A violência doméstica raramente começa com um soco. Às vezes, inicia com um pedido para que a mulher mude de roupa. Em outros momentos, com ciúmes excessivos, ameaças, gritos e agressões verbais. Todos esses sinais são exemplos que antecedem a violência física. No entanto, o auge dessa escalada de violência é o feminicídio, um crime que mata quatro mulheres todos os dias no Brasil e, entre 2020 e 2025, matou 396 mulheres em Santa Catarina, segundo dados do Mapa do Feminicídio, produzido pelo Ministério Público do Estado. 

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Há mulheres, entretanto, que apesar da violência brutal e por razões externas à vontade do agressor, conseguem sobreviver. Fernanda* é uma delas. 

No dia 24 de outubro de 2025, em Rio Negrinho, no Norte de Santa Catarina, o ex-namorado da jovem, armado com um facão, invadiu o refeitório do local onde ela trabalhava. O motivo: ele não aceitava o fim do relacionamento de 5 anos. Dois colegas tentaram contê-lo e acabaram feridos.  

— Ele saiu correndo para tentar me pegar de volta. Eu acabei caindo e me rastejei até a calçada, que foi onde ele me atacou brutalmente. No início, começou com golpes na cabeça, mas, por instinto, coloquei as duas mãos na cabeça — relata.   

Por conta dos golpes, Fernanda* teve a mão amputada aos 18 anos. A violência dentro do relacionamento, entretanto, havia começado muito antes. Em uma das vezes, segundo ela, o agressor a atingiu com um soco no nariz.  Por ser muito nova,  não tinha consciência de que vivia um relacionamento abusivo, escondia as marcas com maquiagem e não denunciava. 

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— No início foi aquele relacionamento normal que a gente passou a se conhecer e gostar um do outro. Com o passar do tempo, começou a mudar a nossa relação, porque acabei descobrindo que ele começou a usar substâncias ilícitas. Eu nunca aceitei que ele usasse esse tipo de coisa — relata. 

Ao perceber que o parceiro não tinha perspectiva de futuro e mantinha o vício, Fernanda* decidiu terminar o namoro por mensagem em uma quarta-feira, bloqueando-o em seguida. O ex-namorado não aceitou o fim do relacionamento e passou a fazer ameaças de morte por meio de terceiros e vizinhos, chegando a ir à casa da mãe da vítima para dizer que tiraria a vida da filha caso ela não ficasse com ele. 

— Ele falou que queria me matar, que não suportava o término e nem que eu iniciasse um relacionamento ou ficasse com outra pessoa. Se ele não tivesse eu, eu não ia ter ninguém — desabafa.  

Dois dias após o término, na sexta-feira, o ex-namorado de Fernanda cometeu o crime. Para entrar no refeitório, utilizou o nome falso de “Luís” e disse a uma colega de trabalho da vítima que gostaria de entregar algo para ela,

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Desconfiada, ela recusou o encontro. Mesmo assim, ele invadiu o local armado. Os colegas de trabalho, que seguraram o agressor para que a jovem pudesse fugir, foram atacados e quase morreram (um deles sofreu ferimentos graves na orelha e o outro no pescoço). 

— Eu no momento achei que ia morrer, por conta de perder tanto sangue, e que ele ia acabar com a minha vida

O agressor foi preso no mesmol dia que cometou o crime, desde então, aguarda julgamento. No entanto, a liberdade de Fernanda também foi cerceada:  

— Eu não consigo mais andar sozinha pelas ruas. Tenho medo que ele saia de lá e venha fazer o que não concluiu, que é tirar a minha vida. 

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“Estou viva por um milagre” 

Dois anos antes, o mesmo aconteceu com Camila*, uma mulher trans intersexo residente em Florianópolis, que sobreviveu a um ataque violento em 2018. Enquanto aguardava o marido na Praia de Canasvieiras, ela foi abordada por dois homens, colocada à força dentro de um carro e levada para um terreno baldio. Ali, sofreu violência sexual e espancamentos severos.

— Bateram muito na minha cabeça, chutaram meu rosto, quebraram todos os meus dentes. Meu olho quase foi perfurado, meu crânio rachou, a cervical foi destruída e os braços foram quebrados — conta ela, que conseguiu escapar rastejando com uma corda ainda amarrada ao pescoço.

