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    Especialistas comentam sobre os casos de intolerância e violência que têm marcado Santa Catarina

    Racismo, homofobia, xenofobia, ataques contra as mulheres e outros episódios marcaram os últimos dias em SC

    28/11/2020 - 06h00

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    Por Ângela Bastos
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    Entrevistados pela reportagem abordam o cenário vivido em SC
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    Uma puxada pela memória ou uma pesquisa em veículos da imprensa mostram que, nem faz tanto tempo assim, Santa Catarina frequentava os noticiários nacionais por fatos quase sempre positivos. Era motivo de orgulho: melhores índices em educação, na renda familiar, nas metas de campanhas de vacinação, nos índices de qualidade de vida ou por seus atrativos naturais e beleza ímpar. 

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    Mesmo em tragédias, como grandes enchentes, tornados ou graves acidentes de trânsito, a solidariedade do catarinense se destacava. Nos últimos tempos, no entanto, as manchetes no cenário nacional se dão por descumprimento de regras sanitárias relacionadas à pandemia, denúncias de racismo, xenofobia, homofobia, machismo, células nazistas, violência. Seria um fenômeno novo ou estes comportamentos sempre estiveram entre nós?

    – Sim, sempre estiveram presentes. Essas violências hoje têm mais visibilidade devido ao crescimento da população e a facilidade de divulgação com as redes e mídias sociais – explica a doutora em História e coordenadora do Grupo Laboratório de Relações de Gênero e Família da Universidade do Estado de Santa Catarina, Marlene de Fáveri. 

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    Atualmente, diz a professora, existem 85 grupos neonazistas segundo (levantamento da antropóloga Adriana Dias) em atividade e organizados no Estado. Pela apuração, 15 destes grupos formaram-se nos últimos quatro meses. 

    – Isso acontece porque uma parte da população do Estado ainda professa ideologias de superioridade racial e a valorização da etnicidade ou etnia branca, ainda ligadas aos apelos fascista e nazista dos anos 1930 e 1940, nos quais se exacerbaram preconceitos que perduraram até hoje – complementa. 

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    Para a professora da Udesc, só a educação pode minimizar o que chama de “tragédias humanas”. Na opinião dela, conteúdos humanistas, incluindo as diversidades, o gênero, a solidariedade, as etnias, raças, sexualidades, entre outros, são imprescindíveis para uma mudança de mentalidade. 

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    Para a advogada Daniela Feliz, que integra a Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares, algo marca estes tempos: 

    – Os catarinenses perderam a vergonha em expressar seus preconceitos e intolerâncias, independente das opiniões serem falsas, ilegais ou criminosas. Enquanto isso, as redes sociais funcionam como aliadas pelo fato de causar um aparente anonimato. 

    Advogada Daniela Feliz
    Advogada Daniela Feliz
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    Para a advogada, pautas reivindicatórias por direitos fundamentais, como a igualdade, se tornaram incômodas e desmascararam o elitismo, a misoginia, a violência. 

    – Vivenciamos o ferimento sistemático aos direitos humanos, que vão de ameaças de morte à vereadora negra eleita em Joinville, passando pelo aumento das violências contra mulheres, negros(as), LGBTQ+, indígenas, pessoas em situação de rua, e chegando ao ponto de, em meio a uma pandemia que até o começo desta semana matou 3,5 mil catarinenses, o governo do Estado decidir pelo retorno às aulas sem nenhum plano – argumenta.

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    "Ser displicente com regras é falta de educação"

    Os especialistas da área da saúde concordam. Para o enfermeiro Gelson Albuquerque, doutor em Filosofia da Enfermagem e professor no Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o momento atual não permite descolar comportamentos de parte da população e a pandemia do coronavírus.

    – O catarinense tem que entender que ser displicente com regras é falta de educação. Mas não acho que seja culpa só do governo atual, pois esta desordem já estava dentro da sociedade – observa Albuquerque.

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    Para o ex-conselheiro federal de Enfermagem, a população age desordenadamente por influência das autoridades e seguindo as posturas de líderes.

    – Penso que, no caso da saúde pública, esta desordem vá se organizar de forma brutal quando as pessoas não tiverem leitos e ou mesmo profissionais para atender os doentes. E aí, as autoridades continuarão olhando a barbárie como sendo uma reação natural? – questiona.

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    Para o epidemiologista Lúcio Botelho, especialista e diretor do Departamento de Saúde Pública da UFSC, o comportamento de parte dos catarinenses que se nega a usar máscaras, frequentam lugares com aglomeração e desobedecem regras sanitárias, inclusive confrontando a fiscalização, é exemplo da crise ética, moral e evidencia a perda de valores.

    – A sociedade se empoderou de uma visão quase perversa, e por isso vemos tantas agressões nas ruas – observa.

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