Com livros traduzidos em 19 idiomas, Ailton Krenak, líder indígena de 71 anos, acredita que a humanidade não está aprendendo com as tragédias. Para o ambientalista, filósofo, poeta, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras, as chuvas, como as que atingiram o Rio Grande do Sul, mostram que ainda não tomamos conhecimento do que está acontecendo com o Planeta em relação ao clima. Já ao citar a guerra na Faixa de Gaza, pontua que as pessoas vão entrar em uma “espécie de abismo cognitivo” daqui para frente.

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Esta reportagem com Ailton Krenak começou a ser gestada sobre a Mãe Terra antes da catástrofe climática se abater sobre o estado vizinho do Rio Grande do Sul. Exatamente em 17 de abril, quatro dias antes do primeiro alerta do MetSul — um dos principais geradores de conteúdo de informação meteorológica do Cone Sul, triângulo geográfico com características geopolíticas semelhantes formado por Chile, Argentina, Uruguai e o Sul do Brasil — avisar que “sucessivos episódios de chuva com altos volumes em algumas áreas do território gaúcho, entre o fim de abril e o começo de maio”. Com agenda praticamente fechada devido às muitas solicitações, foi preciso aguardar.

Ambientalista Ailton Krenak é primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras

Na tarde de 15 de maio foi possível a videoconferência que nos conectou dos altos do Morro da Cruz, em Florianópolis, com Krenak, numa ilha do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, quase divisa com o Espírito Santo. Frente à imagem de um dos maiores líderes ambientais do país, procurei descrever o local em que pisava, contextualizando as comunidades vulneráveis do maciço do Morro da Cruz e a proximidade com os originários em Santa Catarina.

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Nesse intervalo de tempo, entre a ideia da pauta e a entrevista, Krenak recebeu a insígnia de Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra, homenagem do governo francês por seu trabalho na defesa dos povos originários e concedeu outras entrevistas, como para o programa de Roberto d’Ávila, na Globo News. Com números atualizados da tragédia climática no Rio Grande do Sul atingindo quase 90% dos 497 municípios, com cerca de 150 mortos e quase o mesmo número de desaparecidos, parecia óbvia a primeira pergunta da nossa conversa.

— Nós precisamos aprender a andar suavemente na Terra — respondeu.

Se por um lado deu conselho em forma de metáfora, por outro, não passou pano para a humanidade. Acerca da catástrofe humanitária que é a Guerra em Gaza, no Oriente Médio, e sobre questões do clima pontuou:

— Nós não aprendemos nada com a pandemia do Coronavírus, que matou milhares de pessoas no mundo inteiro e poderia ter sido para nós uma travessia mais rica, e não vamos compreender nada com o conflito.

Eu havia me preparado para a entrevista. Mas foi com o desenrolar da conversa que realmente tive noção de quem estava diante de mim. Krenak não estava interessado em explicar como funciona a natureza diante dos impactos da mão humana: derrubada de árvores, retirada da mata ciliar dos rios e avanço do asfalto. Tanto que me contou que é um homem que planta abóboras no quintal de casa. Krenak é parte da natureza. Um contador de histórias de seu povo. Mas não só. É planetário. Em alguns momentos, a fala de Krenak parece cansada da lógica ocidental que nos guia. Porém, também vem dele um certo acalanto:

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— O passar do tempo vai resolvendo alguns mal-entendidos.

Que assim seja, mestre.

Cara pintada, com jenipapo, fardão da ABL e fita indígena na cabeça

Ailton Krenak é autoridade em questões indígenas e desde muito jovem é reconhecido como liderança intelectual. Ainda num mundo sem internet, uma de suas primeiras aparições em nível nacional, em 1987, tornou-se icônica: discursou no plenário da Câmara dos Deputados com o rosto pintado de tinta preta de jenipapo para defender os povos originários na Constituição Federal, que seria promulgada em 1988. Tem forte atuação na fundação da Aliança dos Povos das Florestas, que reúne comunidades ribeirinhas e indígenas na Amazônia, e contribuiu para a criação da União das Nações Indígenas.

Em 5 de abril deste ano, Ailton Krenak tomou posse na Academia Brasileira de Letras. O imortal, primeiro indígena na ABL, ocupa a cadeira número cinco, que foi de Rachel de Queiroz. Por coincidência, a ABL esperou 70 anos para, em 1997, receber sua primeira imortal. Depois de Rachel, outras mulheres ajudaram a romper o monopólio masculino. Em 120 anos, Ailton Krenak é o primeiro indígena a entrar para a mesma instituição. Um marco vê-lo de fardão e fita indígena na cabeça.

