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    Paleontologia

    Fóssil de escorpião que viveu antes dos dinossauros é encontrado em Canoinhas

    Pesquisa revela que espécie mais antiga da América Latina habitou a região na época da Pangeia, quando todos os continentes do mundo eram unificados

    27/08/2020 - 05h00

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    Patrícia
    Por Patrícia Della Justina
    Ilustração feita pelo pesquisador Ariel Martine mostra escorpião em seu habitat há 260 milhões de anos
    Ilustração feita pelo pesquisador Ariel Martine mostra escorpião em seu habitat há 260 milhões de anos
    (Foto: )

    Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo, localizaram o fóssil mais antigo de escorpião da América Latina em Canoinhas, no Norte de Santa Catarina. Ele também é o segundo mais antigo do hemisfério Sul da Terra. 

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    O fóssil foi encontrado em 2005, quando paleontologistas exploravam a região em busca de uma espécie extinta de conífera, semelhante a um pinheiro. Só que eles não viram que, em meio às amostras, estava simplesmente o fóssil de um artrópode de 260 milhões de anos, mais antigo até mesmo do que os dinossauros. 

    Ele foi estudado apenas dez anos depois e inspirou o artigo publicado em 2020 em um jornal científico internacional. Durante 2015, o professor doutor Ariel Milani Martine retirou o material do laboratório da universidade para estudá-lo durante seu doutorado. Ele foi o principal dentre os autores brasileiros da publicação científica que descreve o exemplar no Journal of South American Earth Sciences.  

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    Frésia Branco e pesquisadores durante coleta de amostras em 2005
    Frésia Branco e pesquisadores durante coleta de amostras em 2005
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    O material foi encontrado pela paleobotânica Frésia Ricardi Branco há 15 anos. A professora e especialista em plantas fósseis parou o carro às margens da BR-280, próximo à divisa entre Canoinhas com o Paraná. Uma semana depois, quando já havia retornado à universidade em Campinas, um dos alunos de Frésia percebeu os vestígios de um escorpião preservados em uma rocha. 

    Foi possível identificar apenas a parte inferior do corpo do artrópode e, possivelmente, a outra parte ficou no local de onde foi retirado. O fóssil foi destinado ao arquivo de coleção da universidade e lá permaneceu por dez anos sem ser estudado.

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    Antes dos dinossauros

    Fóssil do escorpião Suraju itayma, o mais antigo da América Latina
    Fóssil do escorpião Suraju itayma, o mais antigo da América Latina
    (Foto: )

    O professor Ariel conta que durante o período no qual o escorpião viveu, entre 260 e 270 milhões de anos atrás, os continentes do planeta estavam todos unificados na chamada Pangeia. O período corresponde ao fim da era geológica denominada Paleozoico. 

    Conforme o professor, a nova espécie de escorpião, que recebeu o nome científico de Suraju itayma, é a mais antiga da América Latina e a segunda mais antiga do hemisfério Sul da Terra. 

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    Antes dela, está a espécie batizada de Gondwanascorpio emzantsiensis, que foi localizada em 2013 na África do Sul e viveu na Terra há cerca de 360 milhões de anos. 

    O escorpião encontrado em terras catarinenses já existia antes mesmo do aparecimento dos dinossauros, que só surgiram depois, há cerca de 225 milhões de anos.

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    - Depois do Suraju, o mais próximo que temos é algo em torno de 100 e 110 milhões de anos, encontrado, inclusive, no Brasil, no Ceará. Mas o Suraju com certeza é o mais antigo da América Latina e acho difícil achar um mais antigo que ele, pelo menos por enquanto - afirma.

    O professor também explica que, atualmente, os estudos são divididos entre biota (conjuntos de animais, plantas e demais seres vivos) do hemisfério Sul, chamada Gondwana, e do hemisfério Norte, chamada Laurásia, considerando a unificação dos continentes que formava a Pangeia. 

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    - Na região da Gondwana, o animal encontrado em Santa Catarina é o segundo mais antigo, atrás apenas do localizado na África do Sul. Ao que tudo indica, os escorpiões surgiram no hemisfério Norte, por isso lá há mais registros muito mais antigos. A grande novidade está na parte Sul - acrescenta. 

