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    “A gente nunca está sozinho”, diz autor do perfil Cartas da Pandemia, sucesso nas redes sociais

    Jornalista usou as angústias do isolamento para transformar em palavras o sentimento de muitos enclausurados pela pandemia ao redor do mundo

    11/10/2020 - 06h00 - Atualizada em: 13/10/2020 - 12h46

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    Everton
    Por Everton Siemann
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    Felipe junto com a família de um colega da empresa, na Ilha do Mussulo, região de praias em Luanda, antes da pandemia
    (Foto: )

    Imagine-se em outro país, longe da família – separado pelo Oceano Atlântico – e em meio à uma pandemia. Sem condições de poder voltar ao Brasil. Imaginou esse cenário? Foi assim que o mês de março terminou para o jornalista Felipe Lenhart. O gaúcho nascido em Porto Alegre e que mudou-se ainda bebê para Florianópolis vive atualmente em Luanda, capital da Angola.

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    Ele tranferiu-se para o continente africano há dois anos e meio, após receber uma proposta de emprego em uma empresa de tecnologia, que desenvolve softwares e sistemas. Com a chegada da pandemia do coronavírus e as restrições impostas pelo governo angolano, ele decidiu permanecer por lá. As angústias do isolamento extraíram dele a inspiração para transformar em palavras o sentimento de muitos enclausurados pela pandemia ao redor do mundo. A partir de um sonho, Felipe decidiu criar um projeto, chamado Cartas da Pandemia

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    Fã de crônicas, ele passou a publicar anonimamente textos em que abordava os sentimentos, experiências e provações da vida em isolamento em um perfil no Instagram. O reconhecimento não demorou a surgir. Desde a primeira publicação, em 29 de março, até a última terça-feira, dia 6, data da entrevista, o projeto contava com 54 cartas, milhares de curtidas e comentários, recheados de identificação e engajamento dos apreciadores. 

    – Eu me torneio amigo de muita gente, muita gente mesmo, que nem sabia meu nome. Isso é incrível – diz Lenhart. 

    A identidade visual do perfil, com o formato de cartas e outros detalhes, foi desenvolvida pela designer catarinense Françoise Techio. Atualmente, o perfil do projeto conta com 39,1 mil seguidores e tem textos publicados aos domingos e quartas-ferias. Recentemente, quando completou seis meses, Felipe abriu mão do anonimato. 

    Saiba mais detalhes do projeto na entrevista a seguir:

    Como você foi parar em Luanda, na Angola?

    Foi por uma oportunidade de emprego. Trabalhei na redação do DC digital até outubro de 2017. Aí, apareceu essa oportunidade de emprego pra cá. Fiquei alguns meses pensando e decidi: “Eu vou, não tenho nada a perder”. Resolvi apostar e deu muito certo. Uma mudança bem grande de vida.

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    Angola é um país incrível, um povo incrível, adoro os angolanos. Eles nos recebem muito bem aqui, eles consideram brasileiro um povo irmão. O Brasil foi o primeiro país a reconhecer oficialmente a independência de Angola (em 11 de novembro de 1975). Enfim, tem sido uma experiência bem boa.

    Como surgiu a ideia do projeto “Cartas da pandemia”?

    Rapaz (risos). Foi muito ao acaso. O final do mês de março foi um trabalho insano na empresa, porque a gente tem muito expatriado (alguém que vive fora do país de origem), muito brasileiro, então a gente teve que organizar o home office, montar a infraestrutura pra todo mundo poder trabalhar de casa. E o pessoal que quisesse ir embora, fosse embora. As pessoas tinham que arrumar as malas... Foi um período frenético na empresa. Muita gente foi para o Brasil. Eu optei por ficar. Era uma sexta-feira, dia 20 de março, e aqui no dia 23, assim como em Florianópolis, é feriado. Então, a gente não trabalharia na segunda-feira e a partir da terça já era todo mundo em home office.

    Então, comecei meu período de isolamento e quarentena preocupado, angustiado com o que podia acontecer, indeciso se eu tinha tomado a decisão certa em ficar, afinal de contas o espaço aéreo estava fechado e não teria mais como ir embora, enfim... E com todas as angústias de os meus pais serem idosos, estarem morando no Brasil, aí em Floripa. Preocupação com outras pessoas da família... Estava muito nervoso, muito angustiado. 

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    E aí, logo na primeira semana, tive um sonho com uma ex-mulher e despertei de madrugada no meio do sonho. Isso me impactou muito. A minha reação foi puxar o computador e escrever uma carta. E essa carta acabou se tornando o primeiro texto do perfil. Na época, eu não sabia nem onde publicar. Mandei para um amigo meu, jornalista aí de Floripa também, e ele leu. Ele disse que eu tinha que publicar, porque estava muito bom. Isso foi numa terça ou quarta-feira. Fiquei com isso na cabeça. Chegou o fim de semana e vi algum amigo meu republicar no Instagram uma postagem de um perfil de textos, que tem muitos seguidores, e pensei: “Acho que também consigo fazer isso”. 