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Dança cósmica que integre ciência, conhecimento e cultura

Nascido em Itabirinha, Minas Gerais, ele é um crítico ao sistema capitalista e ao eurocentrismo. Krenak bate forte no colonialismo. Na obra “Ideias para adiar o fim do mundo”, lançada em 2019, faz críticas ao modelo econômico e descreve as consequências do capitalismo no mundo atual.

Ativista do movimento socioambiental, recebeu no dia 13 de maio, da Embaixada da França, a insígnia de Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra. A homenagem é um reconhecimento do governo francês pelo trabalho de Krenak na defesa dos povos originários. Um de seus livros – “Ideias para adiar o fim do mundo” — foi traduzido para o francês em 2020.

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Ao ser homenageado, Krenak fez uma referência ao lema da bandeira do país (liberdade, igualdade e fraternidade), como um convite para olhar para as diferenças e para a diversidade de vidas no planeta Terra. Na cerimônia, ele sugeriu que, em vez de marchas humanas, as pessoas deveriam participar de uma “dança cósmica” que integra ciência, conhecimento e cultura. Sugeriu a dança em vez de “sapatear no planeta”.

A seguir, veja a opinião de Krenak sobre os principais temas que pautam tanto o noticiário nacional quanto o internacional.

Tragédia do clima no Rio Grande do Sul

Nós estamos vivendo uma situação extrema que ninguém conhece. Qualquer vaticínio sobre o que pode acontecer no Rio Grande do Sul, e especialmente em Porto Alegre, é suposição. Eu observo mais o que está acontecendo no Planeta, e não especificamente no Rio Grande do Sul ou no Brasil. Sobre o Sul, eu lembro do meu amigo querido José Lutzenberger (1926-2002), agrônomo e escritor que criou a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), que deu origem à Fundação Gaia e continua a existir pelo trabalho das filhas dele. Meu amigo já antecipava que nós podíamos globalmente entrar num período em que o clima passaria a ser hostil, que a vida em algumas regiões do planeta se tornaria insustentável e inviável.

Planeta

Eu falo sobre o que está acontecendo na Mãe Terra. A Terra não suporta mais a gente sapatear sobre o seu corpo, como temos feito. Nós precisamos aprender a andar suavemente na Terra. Eu prefiro não fazer comentários com contextos políticos sobre administração municipal e estadual no Rio Grande do Sul, pois considero uma mediocridade que me envergonha. Eu não vou falar desse assunto.

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Vida na aldeia

Moro na região do Médio Rio Doce, em Minas Gerais, próximo ao Espírito Santo. O município mais perto está a 40 quilômetros da minha casa. Nós vivemos num planeta onde, independentemente de onde estejamos, tem que se ter responsabilidade local já que se vive numa perspectiva global. No final da década de 80, o movimento ambientalista lançou um lema que era “pensar globalmente, agir localmente”. Sou um homem de 71 anos, com um quintal em casa onde planto abóboras. Às vezes, penso que as pessoas têm muita fantasia sobre esse Krenak.

“Futuro ancestral”

Meus livros estão traduzidos em 19 idiomas. Quando é traduzido no Reino Unido, por exemplo, os países da comunidade de língua inglesa pelo mundo recebem os meus escritos. Isso vale para um livro editado na Espanha — podendo ser lido em espanhol ou castelhano —, na França, como ocorreu em 2020 com “Ideias para o fim do mundo”, e assim acontece. Mas me orgulha muito de terem traduzido três títulos na Coreia do Sul, através da Universidade de Seul: além de “Ideias para adiar o fim do mundo”, eles traduziram “A vida não é útil” e “Futura Ancestral”.

Armas

Infelizmente, ainda existe essa separação entre as Coréia do Sul e do Norte. Tomara que um dia eles descubram que isso é uma manipulação ideológica burra e que resolvam viver como um povo. O povo coreano é um povo muito bonito, tem uma tradição antiga e são povos ancestrais, milenares, assim como os japoneses e chineses. Não vejo motivo para essa separação entre norte e sul, a não ser porque os Estados Unidos patrocinam isso; como patrocina agora a separação na antiga União Soviética, entre a Ucrânia e a Rússia, aquelas coisas dos Estados Unidos de promoverem esse tipo de dissidência no mundo inteiro para vender armas. É uma vergonha, uma tristeza patrocinar guerras com a venda de armas.

