Em 2016, quando Denise e Fauzi Jordy vieram de Belém para Florianópolis com o sonho de abrir uma loja de açaí, poucas pessoas na cidade conheciam o fruto “de verdade”, no estilo paraense, batido e natural, sem misturas ou adição de açúcar. No entanto, essa era a proposta do negócio deles, a Amazon Fruit.
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Com a loja localizada no Centro da Capital, na Rua Sete de Setembro, o casal passou os primeiros meses amargando prejuízos enquanto assistiam a fila na sorveteria ao lado — que vendia açaí doce, mais parecido com um sorvete — crescer a cada dia. A situação deixou os dois em um impasse: queriam vender o açaí natural, do jeito que comeram a vida toda no Pará, mas precisavam fazer o negócio crescer.
A virada veio com um pedido inesperado. Um adolescente na fila ao lado perguntou se eles vendiam o “Mega Ligado”, uma mistura de açaí batido com banana e leite em pó, popular em outras franquias. Eles improvisaram. O cliente aprovou e anunciou aos amigos na fila do concorrente. Em um mês e meio, o aglomerado de pessoas mudou de lado.
— Antes tínhamos a placa “Açaí do Pará verdadeiro”. Ninguém queria saber. Aí a gente colocou outra: “Açaí com banana e leite em pó”. Meu amigo, explodiu. A gente começou a vender muito. O tempo passou, e a gente, numa micro loja, foi recordista de vendas nas plataformas de entrega. A gente vendia mais copo de açaí do que em qualquer loja de todo o Brasil — recorda Fauzi.
Com o sucesso, começaram a aparecer paraenses recém-chegados a Florianópolis, que viam a bandeira do Pará na fachada e entravam para encontrar um pedaço de casa. A demanda por pratos típicos cresceu. Inicialmente relutantes, Denise e Fauzi começaram a introduzir tacacá, vatapá e maniçoba no cardápio. Aos poucos, o lugar se transformou. De loja de açaí, o Amazon Fruit se tornou referência da culinária paraense na capital catarinense. Hoje, eles atendem cerca de 18 mil pedidos por mês somente no restaurante. Anualmente, para matar a saudade, organizam excursões para o Pará.
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— A Amazônia é uma coisa espetacular, uma energia tão grande que não tem como você ser parte da floresta, sair dela e ficar numa boa. Todo mundo sente muita falta da Amazônia. E pra gente, é muito gratificante servir a culinária da Amazônia e ter essa receptividade — descreve o empreendedor.

Uma nova casa
A Amazon Fruit é testemunha do crescimento da comunidade paraense em Florianópolis. Segundo dados do Censo do IBGE, em 1991, os paraenses em Santa Catarina eram 1.111 pessoas, número que aumentou para 82.192, em 2022 — um aumento de 7.298%.
Santa Catarina, cuja história tem raízes na imigração europeia, no século 19, vive agora um novo eixo migratório: do Norte para o Sul do Brasil. Até por volta de 2010, os fluxos para o Estado eram dominados pelos estados vizinhos, como Paraná e Rio Grande do Sul, além do Sudeste. Os novos dados do IBGE mostram que o Pará é o estado com a quarta maior população em Santa Catarina, atrás do Rio Grande do Sul, do Paraná e de São Paulo.
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O movimento se reflete no campo econômico. De acordo com levantamento da Receita Federal divulgado pelo Sebrae, quase 4 mil empresas em Santa Catarina têm sócios majoritários oriundos do Norte do Brasil. Só o Pará responde por 1.458 empreendedores. As áreas de atuação são diversas, com destaque para atividades médicas ambulatoriais, transporte rodoviário de cargas, restaurantes e construção civil.
Os motivos que levam os paraenses a Santa Catarina são variados, mas têm pontos em comum. Denise e Fauzi, por exemplo, buscavam um lugar turístico onde pudessem empreender. Chegaram a cogitar o Rio de Janeiro, mas acabaram optando por Florianópolis por conta da segurança. Já a barista Patrícia Carolina de Araújo Souza, de 32 anos, buscava melhores empregos e mais qualidade de vida.
— Lá [no Pará] infelizmente a gente não tem emprego, não tem saúde pública boa, não tem saneamento básico dependendo da região, não tem educação boa como tem aqui. Aqui a gente consegue ter uma qualidade de vida em todos esses aspectos — relata.
A rede de contatos em Santa Catarina é crucial para estabelecer os paraenses que vêm para cá.
— Eu saí do Pará e fui morar no interior do Paraná, mas tinha um amigo que morava em Florianópolis há dois anos e me convidou para conhecer. Lá [no Paraná] eu não era feliz, porque eu não tinha acesso à minha cultura, quase não tinha amigos que eram do Pará, eu não tinha acesso à culinária e não tinha nada disso. Hoje, o meu sentimento é que eu voltei para casa — relata a jovem.
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Além dos restaurantes, que se tornaram pontos de encontros de paraenses em Santa Catarina, há eventos que reúnem essa população. Em Florianópolis, alguns bares no Centro-Leste se popularizaram por tocar ritmos famosos no Norte, como tecnobrega, batidão e rock doido. Neste ano, o Centro de Tradições Norte e Nordeste, inclusive, organizou uma festa de São João típica na Passarela Nego Quirido, com apresentações de quadrilhas e culinária da região.