    Aí entrei num site de banco de imagens, baixei lá uma textura de papel de carta e fui criando o perfil numa tarde de domingo, tomando uma série de decisões editoriais, que a experiência de jornalista nos proporciona. Quando eu publiquei o texto, eu falei: “Bom, como eu não vou abrir a autoria do texto, não vou assinar o texto, preciso patrocinar esse negócio para ver se alcança leitores”. Então peguei um dinheiro que eu tinha guardado para as férias, que não iam rolar mesmo, e investi o dinheiro das férias nesse projeto (no impulsionamento da publicação). 

    E aí, deu certo. Quando eu acordei no dia seguinte, tinham muitos comentários, muitos likes, senti um incentivo muito grande, mesmo sem saber quem era o autor. Aí escrevi a segunda carta, criei uma periodicidade de sempre publicar aos domingos e às quartas-feiras. E o resultado tem sido incrível.

    A primeira carta foi publicada em 29 de março, e na postagem você faz uma pergunta: “E você, já sonhou pela última vez com a pessoa que amou um dia?”. Nos comentários, muitas pessoas compartilham identificação e experiências similares à relatada no texto. Isso ocorre em outros textos. Qual é o sentimento ao ver esse retorno das pessoas?

    Pra mim é muito emocionante. Sempre gostei de escrever crônica. No DC, em algumas oportunidades substituí o Sérgio da Costa Ramos, quando ele tirava férias. Mas desde a minha mudança para cá, faz dois anos e meio, eu tinha largado esse mundo. Não escrito mais. Tinha focado só no meu trabalho aqui e não escrito mais nessa pegada da crônica. Então, esse projeto, é um retorno ao gênero, porque escrevo as cartas como crônica.

    E é incrível. Procuro sempre tratar de assuntos do isolamento. Lá no começo é o sonho, pegar sol na sacada, são coisas bem do isolamento, da quarentena, e tem milhões de pessoas fazendo a mesma coisa. Isso foi muito forte, as pessoas se reconheceram, se identificaram e mesmo sem saber quem era que estava escrevendo, se era homem, mulher, branco, preto, cristão, evangélico, brasileiro, português, morador do Brasil ou não, as pessoas gostaram e o resultado sempre foi positivo.

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    Fiquei muito impressionado. Estou orgulhoso do que foi construído ali. Formou-se uma comunidade, o índice de engajamento é bem alto, as postagens chegam a muita gente. Os comentários são muito verdadeiros, as pessoas dão depoimento do que estão passando na quarentena delas, fazem confissões, se expõem, é bem tocando, bem emocionante.

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    Registro de Felipe na Serra da Leba, uma espécie de Serra do Rio do Rastro de Angola, localizada entre as províncias da Huíla e do Namibe, no Sul do país africano
    (Foto: )

    A carta mais recente, anterior à entrevista, foi publicada no dia 4 de outubro, e nela você traz uma reflexão sobre o retorno às aulas. E defende o retorno apenas em 2021. Pelo que você tem acompanhado aí em Angola, como tem sido essa experiência das aulas on-line?

    Aqui em Angola, o ano letivo parou em março. Tudo fechou. E voltou esta semana, e esse foi o gancho que usei para escrever essa carta. Voltaram ontem (segunda-feira, dia 5) as aulas do ensino universitário. E algumas turmas do primário e do secundário. Até publiquei nos stories as regras de como seria o retorno, para as pessoas que estavam curiosas.

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    Então nesse período não teve aula nem on-line, nem nada assim. Algumas escolas particulares de idiomas, algumas coisas assim implementaram aula on-line, e deu certo. Para algumas. Eu fiz curso de inglês on-line nesse período. 

    Você se manteve anônimo por seis meses. Em 29 de setembro, você abriu a identidade. Por que essa decisão?

    Foi uma forma de comemorar esses seis meses. No começo, achava que um dos atrativos do perfil era não ter autoria, não ter assinatura, justamente por isso: para que as pessoas tivessem mais empatia pelo que estava sendo narrado e pudessem se identificar mais. Agora, com seis meses, achei que as pessoas já estavam acompanhando e a questão da autoria sempre tinha muita gente perguntava, então decidi como forma de comemorar me revelando como o autor, para que as pessoas pudessem me chamar pelo meu nome. Tanto nos comentários quanto nas mensagens que vinham. O resultado foi bom. O retorno foi bem legal, gostei. 

    Qual é o maior ensinamento que esse projeto lhe deu?

    (Pausa). Bah, que a gente nunca está sozinho. Por mais que a gente esteja isolado em casa. Estou em uma cidade, Luanda, que está sob seca sanitária – que é como eles dizem aqui –, então a gente não pode sair da cidade também. Então você pode estar em um apartamento, numa cidade fechada, num país com espaço aéreo fechado também, e mesmo assim tu consegue conversar com muita gente. Acho que esse foi o melhor resultado do perfil. 

    Eu me tornei amigo de muita gente, muita gente mesmo, que nem sabia meu nome. Isso é incrível. E mesmo assim toda quarta-feira e todo domingo ia lá no Instagram para ler a carta e sempre comentando que esperavam com grande ansiedade o dia da carta. 

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