O esquema por trás da empresa responsável pela merenda escolar em Blumenau rendeu pelo menos R$ 2,3 milhões em propina para os três servidores públicos envolvidos. Um deles, do segundo escalão, ia pessoalmente até Araucária, no Paraná, para buscar o dinheiro. A história veio à tona nesta quinta-feira (7) ao motivar uma operação do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), a “Arbóreo”.

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Para o Ministério Público, houve manipulação no processo licitatório que selecionou a empresa Risotolândia em 2022. Conforme o apurado, houve um favorecimento à selecionada através de manobras jurídicas e acesso antecipado a informações sigilosas.

Isso porque, em outubro de 2021, um parecer da procuradoria da prefeitura indicou que seria melhor fracionar o contrato para ampliar a concorrência, já que a Risotolândia concentrava o serviço desde 2006. Por uma suposta força política de um dos comissionados, o parecer não foi adiante e a licitação foi lançada em lote único.

Com acesso antecipado ao valor pedido pelas concorrentes, os agentes acordaram com a empresa a quantia que deveria ser solicitada e, assim, a Risotolândia venceu a disputa no começo de 2022, conforme informações do Gaeco.

Promotor Marcionei Mendes falou sobre operação Arbóreo (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

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Com a empresa vencedora, 3% sobre cada pagamento feito pela prefeitura voltava para os três servidores envolvidos (dois do alto escalão), o que deve ter alcançado, segundo o Gaeco, os R$ 3,6 milhões em propina — desses, R$ 2,3 milhões teriam sido comprovados pelo Ministério Público. Para receber o dinheiro, um dos suspeitos, braço direito do “cabeça” do esquema dentro da prefeitura, viajava à cidade-sede da Risotolândia, em Araucária, no Paraná.

Depois, dividia a quantia com os demais indo até a casa deles, em supermercados ou até no estacionamento da prefeitura, sustenta a promotoria. No total, foram 26 viagens no período investigado, de 2022 a 2024. Não se sabe se o esquema já ocorria antes dessas datas.

Para colher mais provas, nove mandados de busca e apreensão foram cumpridos em endereços residenciais e empresariais vinculados aos investigados em Blumenau, Indaial — um dos suspeitos é servidor na prefeitura da cidade vizinha atualmente — e Araucária (PR). Eles podem responder por corrupção ativa e passiva, fraude à licitação e organização criminosa.

No ano passado, a prefeitura rompeu o contrato com a empresa após todo o valor previsto (mais de R$ 30 milhões) ser usado até dezembro de 2024. A orientação jurídica da Procuradoria-Geral foi de que se evitasse a renovação. O governo, então, optou por acionar outra emergencialmente. A Risotolândia fez um pedido liminar à Justiça para reverter a situação, algo que foi negado.

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Contraponto

Em nota, a prefeitura de Blumenau reforçou que o contrato foi rompido e que a escolha da empresa foi feita na gestão anterior. Ainda assim, disse estar “à disposição das autoridades e colabora de forma transparente com as investigações, reafirmando seu compromisso com a legalidade, a transparência e a correta aplicação dos recursos públicos”.

A Risotolândia disse que, “até o presente momento, não teve acesso integral aos autos da investigação, razão pela qual qualquer manifestação sobre fatos específicos deve observar a necessária cautela e responsabilidade institucional. Desde a ciência da operação, a empresa permanece à inteira disposição das autoridades competentes, colaborando prontamente com todas as solicitações formuladas e reafirmando seu compromisso com a transparência e a plena apuração dos fatos”.

A empresa afirmou ainda ter adotado “medidas cabíveis para obtenção de acesso formal ao conteúdo integral do procedimento investigatório. Após a análise técnica e detalhada dos documentos constantes dos autos, a empresa poderá apresentar esclarecimentos adicionais e posicionamentos complementares, sempre pautados pela precisão das informações, pelo respeito às instituições e pela observância do devido processo legal”.

Por fim, frisou que “a existência de investigação em curso não representa conclusão definitiva quanto a fatos, responsabilidades ou eventual culpabilidade, circunstância que somente pode ser estabelecida após a devida apuração pelas autoridades competentes, com garantia plena do contraditório e da ampla defesa”.

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Prefeito à época dos fatos, Mário Hildebrandt (PL) disse em um vídeo publicado nas redes sociais que sempre prezou pela transparência e que chegou a determinar auditoria externa sobre “diversas irregularidades” que percebeu, mas que “infelizmente não tem controle sobre tudo”. Ele se colocou à disposição da Justiça.

A prefeitura de Indaial informou que exonerou o servidor que ocupava um cargo como secretário municipal.

Três operações em dois dias

A prefeitura de Blumenau foi alvo de três operações do Gaeco nesta semana: Ponto Final, Sentinela e Arbóreo. Elas são independentes e envolvem diferentes grupos, mas as duas últimas foram descobertas a partir de suspeitas que surgiram durante a investigação da primeira, que indicou a existência dos esquemas na área da segurança nas escolas e merenda.

Um dos servidores, inclusive, teria papel importante tanto nas fraudes relacionadas à Orcali quanto na Risotolândia. Além disso, a rede de postos de combustíveis usada para lavar dinheiro no caso da Sentinela é a mesma da Ponto Final.  

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Os nomes do alto escalão, no entanto, não estão mais em atividade na prefeitura. Como ainda não houve indiciamento, medida cautelar ou prisão, as identidades não se tornaram públicas.