Um dos documentos da investigação sobre o “cartel de obras”, formado em Blumenau e região, que movimentou R$ 560 milhões em contratos com prefeituras e desviou R$ 117 milhões, tem 242 páginas. O NSC Total teve acesso com exclusividade ao relatório do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), da operação Ponto Final, e resume nesta reportagem quem eram os principais envolvidos no esquema e como tudo funcionava.

Continua depois da publicidade

Os R$ 117 milhões teriam sido desviados em forma de propinas, aditivos e superfaturamentos em licitações vencidas entre 2017 e 2023, com efeitos ainda vigentes. Além do governo de Blumenau, as empresas que fecharam o acordo ilegal foram contratadas por Pomerode, Brusque, Ascurra, Gaspar, Timbó, Benedito Novo e Rio dos Cedros. Porém, apenas em Blumenau houve participação de servidores públicos que formavam, segundo o Gaeco, um dos núcleos da trama. Eles e os demais investigados foram alvos de 50 mandados de busca e apreensão na semana passada.

Os 47 contratos analisados somam mais de R$ 560 milhões, sendo R$ 226 milhões somente em Blumenau. São serviços como pavimentação e revitalização de ruas, obras de drenagem, construção de pontes e duplicação de vias. Em 25 contratos, o pagamento final foi 10% mais alto em relação ao inicialmente acordado. Em 17 deles esse acréscimo passou de 20% e, em cinco serviços, foram 50% a mais. 

Quando apenas as empresas do cartel participavam da licitação, o que ocorreu em 26 episódios, os descontos oferecidos aos governos eram mínimos. Quando havia competição com outras concorrentes que desconheciam o esquema, os percentuais aumentavam.

O estopim

Uma das 32 obras elencadas em Blumenau é a dos terminais dos bairros Água Verde e Itoupavas, que deu origem à investigação. Conforme o Gaeco, quando as estruturas passaram a ser construídas, a empresa responsável percebeu erros grotescos no projeto e teve dificuldades em receber os pagamentos da prefeitura. Foi então que notou a existência de um esquema com propina, do qual não quis fazer parte. A partir disso, sustenta a denúncia, entraves foram surgindo até resultar na rescisão do contrato de R$ 38,8 milhões.

Continua depois da publicidade

Das 32 licitações blumenauenses de 2017 a 2023 analisadas (veja na galeria), então, 31 teriam ligação com o cartel e somam cerca de R$ 190 milhões, mostra o levantamento do relatório. Inicialmente, o Gaeco estimou cifras em torno de R$ 370 milhões, mas uma análise mais minuciosa na planilha apresentada pelos investigadores demonstra o montante inicial de quase R$ 190 milhões.

Como resumiu o promotor do caso, Marcionei Mendes, em entrevista coletiva após a operação, “80% das obras públicas” de Blumenau eram executadas pelo cartel. Para o MP, o conjunto de provas indica a suspeita de corrupção, fraude à licitação (caráter competitivo e fraude ao contrato) e lavagem de dinheiro.

Como funcionava o cartel de empresas 

O Ministério Público (MPSC) dividiu os envolvidos em três núcleos: Técnico, Econômico e Público — o último configurou-se apenas em Blumenau. No técnico, estão os engenheiros e profissionais que elaboraram, fiscalizaram e validaram projetos e obras. Eram eles os responsáveis pelas fraudes, permitindo a aprovação de medições irregulares, que resultaram em trabalhos superfaturados.

Continua depois da publicidade

No núcleo Econômico estão os que mais faturaram com o esquema: empresários do setor da construção civil. Na prática, eles formavam um cartel e, de forma combinada, definiam entre eles descontos mínimos e divisão de obras, alternando quem venceria cada licitação. Assim, não havia competição justa com os concorrentes que não faziam parte do grupo. Era, segundo o Gaeco, um grande esquema de blindagem corporativa para garantir que apenas integrantes do cartel vencessem.

O terceiro núcleo (Público) se refere aos servidores públicos de Blumenau. Eram nomes do alto escalão, que usavam influência política e funções que possuíam para favorecer os empresários do cartel. Assim, segundo a investigação, criavam aditivos de valores, facilitavam pagamentos, faziam fiscalizações coniventes e excluíam concorrentes que desconheciam o esquema durante os processos licitatórios.

