Florianópolis é uma das únicas duas metrópoles brasileiras onde a extrema pobreza aumentou entre 2021 e 2024. O dado é do Boletim Desigualdade nas Metrópoles (edição nº 16), produzido pelo Observatório das Metrópoles, com base em microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A outra metrópole com piora no indicador é Fortaleza, no Ceará.
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De acordo com o levantamento, a extrema pobreza cresceu em Florianópolis, contrariando a tendência nacional. No conjunto das regiões metropolitanas brasileiras, a taxa caiu de 6,8% em 2021 para 3,3% em 2024 — o menor nível da série histórica.
No entanto, na capital catarinense, a curva seguiu no sentido oposto. Mesmo com essa alta, Florianópolis segue entre as metrópoles com menor proporção de pessoas vivendo na extrema pobreza, com taxa de 1,5% em 2024 — a terceira menor do país, ao lado de Porto Alegre, e atrás apenas do Distrito Federal e de Curitiba.
Pessoas em Situação de Extrema Pobreza – Regiões Metropolitanas do Brasil (%)
O que explica aumento da extrema pobreza na Capital?
Para Lauro Mattei, professor do departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), há três principais fatores que podem explicar a crescente da extrema pobreza em Florianópolis. A primeira é que, hoje, a capital catarinense está situada entre as cinco cidades com o metro quadrado mais caro do país:
— O tema da habitação é exemplar no contexto de desigualdade social, uma vez que uma imensa parcela da população, originária e de migrantes, não tem condições de sequer pagar os alugueis cada vez mais gritantes, o que torna cada vez mais distante o “sonho da casa própria” — explica Mattei.
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Outro aspecto que corrobora para o aumento da pobreza em Florianópolis, segundo o professor, é o custo da cesta básica da cidade, que atualmente tem é terceiro maior valor dentre as capitais do país, segundo a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, divulgada em outubro pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
— É um aspecto bastante contraditório e sem explicações objetivas, a não ser as especulativas. Florianópolis faz parte, há anos, das capitais com a cesta básica mais cara do país. Esse patamar intefere diretamente na qualidade de vida das camadas mais pobres da população.
Ainda segundo o professor, o sistema do mercado de trabalho da cidade afeta diretamente a renda dos moradores de Florianópolis.
— Há uma estrutura histórica fortemente marcada pelo papel dos serviços públicos, especialmente daqueles relativos à administração pública estadual. Neste caso, observa-se uma abissal diferença entre a média dos salários dos diversos setores do serviço público em relação aos salários médios do setor privado.
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Na cidade, está presente também um processo de informalidade de parte das relações trabalhistas que, historicamente, era marcado pela sazonalidade de atividades econômicas, especialmente as vinculadas ao macrossetor do turismo, de acordo com Mattei.
— Esse cenário foi agravado recentemente pelas novas formas de trabalhos via aplicativos que, em grande medida, sequer garantem um nível mínimo de rendimento com estabilidade. Basta conversar com alguns trabalhadores dessas diferentes formas atuais de prestação de serviços para ver a realidade que teima em contrastar com a ilusão do “empreendedor”.
“Desigualdade social medida pela renda está aumentando”
No recorte de desigualdade de renda, o boletim mostra que Florianópolis apresentou aumento no coeficiente de Gini entre 2021 e 2024 — o que significa um leve crescimento da desigualdade no período. Enquanto a média nacional caiu de 0,565 para 0,534, a capital catarinense esteve entre as poucas regiões metropolitanas que tiveram movimento contrário, junto de Curitiba, Grande São Luís e Vale do Rio Cuiabá.
Para Mattei, os dados reveleram aquilo que é perceptível por aqueles que querem ver a realidade para além do microscópio da narrativa dominante:
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— Por um lado, a região metropolitana de Florianópolis é aquela que apresentou o maior rendimento médio entre 2021-2024 dentre todas as metrópoles pesquisadas no país (de R$ 2.706,00 para R$ 3.508,00). Por outro, foi destaque dentre as regiões em que o Índice de Gini subiu. Isso significa que a desigualdade social medida pela renda está aumentando — pontua o professor.
No caso da pobreza, os números da região metropolitana de Florianópolis estão entre os melhores do Brasil. Em 2024, apenas 6,8% da população vivia com renda per capita inferior à linha de pobreza (R$ 692,54 mensais, segundo parâmetros do Banco Mundial). É o menor índice entre as 20 metrópoles analisadas.
Ainda, a renda média na região metropolitana de Florianópolis é uma das mais altas do país: R$ 2.475, valor que coloca a cidade entre as três metrópoles com maior rendimento médio, ao lado de Curitiba e Brasília. Entre os 40% mais pobres, a renda média chegou a R$ 1.088 — também a maior entre todas as regiões metropolitanas brasileiras.
Os pesquisadores responsáveis pelo Observatório das Metrópoles atribuem a redução geral da pobreza no país à melhora do mercado de trabalho e ao impacto de programas de transferência de renda, mas destacam que o aumento da extrema pobreza em Florianópolis merece atenção por indicar que parte da população segue excluída dos ganhos recentes: “Apesar de ser uma das capitais mais ricas e com melhor qualidade de vida, Florianópolis convive com desigualdades persistentes, sobretudo entre bairros centrais e periféricos”, afirma o boletim.
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Procurada pelo NSC Total sobre o assunto, a Prefeitura de Florianópolis emitiu uma nota:
“A Prefeitura informa que deve-se considerar que os indicadores estão sujeitos a influências migratórias e conjunturais. Nos últimos anos, a cidade se tornou um dos principais destinos de migração do Brasil, podendo ter impacto em certo grau no resultado, uma vez que neste movimento muda-se o local de domicílio, mas o processo de aumento de geração de renda se devolve de forma gradual. Por outro lado, vale observar que, a partir dos dados, vê-se um aumento das taxas coincidentemente um ano após o início da pandemia de Covid-19, crise que trouxe desafios econômicos globais, com impactos ainda sendo mensurados.
Apesar disso, cabe destacar ainda que Florianópolis aparece liderando o ranking de renda média das metrópoles e está entre as cinco com menor disparidade de rendimentos, um indicador do potencial de ascensão e justiça social proporcionado no município. São incentivadas e realizadas diversas ações de qualificação profissional, inclusão produtiva, apoio a empreendedores e geração de renda, além de prestado todo o suporte para essa população através da estrutura de proteção social, programas de habitação e demais políticas com foco na melhoria da qualidade de vida.”
*Sob supervisão de Giovanna Pacheco
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