Camila* passou três dias em coma. Hoje convive com graves problemas neurológicos que a impediram de voltar a trabalhar como costureira. A Polícia Civil chegou abrir uma investigação, mas os agressores nunca foram localizados

— Eu não tenho mais a inteligência que eu tinha. Estou viva por um milagre. Sou sobrevivente de uma tragédia. Até hoje, os agressores não foram identificados pela polícia. Encontrei um deles dentro de um ônibus e nada pude fazer, porque não existia câmera. Não tenho como provar.

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Fernanda* e Camila* fazem parte de uma estatística brutal de mulheres que quase perderam a vida por simplesmente serem mulheres. Somente em Santa Catarina, 1.239 mulheres foram vítimas de tentativas de feminicídio entre janeiro de 2020 e março de 2026, segundo dados da Secretária de Segurança Pública (SSP). Já em nível nacional, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), foram registrados 3.870 casos somente em 2024 — uma média de 10 vítimas diárias no Brasil

Por outro lado, há mulheres que não sobrevivem aos ataques brutais. Entre 2020 e 2025, de acordo com o Mapa dos Feminicídios, produzido pelo MPSC, 396 mulheres foram vítimas de feminicídio em Santa Catarina. Ainda conforme o documento, 66,4% de todas as Mortes Violentas Intencionais de Mulheres (MVI) em Santa Catarina são classificadas como feminicídios. Isso demonstra, ainda segundo o documento, que a maior ameaça à vida das mulheres no Estado decorre de questões de gênero, e não da criminalidade urbana comum. 

Além disso, até 21 de maio de 2026, 23 mulheres foram assassinadas no Estado por questões relacionados a gênero, de acordo com a SSP. Em média, 59 mulheres são mortas por ano no Estado, vítimas de feminicídio. 

— O feminicídio acontece quando uma mulher é assassinada pelo simples fato de ela ser uma mulher. Isso pode acontecer dentro de casa, numa relação íntima de afeto entre marido e mulher, ou por um desconhecido na rua, ou dentro de uma família extensa, ou dentro de um território dominado por uma economia ilegal — explica a promotora de Justiça Chimelly Marcon, do MPSC. 

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No Brasil, as estatísticas também são alarmantes. Em 2025, 1.568 mulheres foram assassinadas, o maior número registrado desde 2015, ano que a Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104)  entrou em vigor. O texto, sancionado em 9 de março pela então presidente Dilma Rousseff (PT), transformou o feminicídio em uma qualificadora do crime de homicídio e o incluiu no rol dos crimes hediondos. 

Em 2024, a legislação passou  por mudanças e o feminicídio se tornou um crime autônomo. Com isso, o teto da punição disparou, tornando-se a maior pena privativa de liberdade prevista em toda a legislação brasileira, podendo chegar a 40 anos de prisão

A endemia do feminicídio 

Os dados avassaladores mostram que o feminicídio pode ser considerado uma endemia dentro da sociedade brasileira, explica a promotora de Justiça Chimelly Marcon. A especialista entende que os aspectos que estimulam a violência estão dentro da nossa formação sócio cultural, como a propagação do machismo e sexismo estrutural

— São aspectos que, infelizmente, nós acabamos replicando de geração para geração. Por isso que nós falamos de endemia. O fator social e cultural está na nossa sociedade e no nosso modelo de socialização — destaca. 

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A juíza Naiara Brancher, titular do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da Capital, do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), também salienta que há um componente cultural e reacionário na explosão desses casos: 

—O que nós estamos sofrendo hoje é como se fosse uma revanche, uma resposta dessa sociedade machista para com os direitos alcançados e galgados pelas meninas e mulheres. Essa sociedade que se autoriza, de alguma forma, a dispor dos corpos femininos. 

“A cena que nunca vou esquecer”

Inara foi assassinada na frente da filha de 3 anos (Foto: Josue Betim)

 Inara Karina Tribess foi uma das vítimas da endemia do feminicídio em Santa Catarina. Considerada uma mulher doce, quem a olhava de fora, às vezes, deparava-se com uma expressão brava que escondia um jeito meigo e um sorriso pronto. Prestativa e dedicada, tudo o que fazia girava em torno do bem-estar das três filhas pequenas, o centro da vida dela aos 25 anos. A descrição, guardada na memória da mãe, Rosimeri de Fátima Alves Vaz, contrasta com a madrugada em que a vida da jovem foi interrompida de forma definitiva. 