A articulação entre os três núcleos revela uma estrutura organizada e funcional, com divisão clara de tarefas e objetivos complementares. Por isso, para o MPSC, há indícios claros de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, formação de cartel, frustração do caráter competitivo, fraude à execução do contrato, lavagem de capitais e outros crimes.

Continua depois da publicidade

Ao menos oito empresas — mas o total pode chegar a 14 — formavam o cartel. Entre os nomes com provas mais robustas na investigação estão Engeplan, Freedom, Progresso Ambiental, Pacopedra, Paviplan e Terrabase, sustenta o MPSC. Segundo a instituição, a liderança do cartel era do empresário ligado à Engeplan, Arnaldo Assunção.

Perdeu alguma reportagem sobre o “cartel de obras”?

  1. Cartel das obras de Blumenau dividiu contratos que somam quase R$ 600 milhões, diz Gaeco
  2. Empresários e servidores tornaram Blumenau epicentro de cartel de obras, diz Gaeco
  3. Esquemas de corrupção em Blumenau levam a bloqueio de R$ 120 milhões de investigados
  4. Documento mostra como funcionava cartel de obras que operava em Blumenau
  5. Gravações escondidas feitas por articulador de cartel expõem trama da corrupção em Blumenau
  6. Ex-secretário era tratado pelo cartel de obras como “dono de Blumenau”
  7. Dinheiro da propina do cartel de Blumenau foi deixado na gaveta de secretário, revela áudio
  8. Cartel de obras em Blumenau documentou propina de 4% em planilhas achadas pelo Gaeco
  9. Quais as 32 obras que escancaram o cartel da corrupção de Blumenau, segundo o Gaeco
  10. Barradas pela Justiça, empreiteiras suspeitas de cartel têm obras em andamento em Blumenau

Articuladores

Mensagens interceptadas pelos investigadores e publicadas na íntegra no documento demonstram que Assunção definia antecipadamente os vencedores das licitações, buscava informações privilegiadas na prefeitura de Blumenau e articulava com os demais integrantes do esquema.

Nas conversas com o então secretário municipal de Obras de Blumenau, Michael Maiochi, o empresário chega a manifestar a preferência de tratar sobre o esquema com o gerente e fiscal de Obras à época, Carlos César Leite. São os dois agentes públicos que, segundo o Gaeco, figuram entre os articuladores do cartel dentro da prefeitura.

Continua depois da publicidade

Na semana passada, não houve prisões, mas Assunção e Maiochi receberam tornozeleiras eletrônicas como medidas cautelares. As seis empresas não poderão fechar contratos públicos em todo o país, em qualquer esfera. Alguns contratos, no entanto, que estão em andamento, poderão ser finalizados normalmente.

Conversas gravadas revelam detalhes de negociações

Suspeito de liderar o “cartel de obras”, Arnaldo Assunção gravou escondido reuniões com outros empresários, engenheiros e servidores de Blumenau. Assim, acabou gerando provas tidas como esclarecedoras ao Gaeco. O relatório do inquérito expõe sete conversas feitas pessoalmente entre alguns investigados. O NSC Total tentou contato com Assunção, mas a família disse que ele ainda está constituindo advogado e que se manifestará posteriormente.

Uma das hipóteses do Gaeco é que Assunção tenha gravado as conversas por precaução. Se virasse alvo de uma investigação, teria material para oferecer em uma delação premiada, por exemplo. Porém, a polícia chegou nos áudios sozinha, durante análise de computadores, celulares e outros dispositivos eletrônicos apreendidos.

O primeiro diálogo destacado no inquérito é entre Assunção e o então Secretário Municipal de Obras de Blumenau, Michael Maiochi, em março de 2021. Os dois tratam da necessidade de aditivos para reequilibrar os contratos da Engeplan com a prefeitura, já que a empresa estaria tendo prejuízos com obras como a da Rua Bahia. Assunção chega a relembrar serviços anteriores “fechados em 5%”, o que sugere o percentual de propina pago.

