Apesar da lei garantir o ingresso de crianças com autismo nas salas de aulas, os pais ainda esbarram com outro problema: a falta de capacitação dos professores. Isto porque, na maioria dos casos, os estudantes que possuem o espectro necessitam de atenção especializada e adaptação em materiais.

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Porém, as unidades de ensino ainda encontram dificuldades para trabalhar de forma adequada com crianças autistas. Mas o que é necessário para mudar essa realidade e o quanto a escola ajuda no desenvolvimento desse aluno?

A rotina e os desafio das crianças autistas nas escolas de SC

A reportagem conversou com a advogada e especialista em inclusão e direito da pessoa com deficiência e em intervenção precoce no autismo, Carla Bertin, sobre como as escolas devem se tornar inclusivas para esses alunos. Confira a seguir os pontos abordados por ela:

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De que forma as escolas devem se preparar na educação de crianças com autismo? Como acolher essa criança dentro da sala de aula e trazer o aprendizado para ela?

Na verdade, essa é a maior dor que a gente enfrenta todo santo dia, porque a maioria esmagadora dos professores nunca foram capacitados para trabalhar com pessoas autistas. Nós precisamos entender que cada pessoa é única. A questão é que, na educação, a gente ainda tem padrões muito bem pré-estabelecidos, onde o professor ensina especificamente aquilo que faz parte das regras, do que deve ser ensinado e se os alunos aprendem o que foi proposto, eles são aprovados ou recebem uma nota adequada. Se os alunos não aprendem aquilo que foi proposto, eles recebem uma nota baixa ou é reprovado. A questão é: como eu posso exigir que determinadas pessoas aprendam igual as outras pessoas, se elas de fato não são iguais. E aí que a gente está falando da educação inclusiva e o ensino individualizado para cada pessoa, de acordo com as suas potencialidades.

Todos nós temos dificuldades e potencialidades, e a escola só vai sentir de fato que é inclusiva quando o ensino for feito dessa forma, respeitando como cada um aprende e a capacidade de cada um. É isso que a lei preza tanto: que todas as pessoas tenham as mesmas oportunidades que elas, sejam ensinadas de acordo com as suas características específicas e de acordo com as suas potencialidades. O dia que isso acontecer de fato, nós estaremos vendo uma educação inclusiva.
Muitas vezes, as escolas pensam ser uma coisa muito complicada, que exige um investimento muito alto para uma formação super específica, sendo que, na realidade, não é isso. É identificar aquela pessoa como única.

Na rede pública de SC, pais de crianças autistas lidam com os desafios do professor auxiliar

Muito se fala sobre a importância da inclusão de crianças com autismo dentro da sala de aula. O quanto isso ajuda no desenvolvimento da criança?

Ajuda no desenvolvimento não somente da criança com autismo, como das outras crianças. Digo isso por gerações diferentes. Na minha geração, não tínhamos ninguém diferente em sala de aula. As pessoas com deficiência, as pessoas diferentes, eram excluídas, eram escondidas em casa ou então deixadas em salas separadas. Hoje em dia, quando temos pessoas diferentes dentro do mesmo ambiente de sala de aula, as crianças começam a perceber que a deficiência não é sinônimo de defeito ou de vergonha. Elas têm as suas dificuldades, mas que também possuem potencialidades. Elas começam a perceber que aquele amigo em sala de aula é muito bom em alguma coisa ou muito ruim, como toda e qualquer outra pessoa.

As pessoas com autismo têm a possibilidade do desenvolvimento, não somente educacional, mas social, com uma sociedade que existe de fato. As pessoas com deficiência são tão pessoas e titulares de direitos e obrigações, assim como qualquer outra pessoa. Qualquer ação que possa limitar, excluir ou atrapalhar o exercício desses direitos é crime de discriminação. Então, todo mundo tem o direito de estar na mesma sala.

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Agora, existem pessoas que serão melhor beneficiadas em uma escola especial. Cabe a quem decidir? Aos pais, obviamente, com a ajuda dos profissionais que acompanham aquele aluno. Mas em hipótese alguma outra pessoa, que não os pais, pode decidir qual o melhor lugar daquela criança.

De que forma os pais e as escolas podem se preparar para garantir um ambiente seguro e acolhedor para a criança?

Nós pais, nossa sociedade, temos que parar de enxergar a deficiência como sinônimo de incapacidade, defeito ou problema, e enxergarmos um pouco como sinônimo de característica específica de alguém. O ambiente acolhedor é o respeito a todas as pessoas, independentemente de como elas são. Hoje em dia existem, não somente muitas leis, mas a sociedade se incomoda se, por exemplo, uma pessoa preta for entrar em um elevador e o outro falar “não, aqui não é um lugar para você, tem que usar o elevador de serviço, por exemplo”. Isso vira notícia de jornal, as pessoas ficam indignadas, tem gente que quer partir para outra caminhos, porque isso já se transformou em uma verdade tão clara que não importa a cor da pessoa, somos todos iguais.

Falta agora virar uma verdade muito clara que não importa a deficiência ou a característica específica que a pessoa tenha, mas todos nós somos iguais. E essa é uma questão de gerações. A gente vai mudando a mente da sociedade. Não é porque a gente tem uma lei que tudo passa a ser diferente. Seria inocência, pra não dizer até burrice da nossa parte, pensar que por causa de uma lei todo mundo vai pensar diferente. Tem gente que nem sabe dessa lei. Por isso é importante falar cada vez mais a respeito do autismo. Mas enquanto esse respeito, de fato, não acontece, a gente precisa falar cada vez mais e denunciar, porque muitas vezes as pessoas só aprendem quando precisam responder legalmente sobre o que estão fazendo.

A lei obriga que as escolas garantam a vaga para as crianças com autismo, porém, muitas vezes ela não é cumprida e não há fiscalização rígida em cima disso. Qual seria a solução para que ela fosse cumprida na íntegra?

A lei existe e todos precisam cumprir. A questão é que, enquanto quem teve o seu direito desrespeitado não fizer nada, não denunciar, não registrar boletim de ocorrência, não abrir denúncia na Secretaria de Educação e no Ministério da Educação, não processar a escola, pedir indenização e tudo mais, essas coisas, infelizmente, vão continuar acontecendo. É interessante, financeiramente, para muitas escolas continuar negando, porque um aluno com autismo é o aluno que me dá mais trabalho, me dá mais despesa, porque precisa do acompanhante especializado. Então, essa mudança vai vir com o tempo, mas a gente precisa fazer parte dessa mudança, porque senão ela vai demorar muito mais.

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Falo muito para as mães que se a gente não tomar providências, não adianta se manifestar em rede social, no grupo das amigas e tal, a gente tem que tomar providências legais quanto a isso. Você não tem dinheiro para entrar com processo? Pode procurar a Defensoria Pública. Mas se a gente se cala, no fim das contas a gente está sendo conivente e cúmplice de um crime. Não é nada tão simples, porque a gente tá mexendo em verdades absolutas que sempre estão na cabeça das pessoas de que, por exemplo, denunciar não dá em nada.

Então, a maioria das pessoas não fazem nada, porque tem a certeza absoluta que denunciar não dá em nada. Só que você não deu início, aí que não vai dar em nada, mesmo porque as autoridades que podem fiscalizar, que podem tomar medidas contra esse crime, nem estão sabendo oficialmente de que isso aconteceu. Por isso que é tão importante falar a respeito do autismo, sobre direitos e incentivar as pessoas a tomarem providências para que isso não fique barato.

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