    Ilustração mostra formação dos continentes a partir da Pangeia
    Ilustração mostra formação dos continentes a partir da Pangeia
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    Ainda conforme Ariel, o nome Suraju itayma é de origem indígena. Suraju deriva do Tupi e é a forma como eles chamavam os escorpiões. Já o termo "itá" remete à "pedra" e "yma" a "algo do passado remoto", o que levaria o nome científico ao significado de "escorpião da rocha antiga".  

    Características que o diferenciam mundialmente 

    Conforme o pesquisador Ariel, a parte preservada do fóssil corresponde à região inferior do abdome do artrópode. Dentre as principais características que o diferenciam de outras, e que, inclusive, são premissas para identificá-lo enquanto uma nova espécie, estão o seu tamanho (cerca de apenas quatro centímetros), hábitos francamente terrestres e a dimensão do aguilhão, que seria o ferrão na "cauda". Algumas dessas características também o diferenciam mundialmente.  

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    - Na região da "barriga" dele a gente encontra estigmas respiratórios, que são espécies de buraquinhos para respirar e indicam um hábito totalmente terrestre, diferente de outras espécies da mesma época e também mais antigas, as quais possuíam fendas na barriga semelhantes a brânquias que caracterizam hábitos aquáticos. Dentre os escorpiões modernos, o Suraju talvez seja um dos representantes mais antigos a ter essas características, e isso a nível mundial. Além disso, essa espécie é a que tem o menor ferrão de todos os existentes, o que nos leva a crer que nem usasse o veneno para abater presas. Talvez seja apenas um ferrão vestigial e ele usasse as pinças da frente para abater presas pequenas - explica.  

    Região de Canoinhas na época da Pangeia

    Conforme o pesquisador, o Sul do Brasil passou por eventos geológicos muito diferentes do que se imagina, como até mesmo glaciações, que são as eras de gelo. Ele explica que, quando o escorpião viveu na região de Canoinhas, o ambiente era árido, com pouca incidência de chuva, seco e com ambientes espaçados com espécies de pinheiros. 

    Como ocorre em toda a região mais quente, quando há chuva, eventualmente, elas acabam lavando a planície. A região possuía algo semelhante a lagos, os chamados corpos da água, que secavam em algumas épocas do ano e acumulavam sal em suas bordas. Todo esse material, como carcaça de escorpiões e dos pinheiros, era depositado em sedimentos ao fundo dos corpos da água após serem levados pela chuva. 

    - Depois acabou virando rocha e transformando em fóssil o material depositado em meio ao sedimento - acrescenta. 

    O pesquisador ilustrou a possível região de Canoinhas da época, onde o escorpião vivia. Em primeiro plano está o artrópode. Na sequência da imagem, estão as árvores onde eles deveriam viver em meio ao substrato e, ao fundo, a tempestade mostra o evento de inundação que se aproxima.    

    Ilustração feita pelo pesquisador
    Ilustração feita pelo pesquisador
    (Foto: )

    Ariel ainda pontua que a característica de ambiente árido é percebida até hoje nas regiões onde vivem os escorpiões. 

    - Esses escorpiões mais antigos, principalmente no hemisfério Norte, tinham hábitos aquáticos e todos se fossilizaram em regiões litorâneas ou pantanosas. Essa é a diferença desse nosso bicho, porque ele abandonou o ambiente aquático e vivia na região desértica, o que é pouco comum para escorpiões dessa época. É comum para escorpiões atuais. Por isso, acredito que, talvez, ele seja um dos primeiros representantes da biota atual de escorpiões, inclusive no formato do corpo - ressalta. 

    Pesquisa contribui para história evolutiva 

    O pesquisador ressalta que a contribuição de uma achado como esse está em conhecer o passado, especialmente para moradores da região. 

    - Isso prova que, ao longo do tempo, o ambiente vai se alterando, fruto de fenômenos naturais os quais geraram extinções no passado e podem gerar hoje também. Só que, atualmente, as mudanças ambientais são causadas por nossa interferência - alerta. 

    Para ele, a pesquisa também contribui para a história evolutiva dos escorpiões, que fazem parte de um dos grupos mais antigos de invertebrados terrestres. 

    - Quando falamos que o formato desses bichos depois do Sufraju mudou muito pouco, isso é uma prova de sucesso evolutivo. Ele acabou tendo uma morfologia muito plástica e se adequa a vários ambientes e situações. É difícil de organismos alcançarem isso - destaca. 

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