Naquele dia 1º de maio de 2025, o ex-companheiro de Inara, pai da filha mais nova, de apenas 3 anos, invadiu o apartamento da jovem usando uma cópia escondida da chave. Entre 2h e 3h, Inara fez uma chamada de vídeo para uma amiga, em um pedido desesperado de socorro. Na ligação, o pânico era nítido: se Inara caminhava até a sala para falar ao telefone, o agressor ia atrás; se recuava para a cozinha, ele a encurralava. A amiga implorou para que ela pegasse as crianças e saísse dali. Inara, inclusive, chegou a solicitar um motorista de aplicativo pelo celular para deixar o local. Porém, nunca conseguiu cruzar a porta.

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No apartamento de baixo, um vizinho ouviu os gritos. A jovem exigia o telefone de volta, indicando que o agressor havia retirado o telefone das mãos dela. “Me dá o meu celular e vai embora daqui! Eu não quero mais você na minha vida!”. A resposta do agressor foi curta: “Eu vou embora, mas eu não vou agora”. Segundos depois, o mesmo vizinho ouviu o barulho de algo pesado caindo no chão. Ninguém subiu. A convenção social de “não se meter em briga de casal” selou o destino da jovem. 

Às 4h30, o carro de aplicativo solicitado chegou em frente ao prédio, esperou por alguns minutos e, diante do silêncio, cancelou a corrida. A essa altura, Inara já estava morta.

A mulher foi estrangulada na frente da filha do casal, de apenas 3 anos, e morreu na casa em que morava em Jaraguá do Sul, no Norte catarinense. O homem carregou o corpo até a cama localizada no quarto das crianças. Trancou o apartamento, deixou a chave do lado de fora, em cima de um cooler de cerveja, e fugiu. 

Inara Karina Tribess tinha 25 anos

Rosimeri, que trabalhava no turno da madrugada em uma empresa têxtil e havia chegado em casa às 5h30min, só soube do ocorrido perto das 8h, por meio de uma mensagem de áudio enviada pela mãe do próprio agressor. Ao correr até o apartamento e abrir a porta, Rosimeri deparou-se com o fim do ciclo: “Fui em direção ao quarto das crianças, olhei na cama e ela estava lá, estrangulada. Foi a cena que eu não vou esquecer”

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A jovem de 25 anos e o agressor se conheceram em agosto de 2020, quando ela estava grávida da segunda filha, fruto de outro relacionamento. Segundo a mãe no início do namoro, o casal era de “dar inveja”, sem nenhuma briga ou atritos. 

— Quando eles foram morar sozinhos começou a briga, o ciúme, a bebedeira. Ela trabalhava. Ele começou a trabalhar registrado por um tempo, ai depois acabou pedindo demissão. Depois que começou a parte da perseguição, cada vez que chegava em casa era uma briga diferente. Teve um momento que ela estava com o braço roxo. Eu perguntei para ela direto: “o que você fez?” — conta. 

Para a mãe, Inara respondeu que tinha batido em um muro, mas na realidade o cenário era diferente. A jovem começou a ser perseguida no trabalho pelo então companheiro, que acreditava que ela estava o traindo. Quando ambos chegavam em casa, as brigas eram constantes e, muitas vezes, Inara era agredida. Em uma das vezes, o dente ficou mole devido às lesões. A mãe sugeriu que a filha procurasse a delegacia e registrasse um boletim de ocorrência. Não deu tempo.

— A partir do momento que você diz que você não quer mais a situação e você acaba deixando passar a medida protetiva ou o boletim de ocorrência, você está correndo perigo de vida com uma pessoa dentro da tua casa. Eu não me atentei aos sinais e com certeza ela também não — reflete a mãe. 

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Até Quando? Feminicídios: uma tragédia social

Até Quando? Feminicídios: uma tragédia social” é uma série especial com quatro reportagens produzida pela NSC. Os conteúdos, apurado ao longo de quatro meses, tem objetivo de provocar reflexão e contribuir para o enfrentamento da violência contra a mulher. Ao dar voz a vítimas, familiares e especialistas, a série busca não apenas informar, mas sensibilizar a sociedade e contribuir para a construção de caminhos que ajudem a interromper o ciclo da violência.

*Os nomes foram modificados para preservar a identidade da vítima.