Continua depois da publicidade

Trecho da conversa em que Arnaldo Assunção relata a Marcelo Maia que deixou dinheiro na gaveta de Maiochi (Foto: Gaeco, Exclusivo NSC)

O empresário também reclama de um fiscal que seria mais difícil de negociar e diz preferir o gerente de Obras à época, Carlos César Leite, outro nome que aparece com frequência nos documentos do Ministério Público. Maiochi o repreende: “Não dá pra tu sentar aqui e escolher quem tu quer de fiscal. A gente não pode deixar toda vida o Leite”.

O MPSC concluiu que os fiscais atuavam “como facilitadores da liberação de medições, da aprovação de serviços, aditivos e potenciais reequilíbrios econômico-financeiros dos contratos”.

Além de melhorias na Rua Bahia, os contratos supostamente fraudados envolveram obras como a readequação da Rua General Osório, a duplicação da Humberto de Campos, a revitalização da Via Expressa, Ari Barroso e Engenheiro Udo Deeke, entre outros.

Continua depois da publicidade

Cobrança de propina

Em outro episódio, já em abril de 2022, uma conversa gravada entre Assunção e Maiochi revela parte da dinâmica do esquema. À época, houve uma operação do MPSC na prefeitura para apurar uma denúncia de uso indevido de servidores públicos e equipamentos institucionais para a produção de material de campanha nas eleições municipais de 2020.

Maiochi, que não tinha relação direta com aquela investigação, chama Assunção e conta que contratou um bom advogado para acompanhar a história em nome dos interesses da administração municipal e precisa de R$ 200 mil para pagar os honorários.

Por isso, pede que Assunção “coloque todos os seus pagamentos em dia”.

Trecho do documento que cita Maiochi como o “dono de Blumenau” (Foto: Gaeco, Exclusivo NSC)

“Tal solicitação causa estranheza, uma vez que a empresa representada por Arnaldo Assunção é contratada pela prefeitura e, portanto, não possui obrigação de realizar pagamentos ao servidor público”, avalia o Gaeco no inquérito.

Continua depois da publicidade

Durante a conversa, Maiochi garante que chamará também outros empresários do cartel para juntar toda a quantia e tranquiliza sobre a operação em questão, relacionada a um contrato de publicidade:

“A gente tá longe de tudo aqui, não tem vínculo nenhum, mas sobrou pra gente resolver a situação. Tem que levantar 200 mil até semana que vem”, comentou sobre a contratação do advogado.

Planilhas revelam percentuais desviados

No material apreendido com Maiochi, os investigadores afirmam ter encontrado planilhas em Excel que possuíam detalhes dos empenhos e pagamentos feitos às empresas pela prefeitura. Em uma das colunas, no entanto, há a aplicação de 4% sobre o total, representando a fatia que voltava aos servidores, sustenta o Ministério Público. Além dos arquivos, conversas analisadas entre empresários reforçam os repasses de 4%, sendo 2% pagos no início da obra e os outros 2% após os ajustes contratuais, exibe o relatório.

“E aí, claro, né, os 4% daquele valor de R$ 1,4 milhão. Vamos empurrando com a barriga, a administração deles está indo embora”, teria dito Assunção em uma conversa com a irmã do dono da Engeplan, no final de 2024, após as eleições municipais. Ao analisar essa conversa, os investigadores destacaram que a fala de Assunção reforçou a existência do percentual fixo das propinas.

Continua depois da publicidade

Planilha que consta no relatório do MPSC (Foto: Gaeco, Exclusivo NSC)

Em outros momentos, diálogos entre Assunção e engenheiros da Engeplan demonstram que ele orientava os profissionais a inflar os valores dos trabalhos realizados nos registros oficiais, incluir serviços não feitos e ajustar medições para justificar o pagamento de aditivos contratuais, criando margem para o pagamento das propinas, denuncia o Ministério Público.

Tudo recebia o “ok” da prefeitura com o auxílio principalmente de Maiochi e Carlos César Leite, fiscal e gerente de Obras.

Brigas internas

Em outra gravação, o representante da Engeplan fala com Marcelo Maia, engenheiro civil vinculado à Iguatemi Consultoria e Serviços de Engenharia, sobre os pagamentos feitos a Maiochi. Pelo teor da conversa, as quantias foram divididas entre os três. Em dado momento, Assunção reclama de Jardel Floriani, proprietário da Terrabase Terraplanagem, mas o motivo não fica claro:

“Eu vou pegar o Jardel tá? Eu vou pegar o Jardel!”.

