Um papel escrito à mão, com asteriscos ao lado de nomes de empresas, é uma das provas que o Ministério Público tem sobre o esquema de corrupção relacionado à merenda que era servida nas escolas de Blumenau. A imagem consta no relatório da investigação que resultou na operação Arbóreo, deflagrada neste mês. O NSC Total teve acesso com exclusividade ao documento e vai detalhar nos próximos dias como o esquema funcionava, de acordo com a apuração do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), que estima R$ 3,6 milhões pagos em propina.
Continua depois da publicidade
Durante a operação Arbóreo, no último dia 7, nove mandados de busca e apreensão foram cumpridos em endereços residenciais e empresariais em Blumenau, Indaial e Araucária (PR). O Gaeco quer identificar outros elementos que confirmem as suspeitas já levantadas ao longo de quase um ano de investigação, que começou durante as análises das provas contra a suposta corrupção do cartel de obras em Blumenau.
Ali, os investigadores perceberam indícios de um esquema também na empresa da merenda e abriram um novo procedimento para aprofundar a história.
Foi um caminho sem volta.
Informações do portal da transparência, quebras de sigilo telefônico e arquivos digitais encontrados em equipamentos eletrônicos dos investigados apontam, segundo o Gaeco, César Botelho, César Poltronieri e Ronaldo “Roni” Wan-Dall, servidores da prefeitura de Blumenau, como os nomes ligados à fraude com a empresa Risotolândia, do Paraná. O período investigado foi de 2021 a 2024. À época, Botelho era chefe de gabinete do então prefeito Mário Hildebrandt (PL), Wan-Dall diretor do gabinete e Poltronieri secretário da Fazenda do município.
Continua depois da publicidade
Eles e os empresários suspeitos podem responder por corrupção ativa e passiva, fraude à licitação e organização criminosa, conforme o MP. Ainda não houve indiciamentos.
Interferência na disputa
A Risotolândia, que dominou os serviços da merenda em unidades de ensino municipal de Blumenau por quase duas décadas, precisou participar de uma nova licitação em 2022. Os editais são conhecidos no poder público por oportunizar que empresas interessadas em prestar algum trabalho façam a proposta financeira. Normalmente, o menor valor vence.
Em outubro de 2021, mensagens trocadas entre Wan-Dall e Botelho indicam que o secretário alertou o chefe de gabinete sobre um parecer jurídico da Procuradoria‑Geral do Município. Conforme o Ministério Público, a recomendação era de que a nova contratação da alimentação escolar fosse fracionada para ampliar a competitividade.

Continua depois da publicidade
Na sequência, Wan-Dall teria encaminhado um documento com contrapontos ao parecer jurídico, sugerindo que a licitação ocorresse por de pregão presencial e não por meio eletrônico, e que fosse em lote único. A suposta força política deu resultado, o parecer original não foi adiante e a licitação foi lançada sem fracionamentos, como mostram os documentos.
Em janeiro de 2022, mesmo de férias, sustenta ainda o Ministério Público, Wan-Dall mandou áudios a Botelho perguntando sobre o andamento do certame. Dias depois, o chefe de gabinete escreve para Wan-Dall: “Manda eles entrarem com recurso”, sem esclarecer o objetivo da medida.
Por “eles”, os investigadores entendem como as pessoas da empresa paranaense. O diálogo também reforça que Wan-Dall era o responsável pelo contato direto com a Risotolândia, acredita o Gaeco.
Informação privilegiada
Em março de 2022, mais uma interação. Nela, Botelho teria enviado o bilhete rabiscado. Escrito à mão, no pedaço de papel, estava a relação das empresas habilitadas na licitação. Entre as aprovadas, a Risotolândia. “Preciso falar com você”, diz a mensagem que antecede a imagem.