De acordo com o pesquisador Tafarel Cassaniga, integrante do Observatório das Migrações do Centro e Ciências Humanas e da Educação (Faed), da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), as redes sociais migratórias desempenham um papel crucial para os migrantes em Santa Catarina.
— A existência de amigos ou familiares já estabelecidos em Santa Catarina, que compartilham informações sobre oportunidades e a realidade local, serve como um facilitador e um catalisador para novos fluxos migratórios — pontua o especialista.
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Quem já vivia em Santa Catarina notou a mudança. Em Blumenau, o Clube Atlético Metropolitano, que disputa a Segunda Divisão do Estadual, lançou uma coleção de camisas em homenagem à migração. Foram dois modelos: um em homenagem aos alemães que fundaram a cidade, no século 19, e outro celebrou os paraenses, que começaram a chegar nos últimos anos.
— A ideia surgiu a partir da visão de que a comunidade paraense estava aumentando em Blumenau. O crescimento de negócios voltados a paraenses (como bares e restaurantes, por exemplo), já nos indicavam que era algo exponencial. Camisas de Remo e Paysandu cada vez mais comumente encontradas nas ruas da cidade ainda nos traziam uma outra sensação: de que além de virem para Blumenau, os paraenses também são apaixonados por futebol — conta Lucas Zanotto, presidente do clube.
Segundo Zanotto, no entanto, a iniciativa gerou controvérsia na cidade. Nas redes sociais, muitas pessoas criticaram a criação de uma camisa para os paraenses.
— A campanha por um lado chocou, porque ninguém imaginava que além da Alemanha nós iríamos homenagear um estado do Norte do país e que não tem ligação com nossas raízes. E é aí que está o pulo do gato: não é porque um povo não fundou a cidade que ele não faz parte dela. Blumenau é uma cidade cosmopolita, onde não pode haver um milímetro sequer de espaço à xenofobia — defende o presidente do clube.
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Preconceito, frio e um jeito diferente de socializar
Além das críticas nas redes sociais, a xenofobia se manifesta no dia a dia dos migrantes. Denise conta que já aconteceu de um cliente idoso, surpreso, questionar se ela era mesmo do Pará “com a pele tão branquinha assim”.
Osmar Rodrigues de Jesus Júnior, de 32 anos, proprietário de uma mercearia nortista no Monte Verde, em Florianópolis, relata uma situação sutil no ônibus.
— Um rapaz bem branco sentou ao meu lado, botou a mochila entre eu e ele, e ficou de costas. Senti preconceito ali — narra ele.
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Segundo o pesquisador Tafarel Cassaniga, o preconceito e a discriminação causam danos à toda a comunidade:
— Infelizmente, ainda há muitos casos de estigmatização direcionada a migrantes internos, especialmente nortistas e nordestinos. Essa realidade não apenas gera sofrimento individual, mas também impede a plena integração social e o aproveitamento de todo o potencial desses novos residentes.
Além do preconceito, os paraenses enfrentam desafios de adaptação no outro lado do país. O clima, por exemplo, é uma barreira.
— Sentimos muito frio quando chegamos. Era agosto, fim do inverno, mas ainda assim era muito diferente do que estamos acostumados — conta o comerciante Osmar Rodrigues de Jesus Júnior
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Para ele, no entanto, o maior desafio é a distância da família:
— A gente que é do interior, a família fica todo mundo junto. Aqui é mais correria, pouco tempo com a família.
— O pessoal lá é mais dado, mesmo sem conhecer. Aqui a gente tá aprendendo que cada um é no seu quadrado — complementa o irmão de Osmar, Oziel Aires de Jesus, 33 anos.

Acolhida e oportunidades
Apesar dos desafios, a sensação de recomeço e a qualidade de vida encontrada em Santa Catarina falam mais alto. Osmar e seu irmão Oziel administram a mercearia Do Norte, localizada no bairro Monte Verde, em Florianópolis. O estabelecimento tornou-se referência para a comunidade, oferecendo desde produtos essenciais, como açaí, farinha, tucupi e peixes de água doce congelados (tambaqui, filé de dourada), até especiais como o “Saúde da Mulher” e o “Saúde do Homem”, elixir à base de ervas amazônicas.
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Para Osmar, que chegou há sete anos com a esposa, a decisão de migrar foi em busca de um futuro melhor.
— A cidade deu um futuro melhor para nossa filha, que nasceu aqui e é manezinha. Deus nos abençoou — celebra.
Oziel, que veio depois, reforça.
— A cidade é abençoada. Muito lugar bonito, gente educada. Só não gosto do frio, mas o resto compensa — brinca.
Se no século 19 eram os europeus que buscavam recomeço em Santa Catarina, hoje são os paraenses que chegam com a mesma esperança, recriando pedaços da Amazônia no Sul e transformando, com sua cultura e trabalho, a paisagem social e econômica do Estado.
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Para o pesquisador Tafarel Cassaniga, a contribuição dos novos migrantes é inegável:
— Há uma invisibilização das contribuições dos migrantes internos, em contraste com a valorização histórica da imigração europeia. Essa lacuna na narrativa e no reconhecimento social precisa ser superada para que Santa Catarina possa, de fato, se tornar um exemplo de acolhimento e justiça social.
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