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Gaza

Sobre a guerra em Gaza? Nós não aprendemos nada com a pandemia, que matou milhares de pessoas no mundo inteiro, e não vamos entender nada com o conflito. Eu tenho dito que a espécie homo sapiens deu metástase, quer dizer, a gente não vai aprender mais nada. Daqui para a frente, a gente só vai experimentar uma espécie de abismo cognitivo, onde as pessoas se tornam cada vez mais irresponsáveis e incapazes de assumir a sua responsabilidade com relação ao que acontece no mundo, uma espécie de alienação.

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Deputados

O Ministério dos Povos Originários foi uma coisa boa e eu torço para que cumpra as funções para as quais foi criado. No Congresso Federal, os deputados anti-indígenas são muito eficientes. Eles estão conseguindo destruir com o Rio Grande do Sul à medida que fazem e aprovam projetos que vão piorar a condição ambiental. O país está numa rota de crise climática cada vez mais agravada, enquanto os deputados estão liquidando com a legislação ambiental criada antes. Parte dessas bancadas, como aquelas chamadas da bala, da bíblia e do agro, querem destruir o país.

Europa

O papel da Europa hoje é vergonhoso. Todo o progresso, o desenvolvimento e riqueza da Europa foram construídos sobre a destruição ambiental do Planeta. Eu não vejo a Europa atual com bons olhos. Recentemente, o presidente de Portugal disse que o país precisa assumir sua responsabilidade histórica pelo fato de ter construído sua riqueza em cima de milhões de corpos africanos escravizados. Eles sabem que também na América houve danos irreparáveis praticados por Portugal. Apenas um pedido de desculpas não vale: é preciso assumir responsabilidade pela reparação material desses danos.

Palavras

Um presidente pode falar algumas coisas, mas se Portugal não quiser não vai adiantar nada. Quero ver as instituições, o parlamento, os políticos implementarem o que disse o presidente. É como aqui no Brasil: o presidente fala, o ministro fala, mas tem um tempo e uma economia para sugerir e avaliar. Enquanto isso, aumenta o abismo do que foi falado e o que deve ser realizado. Espero que Portugal possa pôr em prática medidas reparatórias em relação ao dano que ele causou aos povos indígenas por 500 anos. Isso não é brincadeira.

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Lusofonia x Sintonia

Ainda não estive em reunião na Academia Brasileira de Letras, pois moro em Minas Gerais e a ABL fica no Rio de Janeiro. Pretendo, em breve, um encontro na ABL onde possa entregar, aos meus colegas acadêmicos, o projeto para criarmos uma plataforma com as 325 línguas indígenas. Disse na Academia, criada por Machado de Assis, “aqui é o Brasil, aqui não é Portugal”. A Academia se esforça em ampliar a lusofonia. Eu estou interessado numa sinfonia, onde os povos indígenas mostrem que a língua do Brasil não é a língua portuguesa.

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Línguas

Temos a língua portuguesa como língua materna, mas a nossa língua materna é uma língua de centenas de povos. Já chegaram a ser milhares, mas foram reduzidos a algumas centenas dessas línguas indígenas. Os escravizados trazidos da África também trouxeram dezenas de línguas. Você tem italiano, você tem árabe, você tem gente do mundo inteiro aqui e essas diferentes culturas, elas precisam ser elevadas. Por isso eu digo que aqui não se fala o português, mas se fala o brasileiro. A minha tarefa é levar para a Academia Brasileira de Letras essa agenda das línguas indígenas.

Confira a entrevista completa

Algumas frases de Krenak

“Água não é recurso. Água é uma entidade”.

“Os humanos não administram mundo nenhum. É uma pretensão acreditar que isso pode acontecer”.

“Nós não administramos a vida, nós experimentamos a vida como milhões de outros seres. Se a gente entender isso, será melhor”.

Alguns livros

  • Futuro Ancestral, (Companhia das Letras, 2022)
  • Ideias para adiar o fim do mundo, (Companhia das Letras, 2020)
  • A vida não é útil, (Companhia das Letras, 2020)
  • O amanhã não está à venda (Companhia das Letras, 2020)

Veja fotos de Krenak

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