, são em maior parte mulheres, com idades entre 75  e 90 anos, com Alzheimer ou outro tipo de demência.

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“Neto de aluguel” e transporte adaptado

Renato Mondini Ribeiro, de 37 anos, trabalhava como professor e estudava para um concurso quando decidiu trazer o avô, um senhor de 94 anos, que até então vivia em um residencial geriátrico, para morar com ele. A experiência de cumplicidade e companheirismo entre avô e neto na reta final da vida foi o que o motivou a começar a oferecer o serviço de “Neto de Aluguel”, que atende idosos de Florianópolis e região.

— Sabendo que ele ia embora, como todos vamos, me brotou uma iluminação divina e disse assim, cara, preciso continuar, preciso dar continuidade a esse trabalho, porque é algo muito legal, preciso levar essa relação que eu tenho com ele para outras pessoas, e aí surgiu o “Neto de Aluguel” — conta.

Assim, ele passou a oferecer os serviços de acompanhamento de idosos em consultas, levando as perguntas da família e trazendo as anotações, acompanhamento em exames, levar em saídas para passear durante a semana e prestar apoio no caso de idosos que já não dirigem, por exemplo, ou que não têm os filhos por perto.

— Os principais serviços que o Neto de Aluguel presta são devolver vida de volta para os idosos e fazer com que eles se sintam autônomos novamente — afirma.

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Ele afirma que o mercado voltado para pessoas 60+ está em crescimento, e demanda adaptações específicas para esse público, que precisa de mais cuidados, confiança e segurança. Ao mesmo tempo que é um público crescente, é um perfil de pessoas por vezes muito ativas, e diversas.

— A demanda é extremamente crescente. Se nós voltarmos no tempo 50 anos atrás, você não encontrava idosos de 80 anos na rua. Hoje você tem uma longevidade muito alta, com saúde, e eles estão dominando o cenário. O cara de 70 anos está tocando empresa, está trabalhando, está viajando, fazendo cruzeiro, fazendo tatuagem, vivendo — diz Renato.

No caso do Renato, o público é majoritariamente masculino, ainda que ele atenda algumas mulheres. Ele explica que com os homens os atendimentos são mais contínuos, enquanto elas possuem mais autonomia. Quem contrata o “Neto de Aluguel” geralmente são as esposas, ou os filhos.

— Os homens têm mais debilidade que as mulheres. É muito mais fácil o homem se aposentar e ficar no sofá do que a mulher que tá tocando a vida dela, fazendo 10 mil coisas. E a gente vê as mulheres totalmente independentes, seguindo as suas vidas — detalha.

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Com serviços que são contratados muitas vezes de forma contínua, Renato cria uma relação de amizade e cumplicidade com os idosos que atende, assim como era com seu avô. Ele considera que esse tipo de vínculo é de grande importância nessa fase, em que as relações já não são as mesmas e a solidão pode acontecer.

— Ele precisa de alguém com quem ele se sinta à vontade, seguro, e que possa se soltar. Porque os colegas dele têm a mesma faixa etária ou já foram embora. Então ter alguém que possa dar continuidade a esse espírito jovem é de extrema importância — afirma.

Transporte especializado

Outro negócio que surgiu com o intuito de atender esse público é o Deslocar Transporte de Cadeirante e Acamado, que funciona há três anos em Florianópolis. Richard Newton Cunha, técnico de enfermagem de 47 anos, atuava como motorista socorrista antes de abrir a empresa. Por conhecer as demandas e necessidades desse público, criou o negócio que atende pessoas com dificuldade de locomoção e acamados, o que inclui o público maduro.

Com um carro adaptado, que possui espaço para os clientes e mais dois acompanhantes, ele realiza o translado para exames, consultas e eventos relacionados à saúde na região da Grande Florianópolis. A empresa atua com agenda prévia, com horário marcado, e também atende emergências. O diferencial, segundo o proprietário, é o atendimento humano e carinhoso, que torna esse transporte mais confortável para um público que demanda esse tipo de atenção.

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— Percebemos que esse público é carente de um atendimento mais humano. Sabendo que eles necessitam de cuidados especiais, temos certeza que o respeito e o carinho faz com que essas pessoas que já estão passando por um momento delicado, possam ter um pouco mais de conforto — afirma Richard.

Antonietas

Antonietas é um projeto da NSC que tem como objetivo dar visibilidade a força da mulher catarinense, independente da área de atuação, por meio de conteúdos multiplataforma, em todos os veículos do grupo. Saiba mais acessando o link.

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