Esse não foi o único momento de estresse entre os integrantes do cartel. Em outra gravação de Assunção, Maurício Vogelsanger, proprietário da Paviplan Pavimentação, afirma que Jardel não cumpriu um acordo prévio ao vencer uma licitação na prefeitura de Timbó. Desanimado com os rumos dos acordos, Maurício diz ter intenção de se afastar do cartel, mas Assunção sugere fazer novas reuniões com os demais empresários para resolver as divergências.

Continua depois da publicidade

Em outro momento, mais um diálogo tenso ocorre entre os empresários por conta das insatisfações nos acordos firmados internamente: Assunção, que era constantemente cobrado pelos demais por ser uma espécie de líder dentro do núcleo, desabafa sobre o papel que possui:

“Daqui a pouco quem vai tá na cadeia vai ser eu, o dono da empresa não vai pra cadeia, quem vai pra cadeia sou eu”.

Em outra reunião, em abril de 2022, Maiochi demonstrou preocupação por outro motivo. Em conversa com Assunção e o chefe dele, dono da Engeplan, Jair Galvão Filho, um tema que parece rotineiro, de andamento das obras, evolui para indícios do esquema. Maiochi comenta sobre a possibilidade de que empresas fora do cartel vençam novas licitações.

Como exemplo, cita a obra do Terminal Oeste. Ao longo do bate-papo, afirma que os preços e percentuais das obras são “conduzidos”, ou seja, acordados previamente.

Continua depois da publicidade

“O município está contente porque as obras estão saindo, as obras estão acontecendo”, diz Jair. “Só isso não me faz feliz… Tem que ter as duas pontas, senão eu sou cobrado”, rebate Maiochi, que complementa pouco adiante: “Somos remunerados para ajudar (as empresas)”.

Obra de terminal trouxe à tona o esquema

A obra no Terminal Oeste, na Água Verde, em Blumenau, foi essencial para a investigação de todo o esquema do cartel. Conforme o Gaeco, quando os terminais de ônibus do bairro — e também das Itoupavas — passaram a ser construídos, a empresa responsável percebeu erros grotescos no projeto e teve dificuldades em receber os pagamentos da prefeitura.

Foi então que a contratada percebeu a existência de um esquema com propina, do qual não quis fazer parte, e uma denúncia foi protocolada junto ao Ministério Público. Essas informações iniciais levaram à descoberta de algo muito maior: o cartel de obras.

“Dono de Blumenau”

Uma das conversas gravadas pelo suposto líder do “cartel de obras” trouxe uma expressão reveladora. O então secretário municipal na maior cidade do Vale do Itajaí, Michael Maiochi, é mencionado entre os empresários como o “dono de Blumenau” — o que indica o papel decisivo que ele tinha no esquema, avalia o Ministério Público (MPSC).

Continua depois da publicidade

Pelo relato, conforme os documentos, foi o servidor comissionado quem designou Assunção para coordenar as ações do cartel:

“O dono daqui de Blumenau chamou e disse: ‘então, o Arnaldo vai tomar a frente, marcar umas reuniões para fazer as coisas acontecerem’. Cheio de querer, né? Acertar para o lado dele, obviamente”, falou em tom de crítica em uma conversa com Luciano Thiesen, dono da Freedom Engenharia, apontada como uma das empresas integrantes do conluio.

“Não dá pra tu sentar aqui e escolher quem tu quer de fiscal”, disse Maiochi a Arnaldo Assunção (Foto: Gaeco, Exclusivo NSC)

Para os investigadores, o trecho da conversa é “particularmente revelador” justamente por sugerir a presença de uma “liderança centralizada no esquema criminoso, com poder de decisão sobre a atuação dos demais integrantes, especialmente no que se refere ao direcionamento das empreiteiras responsáveis pela execução de obras públicas” em Blumenau.

Continua depois da publicidade

Com base em todo o material analisado, a promotoria concluiu ser Maiochi o “dono de Blumenau” e afirmou que ele atuava como “articulador das decisões”. Conforme os indícios, “cobrava vantagens indevidas em razão dessa influência”, escreveu ainda o MP.

