Um explorador assíduo, ao transitar pelos bairros de Florianópolis em 2020, poderia encontrar pelo caminho mais de 500 orelhões. Ao fim de 2021, esse número caiu para 300. Em 2022, ele encontraria 261, enquanto em 2023 e 2024, seriam 177 e 173, respectivamente. Já em fevereiro de 2025, a atualização mais recente dos dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) sobre a quantidade de telefones públicos presentes na Capital mostra que a procura ficaria mais difícil: há somente 12 orelhões espalhados em regiões diferentes da Ilha de Santa Catarina.
Continua depois da publicidade
— Era muito comum a gente ir no Centro da cidade, e alguns lugares tinham uns três orelhões, um próximo do outro. E não raro acontecia, às vezes, de nenhum dos três funcionarem. E aí a gente ficava andando atrás de um — relembra, com carinho, Carlos Euclides Marques, de 61 anos, sobre a presença dos aparelhos na cidade onde nasceu e vive atualmente, Florianópolis.
O ano de 2026 marca o fim dos orelhões no Brasil. Os telefones públicos, que durante décadas foram quase indispensáveis para a comunicação da população, começaram a ser retirados das ruas após o fim das concessões do serviço de telefonia fixa no país às cinco empresas responsáveis pelos aparelhos — Algar, Claro, Oi, Sercomtel e Telefônica.
Ainda existem 38 mil aparelhos espalhados pelo Brasil, conforme os dados disponibilizados pela Anatel. A maior concentração está em São Paulo, com quase 28 mil . Bahia e Maranhão também contam com mais de mil unidades, enquanto Santa Catarina tem apenas 95 orelhões.
Fichas, cartões, ligações agendadas e “Bye, bye, Brasil“
Carlos Euclides Marques, morador do Campeche, no Sul da Ilha, tem até hoje um cartão telefônico que comprou há cerca de dois anos.
Continua depois da publicidade
— Meu celular estava com problemas, e eu precisava fazer uma ligação. Aí lembrei que existiam os orelhões, e ainda podia comprar o cartão. Acho que usei só uma vez, mas agora virou peça de museu — brinca o docente.

Ele também se recorda das fichas, que surgiram antes dos cartões telefônicos, popularizados somente nos anos 1990. Elas eram moedas metálicas inseridas nos orelhões para liberar chamadas, durando cerca de três minutos por unidade. Ao atender, a ficha caía no cofre, iniciando a cobrança. Elas podiam ser adquiridas somente em bancas de revistas e jornais físicos.
— A gente tinha que ser sucinto. Por exemplo, se você fazia uma ligação interurbana (chamada para um número com DDD diferente do seu), a ficha caía mais rápido, então você tinha que usar um número maior de fichas. Se a ligação fosse interestadual, ficava ainda mais complicado. Você tinha que economizar as fichas que tinha, e o “dinheirinho” para comprar a ficha. Às vezes, você estava falando e a ficha caía — conta.
Ao falar sobre os itens, Carlos recorda o refrão da música Bye, bye, Brasil, de 1980, do cantor brasileiro Chico Buarque, que fazia referência aos objetos que por muito tempo foram símbolo nacional.
Continua depois da publicidade
“Baby, bye, bye
Abraços na mãe e no pai
Eu acho que vou desligar
As fichas já vão terminar“
Outra prática comum da época em que os orelhões estavam no auge, segundo Carlos, era “agendar” ligações.
— Em alguns locais de Florianópolis, principalmente os bairros mais desprovidos, havia um orelhão na área mais central ou na esquina de uma rua principal do bairro. As pessoas marcavam o horário para ligar para aquele número, que era o número do orelhão. A gente tem a impressão de que ele não servia para receber chamadas, e sim como um telefone público para as pessoas ligarem para alguém. Mas isso acontecia — conta.
Santa Catarina ainda tem 94 orelhões, todos operados pela Oi
Em Santa Catarina, há, no total, 94 orelhões, todos operados pela Oi, conforme dados da Anatel. Do total no Estado, 65 aparelhos seguem ativos, enquanto 29 constam como “em manutenção”.
Continua depois da publicidade
Os orelhões devem ser retirados gradualmente ao longo de 2026, com prioridade para carcaças e aparelhos já desativados. Atualmente, mais de 33 mil orelhões ainda aparecem como ativos no Brasil, enquanto cerca de 4 mil estão classificados como “em manutenção”.
A extinção, porém, não será imediata em todos os locais. Em cidades onde não há cobertura de telefonia móvel ou outra opção de comunicação, as empresas ainda deverão manter o serviço por voz — inclusive por meio de orelhões — até 31 de dezembro de 2028, em regime privado.
De solução essencial a peça de memória urbana
Criados em 1971 pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira, os orelhões se tornaram um símbolo nacional. O design oval, pensado para melhorar a acústica e reduzir o ruído externo, fez com que o modelo brasileiro fosse replicado em outros países, como Peru, Angola, Moçambique e China.
Com a popularização dos celulares e da internet móvel, os aparelhos perderam função prática, mas não o valor simbólico. Recentemente, voltaram a ganhar destaque ao aparecer no cartaz do filme O Agente Secreto, indicado pelo Brasil ao Oscar 2026, reforçando o lugar do orelhão na memória coletiva.
Continua depois da publicidade







