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“Muitos que agem com violência não estão bem consigo”, diz especialista

Racismo, homofobia, xenofobia, ataques contra as mulheres e outros episódios marcaram os últimos dias em SC

28/11/2020 - 06h08

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Por Ângela Bastos
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Entrevistados pela reportagem abordam o cenário vivido em SC
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Joana Célia dos Santos, professora no Departamento de Estudos Especializados em Educação do Centro de Ciências da Educação da UFSC, considera que o cenário nacional tem levado as pessoas a assumirem mais as posturas racistas, e sem nenhum pudor. No cenário catarinense há um “imaginário desejado”, um estado branco eurocêntrico, pensamento que é incentivado: 

– A gente encontra inúmeras placas pelas rodovias informando: “Bem-vindo ao Vale Europeu”, ainda que se esteja entrando em áreas quilombolas ou indígenas. Aqui, uma escola confessional pede que as crianças se fantasiem de favelados do RJ; a suástica é pintada até mesmo dentro de universidades; haitianos e africanos são perseguidos e até mortos. 

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Pesquisadora em Educação e Relações Raciais, com o foco na população negra, a professora aposta nas políticas de ações afirmativas como fundamentais para assegurar formação qualificada de negros e negras nas universidades. Mas acredita que serão insuficientes se o mercado não se abrir para contratação. E isso inclui empresas privadas e poder público: 

– As ações afirmativas dão oportunidade para que o país corrija o curso de desigualdades e se refunde, a partir de relações mais igualitárias e menos violentas como as que temos vivido por conta do racismo. 

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A intolerância atinge fortemente as religiões de matriz africana e isso é mais intenso em cidades do interior de Santa Catarina, onde filhos de santos são questionados por situações diversas, como cobrir a cabeça ou usar roupa branca nas sextas-feiras. Integrante do Núcleo Ecumênico da Faculdade Católica de Santa Catarina, Kátia Regina Luz, sacerdotisa da Tradição de Umbanda e conhecida como Mãe Kátia d’Omolu, considera necessário olhar a pessoa que é diferente da gente com mais zelo e compaixão: 

– Muitas pessoas agem de forma violenta porque elas não estão bem, elas não se entendem, e culpam o outro. Nosso Estado será um lugar muito melhor para se viver se houver respeito às diferenças – diz Kátia. 

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“No Oeste, mulher negra e nordestina sofre xenofobia”, relata pesquisadora

Experiências racistas se espalham pelo território catarinense. É o que revela a pesquisa “Essas pretinhas intrusas que não se aquietam: os efeitos psicossociais do racismo sofrido por mulheres negras e nordestinas que moram no Oeste de Santa Catarina”, feita por Erika Fernanda Kofer, realizada no curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), em Pinhalzinho.

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– O que me motivou a investigar o tema foi, primeiramente, o contexto em que eu, Erika, mulher negra e nordestina estava inserida. Tal qual outras na mesma condição, vivenciava situações de racismo e xenofobia com feitos psicossociais adquiridos num espaço majoritariamente branco e que deixa marcas – conta a psicóloga. 

Conforme Erika, em cidades menores da região, onde a população negra é quase zero, há uma resistência maior por parte da branquitude em aceitar que a mulher preta faça parte do espaço historicamente ocupado pelos brancos.

De modo geral, diz a pesquisadora, percebe-se efeitos de negação e rejeição do corpo negro e situações de posição de inferioridade cultural. Porém, também se configuram modos de visibilidade e de resistência.

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Kátia Regina Luz, sacerdotisa da Tradição de Umbanda
Kátia Regina Luz, sacerdotisa da Tradição de Umbanda
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“Acreditamos que o diálogo seja a porta de saída dessa crise”, aponta imigrante

O haitiano Clefaude Estimable é mediador cultural e intérprete haitiano em Florianópolis, cidade onde mora há cinco anos. Com formação em Ciências Sociais, Religiosas e Arte Bizantina, ele estuda Psicologia na Universidade Sul de Santa Catarina (Unisul) e faz estágio no Setor de Imigração e Refúgio da Defensoria Pública da União.

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Ele também atua como mediador cultural e intérprete voluntário no Círculo de Hospitalidade voluntariamente, organização que apoia refugiados e imigrantes. E conta casos de violência relatados por outros imigrantes.

Clefaude Estimable, mediador cultural e intérprete haitiano em Florianópolis
Clefaude Estimable, mediador cultural e intérprete haitiano em Florianópolis
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– Durante os atendimentos ouço muitos relatos de mulheres. Elas sofrem por serem negras e não falarem o português. Isso ocorre, principalmente, no ambiente de trabalho, e especialmente entre quem faz faxinas. Há um pensamento que devem ser os empregados negros a fazerem os trabalhos mais pesados e/ou considerados mais desagradáveis – relata.

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Mas nem tudo é tão ruim, reconhece Cleff. Existem muitos catarinenses que dão apoio e demonstram empatia. Atitudes assim servem de estímulo. 

– Acreditamos que o diálogo seja a porta de saída dessa crise humanitária que atinge o mundo, e não apenas Santa Catarina. Quando se vê uma imigrante na rua, pense que aquela pessoa tem família, carrega uma história e também sonhos de viver neste novo lugar.

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