Dinheiro na gaveta

O dinheiro da propina era pago em espécie, revelou o relatório do Ministério Público. Pontualmente, uma rede de postos de combustíveis foi usada nas transações, mas majoritariamente os pagamentos eram feitos pessoalmente entre representantes das empresas e o então secretário de Obras, sustenta ainda o MPSC.

Em uma das conversas gravadas obtidas pela investigação, Marcelo Maia, engenheiro civil vinculado à Iguatemi Consultoria e Serviços de Engenharia, comenta que fez um pagamento dentro da prefeitura de Blumenau a Maiochi. No diálogo com o “coordenador” do cartel, Arnaldo Assunção, registrado em agosto de 2021, Maia discute sobre valores que teriam sido repassados a Maiochi:

“Eu sei porque eu botei dentro da gaveta do Maiochi… ‘Maiochi tá na gaveta tal’”, relembrou.

Pela análise do Ministério Público, o trecho exposto no relatório evidencia que as quantias foram divididas entre os três (Assunção, Maia e Maiochi) e estariam “possivelmente relacionadas a obras públicas em execução” em Blumenau.

Continua depois da publicidade

O documento não detalha como a propina chegava às mãos de Maiochi, exceto pela conversa entre Maia e Assunção, que cita os momentos de entrega pessoalmente. Por isso, o Gaeco acredita que esse era o modo padrão de operação:

“Os repasses ocorriam de forma dissimulada, com o dinheiro sendo colocado em gavetas específicas associadas ao referido servidor”, concluiu o MPSC.

Uma outra forma de receber o dinheiro ilícito, essa menos recorrente, era através da Rede Meta de postos de combustíveis, que pertencia a Edson Francês. À época, o empresário e contador tinha 11 estabelecimentos, mas atualmente tem apenas um, diz o relatório.

Através das unidades, ele simulava a venda de combustíveis às empresas do cartel, que repassavam os valores dos desvios e, assim, eram entregues ao servidor. “Francês atua como responsável pela movimentação e distribuição dos recursos, sendo identificado como operador financeiro”, diz o documento.

Continua depois da publicidade

Gastos incompatíveis

As provas obtidas pelo MPSC mostram uma “discrepância relevante entre os rendimentos oficialmente declarados por Maiochi e os gastos” dele. A investigação demonstra que ele comprava bens de alto valor em dinheiro vivo, algo incomum nos dias de hoje, como analisou o próprio MP. Monitorado desde 2020, no período analisado Maiochi comprou uma casa, fez uma reforma completa nela e adquiriu armas e outros itens. Além disso, ele e a esposa trocaram de carro algumas vezes.

“A prática de efetuar pagamentos em dinheiro, especialmente em valores expressivos e sem identificação do depositante, embora não configure, por si só, ilicitude, representa obstáculo relevante à verificação da origem dos valores empregados”, sustenta o inquérito.

Para se ter uma ideia, a residência adquirida pelo casal em 2022 custou R$ 438 mil. Destes, R$ 87,6 mil foram pagos como entrada em espécie. O restante, financiado. Houve uma reforma completa do imóvel, que custou R$ 150 mil. O serviço foi feito por um engenheiro civil que é também servidor público, mostra ainda o documento.

Maiochi teria comprado armas e até um refrigerador com dinheiro vivo, reforça o MP. Por isso, a promotoria escreveu que “a recorrência de aquisições realizadas em espécie por Maiochi, conforme demonstrado por comprovantes de depósitos bancários, cupons fiscais e registros telemáticos, revela um padrão de comportamento financeiro que dificulta a rastreabilidade dos recursos utilizados”.

Continua depois da publicidade

Obras em andamento

Com a deflagração da operação Ponto Final em Blumenau e região, a Justiça determinou que seis empresas suspeitas de formar o “cartel de obras” fiquem impossibilitadas temporariamente de fechar contrato com administrações públicas em qualquer esfera (municipal, estadual e federal). Em paralelo a isso, porém, ainda há muitos serviços em andamento sob responsabilidade das investigadas na maior cidade do Vale do Itajaí.

Um levantamento feito pelo NSC Total com base no portal da transparência da prefeitura de Blumenau mostra que o município tem 30 contratos ativos com as empreiteiras alvos do bloqueio judicial. No total, os trabalhos somam mais de R$ 160 milhões, pois alguns já receberam aditivos financeiros (veja a lista completa abaixo).

