O ritmo de Brasília em 2026 é ditado pelo relógio das urnas. Com as eleições de outubro no horizonte, o Congresso Nacional vive uma corrida contra o tempo para votar projetos que mexem diretamente com a economia doméstica e o funcionamento do Estado.
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Historicamente, anos eleitorais funcionam como um filtro: pautas que trazem benefício direto ao cidadão ganham velocidade, enquanto reformas estruturais mais complexas costumam enfrentar resistência ou acabam adiadas para a próxima legislatura.
A prioridade da isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil
No topo da lista de prioridades está a atualização da tabela do Imposto de Renda, considerada uma das principais bandeiras políticas do semestre. O foco central é o PL 1.087/2025, aprovado na Câmara em fevereiro e que agora tramita em regime de urgência no Senado.
A proposta busca garantir a isenção para quem recebe até R$ 5 mil mensais, o que pode representar um alívio médio de R$ 400 a R$ 600 por mês para famílias da classe média baixa.
O grande desafio técnico, no entanto, é o equilíbrio das contas públicas. Segundo estimativas do Ministério da Fazenda de março de 2026, a medida gera uma renúncia fiscal de aproximadamente R$ 30 bilhões anuais. Para compensar esse valor, o Congresso discute a MP 1.292/2025, que prevê uma taxação de 15% a 20% sobre lucros e dividendos, além da criação do Imposto sobre Lucros de Aplicações Financeiras (ILAF).
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Para o contribuinte, a conclusão desta votação ainda no primeiro semestre é decisiva para garantir o aumento real no poder de compra ainda este ano.
Transição da Reforma Tributária e as regras do “Cashback”
Enquanto o IR foca no alívio direto, a Reforma Tributária entra em sua fase de implementação prática. O ano de 2026 é visto como um período “pedagógico”, marcado pelo início da transição para os novos impostos (IBS e CBS), conforme as diretrizes da Lei Complementar 214/2025, sancionada em dezembro passado.
Nesta fase, as empresas começam a adaptar seus sistemas contábeis, mas o ponto que mais toca o bolso do consumidor é o PLP 108/2024, que detalha o funcionamento do “cashback”. O projeto prevê a devolução de 20% a 30% do imposto pago em itens essenciais para famílias de baixa renda.
Além disso, o Legislativo corre para definir as regras de fiscalização sobre transações digitais e e-commerce, buscando evitar perdas de arrecadação no ambiente do Pix e do comércio eletrônico global.
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Mudanças na jornada de trabalho e o fim da escala 6×1
Além dos debates sobre impostos, o Congresso também deve se debruçar sobre mudanças na jornada de trabalho, com propostas que buscam limitar ou pôr fim à escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua seis dias consecutivos e descansa apenas um.
Em ano eleitoral, o tema ganha contornos de bandeira social e aparece como uma das prioridades do governo federal na mensagem ao Legislativo, ao lado da regulação do trabalho por aplicativos.
Apesar do forte apelo popular, a medida enfrenta resistência de parte do setor produtivo e de lideranças do Centro, que alertam para o impacto nos custos operacionais, especialmente no comércio e serviços.
A expectativa é de uma tentativa de votação ainda no primeiro semestre, mas o impasse político pode empurrar a decisão final para o período pós-eleições.
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O impasse da Reforma Administrativa e a eficiência pública
Em um cenário de menor velocidade está a Reforma Administrativa. Embora a PEC 32/2020 siga pronta para o plenário, a falta de consenso político em ano eleitoral travou o texto original.
Como alternativa, a PEC 38/2025, apresentada em janeiro deste ano, tenta reaquecer o debate focando em metas de eficiência e modernização da gestão, sem tocar em pontos sensíveis como a estabilidade dos atuais servidores.
Analistas indicam que, devido à pressão das bases eleitorais, o Congresso deve optar por um avanço tímido nesta área. O foco deve ficar em ajustes pontuais na organização das carreiras, deixando mudanças estruturais mais profundas para 2027.
A janela curta para as decisões econômicas
O cenário para os próximos meses exige atenção à “janela curta” de trabalho legislativo, que se fecha simbolicamente no final de junho, quando o foco se volta para as convenções partidárias e campanhas de rua.
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Para o eleitor, o desafio será separar o que é avanço institucional real do que é movimento de palanque. Entre a simplificação de impostos e a busca por eficiência estatal, as decisões tomadas nestes meses definirão a base econômica do país para o próximo ciclo de governo.
Entre custo e bem-estar: os desafios da mudança na jornada
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*Com edição de Luiz Daudt Junior.