Continua depois da publicidade
No dia seguinte, “Botelho novamente demonstrou urgência em contatar Wan-Dall, encaminhando dois valores correspondentes às propostas das concorrentes da Risotolândia”, revelou o MP. Supostamente sabendo do preço que havia sido oferecido pelas rivais no processo licitatório, a empresa propôs o menor valor, venceu a licitação e formalizou o novo contrato de mais de R$ 35 milhões em abril de 2022.
“Emerge um padrão”
“A partir daí, emerge um padrão: elaboração de relatórios com valores pagos à Risotolândia, cálculos reiterados do percentual de 3% sobre os montantes empenhados, deslocamentos frequentes de Wan-Dall ao Estado do Paraná e encontros reservados com Botelho, geralmente na residência do último, na garagem da prefeitura ou em estacionamento de supermercado”, diz o relatório do Ministério Público.
Para o MP, Botelho atuava como articulador e dirigente estratégico dentro do “núcleo público”. Já Wan-Dall seria responsável pela logística da coleta da propina e interação com a empresa. Poltronieri surge nos autos como suporte técnico-financeiro do trio.
Continua depois da publicidade
Na outra ponta, Carlos Gusso, dono da empresa, e Elizete Furtado, consultora da Risotolândia, teriam viabilizado os repasses ilícitos. “A presença de ambos nas agendas telefônicas dos investigados do núcleo público, associada às posições hierárquicas que ocupam ou ocuparam dentro da empresa, indica que exerciam papel de conexão entre a administração pública corrompida e a origem dos recursos ilícitos, configurando-se, portanto, como elos fundamentais da engrenagem criminosa”, sustenta a investigação.
Caos na merenda
No ano passado, a prefeitura rompeu o contrato com a empresa após todo o valor previsto ser usado até dezembro de 2024. A orientação jurídica da Procuradoria Geral foi de que se evitasse a renovação. O governo, então, optou por acionar outra emergencialmente. A Risotolândia fez um pedido liminar à Justiça para reverter a situação, algo que foi negado.
Contrapontos
O NSC Total enviou mensagem para todos os citados na reportagem na tarde de terça-feira (19). Além disso, ligou para Elizete Furtado, César Botelho e Ronaldo “Roni” Wan-Dall. Ninguém atendeu. O espaço segue aberto.
Carlos Gusso indicou que a manifestação seria através da assessoria de comunicação da Risotolândia. A equipe informou por nota que o proprietário “se desvinculou do dia a dia da empresa em 2020, tendo saído formalmente dos atos societários como administrador em abril de 2021”.
Continua depois da publicidade
Já sobre Elizete Furtado, a empresa explicou que ela se aposentou em 2022.
A Risotolândia ressaltou ainda que a “existência de investigação em curso não representa conclusão definitiva quanto a fatos, responsabilidades ou eventual culpabilidade, circunstância que somente pode ser estabelecida após a devida apuração pelas autoridades competentes, com garantia plena do contraditório e da ampla defesa”.
“O Grupo Risotolândia reafirma seu compromisso inegociável com a ética, a integridade corporativa, a conformidade legal e a transparência em todas as suas operações. A empresa seguirá acompanhando o tema com serenidade, responsabilidade institucional e absoluto respeito às autoridades e ao ordenamento jurídico brasileiro”.
César Poltronieri escreveu que não tem “nada a declarar nesse momento inicial”. Único dos agentes públicos que é efetivo na prefeitura de Blumenau, ele estava cedido ao governo de Indaial, mas foi exonerado do cargo de secretário de Administração e Finanças quando a operação Arbóreo veio à tona. No momento, dados da transparência do governo blumenauense mostram que o servidor está em férias.
Mário Hildebrandt preferiu se manifestar apenas por um vídeo publicado nas redes sociais, em que diz sempre ter prezado pela transparência. O político afirma que chegou a determinar auditoria externa sobre “diversas irregularidades” que percebeu enquanto prefeito, mas que “infelizmente não tem controle sobre tudo”. Ele se colocou à disposição da Justiça.
Continua depois da publicidade