As provas mais robustas, de acordo com o Gaeco, apontam a participação da Engeplan, Terrabase, Freedom, Paviplan, Progresso Ambiental e Pacopedra no cartel. Atualmente, quatro das seis possuem contratos ativos com a prefeitura de Blumenau: Engeplan, Freedom, Progresso Ambiental e Pacopedra. São serviços de “tapa-buracos”, reforma em escola, pavimentação asfáltica, drenagem, melhorias de vias, criação de ciclovia e até de ponte.

A maioria deles deve ser finalizada neste ano, mas há casos em que o prazo termina apenas em 2027, como a reurbanização da Rua Frederico Jensen e o novo acesso à Rua Franz Volles, no chamado Corredor Norte. Outras já foram entregues, mas há situações em que mesmo já feitos, os serviços constam como “em andamento” no portal da transparência por burocracias finais que ainda não foram encerradas e que mantém os contratos ativos, explicou a prefeitura.

Continua depois da publicidade

Por nota, o governo municipal diz que acompanha a situação de todas as empresas suspeitas de envolvimento no cartel “para avaliar os impactos nos contratos e no andamento das obras”. Duas delas, entre elas a Freedom, já teriam se comprometido a dar continuidade aos trabalhos normalmente. Das seis mencionadas, a Freedom é a que possui o maior volume de obras na cidade, com 13 contratos ativos, segundo o portal da transparência.

“Neste momento, o Ministério Público determinou que os contratos já assinados sigam sendo executados. A restrição se aplica à celebração de novos contratos com as empresas citadas na operação”, reforçou a prefeitura.

O governo municipal garante que estuda medidas para fortalecer a fiscalização dos contratos, “com foco em planejamento, acompanhamento técnico contínuo e ampliação dos mecanismos de controle interno”, conclui a nota.

Veja as obras, o valor e a empresa

  • Requalificação viária do pavimento da Rua Santa Terezinha, bairro Progresso – R$ 2,4 milhões – Engeplan – Contrato em andamento
  • Reurbanização da Ari Barroso, com início no entroncamento com a Rodovia BR-470 e término no entroncamento com a Rua Frederico Jensen x Rua Arno Delling, bairro Itoupavazinha – R$ 5,2 milhões – Engeplan – Contrato em andamento
  • Contenções em gabião e enrocamento na Rua Rodolfo Bretzke, bairro Velha Grande – R$ 347 mil – Engeplan – Contrato em andamento
  • Execução da pavimentação e drenagem da Rua Arnoldo Beck, bairro Itoupava Central (obra concluída, segundo a prefeitura) – R$ 3,4 milhões – Engeplan – Contrato em andamento
  • Aumento de capacidade e requalificação da Rua Doutor Pedro Zimmermann/Rodovia SC-108 no trecho municipalizado, com início no entroncamento com a Rua Engenheiro Udo Deeke x Rua 2 de Setembro e término no entroncamento com a alça do viaduto da rodovia BR-470, bairro Salto do Norte – R$ 10,3 milhões – Engeplan – Contrato em andamento
  • Revitalização de pavimentação asfáltica das Ruas Johann Sachse e Professor Max Humpl, nos bairros Itoupavazinha e Salto do Norte (obra concluída, segundo a prefeitura) – R$ 6,2 milhões – Engeplan – Contrato em andamento
  • Pavimentação asfáltica e drenagem pluvial da Rua Tereza Fischer, no bairro Itoupava Central – R$ 1,5 milhão – Engeplan – Contrato em andamento
  • Recomposição de pavimentação asfáltica em geral na rede do Sistema Rodoviário Municipal (tapa-buraco) e a execução de recomposição de pavimentação asfáltica em obras de implantação novas e substituição de redes e adutoras, novas ligações domiciliares, mudança de ligações, interligações e intervenções nas redes de abastecimento de água do Sistema Rodoviário Municipal de Blumenau – R$ 7,2 milhões – Freedom – Contrato em andamento
  • Reurbanização da Rua Frederico Jensen, com início no entroncamento com a Rua Doutor Pedro Zimmermann/SC-108 e término no entroncamento com a Rua Ari Barroso x Rua Arno Delling, bairro Itoupavazinha – R$ 11,5 milhões – Freedom – Contrato em andamento
  • Melhoria de circulação viária do novo acesso à Rua Franz Volles, bairro Salto do Norte – R$ 15,6 milhões – Freedom – Contrato em andamento
  • Reurbanização da Rua Gustavo Henschel, com início próximo ao entroncamento com a Rua Doutor Pedro Zimmermann/SC 108 e término próximo à edificação industrial n° 550, bairro Itoupavazinha – R$ 4,1 milhões – Freedom – Contrato em andamento
  • Execução de infraestrutura da rotatória da Rua 1º de Janeiro com a Marginal da BR-470, no bairro Fidélis – R$ 5,4 milhões – Freedom – Contrato em andamento
  • Revitalização da pavimentação e melhoria da drenagem pluvial da Rua Dr. Sapelt e Rua Timbó, bairro Victor Konder – R$ 1,7 milhão – Freedom – Contrato concluído, conforme a prefeitura
  • Pavimentação asfáltica e drenagem pluvial da Rua Luiz Maske, bairro Itoupavazinha (obra concluída, segundo a prefeitura) – R$ 5,3 milhões – Freedom – Contrato em andamento
  • Execução de obra da Ponte na Rua Helmund Trapp – Ponte Modular em Concreto (Divisa Pomerode), bairro Testo Salto – R$ 544 mil – Freedom – Contrato em andamento
  • Recuperação asfáltica do Aeroporto Regional de Blumenau, no bairro Itoupava Central – R$ 7,7 milhões – Freedom – Contrato em andamento
  • Macrodrenagem com recuperação de pavimento na Rua Divinópolis, bairro Velha – R$ 3,1 milhões – Freedom – Contrato em andamento
  • Obras de contenção da Rua Caçapava, no bairro Garcia – R$ 630 mil – Freedom – Contrato em andamento
  • Contenção da Rua Otília Passold, no bairro Vila Itoupava – R$ 1,8 milhão – Freedom – Contrato em andamento
  • Execução de calçadas e ciclovia na Rua 2 de Setembro e Rua das Missões, no bairro Itoupava Norte – R$ 1,8 milhão – Freedom – Concluído, segundo a prefeitura
  • Obras de reurbanização da Rua 1° de Janeiro com início no entroncamento com a Rua 2 de Setembro e término no entroncamento com a Rua São Valentim, bairro Salto do Norte – R$ 3,8 milhões – Progresso Ambiental – Contrato paralisado
  • Obra de infraestrutura com pavimentação asfáltica e drenagem pluvial da Rua Anchieta – Trecho 3C, bairro Valparaíso – R$ 3 milhões – Progresso Ambiental – Contrato em andamento
  • Obras de melhoria de circulação viária e reurbanização da Rua 2 de Setembro com reforma e ampliação da ponte Santa Catarina, com início no entroncamento com a Rua Doutor Pedro Zimmermann x Rua Eng. Udo Deeke e término no entroncamento com a Rua 1° de Janeiro, bairros Salto do Norte e Itoupava Norte – R$ 14,2 milhões – Progresso Ambiental – Contrato em andamento
  • Reforma e ampliação da escola, pavimentação interna em piso intertravado, construção dos muros de fechamento, quadra de areia e quadra coberta com vestiário na EBM Bilíngue Annemarie Techentin, localizada na Rua Josephina Rausch Reiter, nº 158, bairro Passo Manso – R$ 8,2 milhões – Progresso Ambiental – Contrato em andamento
  • Obra de melhoria da drenagem pluvial e pavim. asfáltica da Rua Helmund Trapp, bairro Testo Salto – R$ 9,5 milhões – Progresso Ambiental – Contrato em andamento
  • Reforma e ampliação da escola, construção da quadra coberta com vestiário, pavimentação interna em piso intertravado e muros de contenção na EBM Lore Sita Bollmann, localizada na Rua Walter Knaesel, bairro Itoupava Central – R$ 8,3 milhões – Progresso Ambiental – Contrato em andamento
  • Contratação empresa especializada para execução de ciclovia na Rua Engº Udo Deeke (trecho: entre Rua Dr. Pedro Zimmermann e a BR-470), bairro Salto do Norte – R$ 2 milhões – Progresso Ambiental – Contrato em andamento
  • Obra de infraestrutura com pavimentação asfáltica, drenagem pluvial, construção de muro de contenção e passeios do trecho final da Rua Helmuth Goll, entre a Rua Canto do Rio e a Escola Básica Municipal Pedro II, no bairro Progresso – R$ 1 milhão – Pacopedra – Contrato em andamento
  • Contratação empresa especializada para execução de obra de revitalização da Rua Gustavo Zimmermann, Bairro: Itoupava Central – R$ 6,7 milhões – Pacopedra – Contrato concluído
  • Obras da Ponte e acesso na Rua Paraíba, bairro Centro – R$ 5,3 milhões – Pacopedra – Contrato concluído

Continua depois da publicidade

Contrapontos

NSC Total tenta contato com Michael Maiochi desde a operação na semana passada, mas sem sucesso. Ele foi exonerado do cargo que ocupava em Gaspar, como secretário de Planejamento Territorial, horas depois do caso do cartel vir à tona. Servidor efetivo de Blumenau, está afastado das funções a pedido do Ministério Público.

Em nota, a prefeitura de Blumenau informou que Carlos César Leite é servidor efetivo desde 1996 e ocupava, até terça-feira (12), o cargo comissionado de Gerente de Obras, do qual foi exonerado. “Desde a deflagração da operação, o servidor não comparece ao local de trabalho. A Prefeitura aguarda a notificação oficial da Justiça para adoção das medidas administrativas cabíveis, incluindo a abertura de Processo Administrativo”, disse ainda o governo.

A filha de Arnaldo Assunção disse que o pai ainda não tem advogado constituído e que falará em momento oportuno.

Jair Galvão Filho, dono da Engeplan, informou por ligação ter sido orientado pelo advogado a não comentar o assunto. O advogado dele respondeu que vai se manifestar apenas em juízo.

Continua depois da publicidade

Houve tentativa de contato por ligação e mensagem com Luciano Thiesen, dono da Freedom, Maurício Vogelsanger, da Paviplan, Jardel Floriani, da Terrabase, e Israel de Souza, da Progresso Ambiental. Israel respondeu que os advogados estavam verificando a denúncia e que em um momento oportuno se manifestariam.

Mário de Souza Júnior, sócio da Pacopedra, pediu que a reportagem conversasse com o advogado da empresa, Guilherme Vargas. Vargas lamentou as restrições impostas pela Justiça, ressaltou que a Pacopedra tem 40 anos de história e emprega 329 pessoas, que agora não terão como receber salário por conta do bloqueio financeiro. Assim, não conseguirão continuar sequer obras que estão em andamento, explicou.

O defensor garante que a empresa não compactua com esse tipo de irregularidade e nunca participou de nada ilícito. Em uma carta aberta, criticou os excessos “que estão sendo injustamente perpetuados” a pedido do Ministério Público:

“Não fizemos, participamos ou faremos parte de qualquer esquema destinado a ferir os cofres públicos, seja por meio de nossos colaboradores, nossos sócios ou terceirizados. Nossos contratos (públicos ou privados) são executados à excelência, bem como nossas licitações são vencidas com a maior transparência e concorrência possível, sempre pautadas por nosso Código de Conduta”.

Continua depois da publicidade

Marcelo Maia não atendeu ou retornou as mensagens ou telefonemas feitos pela reportagem até o momento.

O advogado de Edson Francês, Rodolfo Warmeling, disse que “recebeu com cautela os desdobramentos das investigações, sobretudo diante da reconhecida regularidade da atuação comercial da rede de postos Meta ao longo dos últimos anos”.

“Permanecemos à disposição das autoridades competentes e confiantes de que os fatos serão integralmente esclarecidos no curso do devido processo legal, especialmente quanto à licitude das atividades comerciais desenvolvidas, amplamente demonstrável nos autos, mediante um acervo robusto de elementos probatórios”, finaliza a nota.

Prefeito à época dos fatos, Mário Hildebrandt (PL) disse em um vídeo publicado nas redes sociais que sempre prezou pela transparência e que chegou a determinar auditoria externa sobre “diversas irregularidades” que percebeu, mas que “infelizmente não tem controle sobre tudo”. Ele se colocou à disposição da Justiça.

Continua depois da publicidade