Os catarinenses costumam associar o aumento das doenças respiratórias às geadas de junho, mas os números de casos de influenza mostram que, em 2026, o vírus não esperou o casaco sair do armário. Os dados mais recentes da Diretoria de Vigilância Epidemiológica (DIVE/SC) confirmam: a gripe chegou mais cedo e com uma agressividade que não víamos há temporadas.
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A análise das Semanas Epidemiológicas (SE) revela um cenário atípico. Enquanto em anos anteriores o crescimento da curva de Influenza ocorria a partir da SE 15, em 2026 o salto nas internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) começou já na SE 05, ainda em pleno fevereiro.
Até o fechamento do boletim de março, Santa Catarina já registrava um volume de casos de Influenza A superior ao dobro do mesmo período do ano passado. Até o início de fevereiro, o estado já contabilizava 6 óbitos por Influenza, evidenciando que o vírus circulante não é apenas rápido, mas letal para os grupos de risco.
O grande protagonista desse fenômeno é a “Gripe K”. Trata-se de uma mutação do vírus Influenza A (H3N2) que começou a ser detectada no Brasil no final de 2025, mais precisamente no final de novembro e dezembro de 2025, a SES/SC já monitorava pelo menos 17 casos confirmados em seis municípios catarinenses.
O problema é que, por ser uma variante com mutações específicas na proteína de superfície, ela encontrou uma população com baixa imunidade residual. O vírus não esperou as temperaturas caírem, e aproveitou a alta circulação de pessoas entre o final de 2025 e o início de 2026 para se estabelecer em solo catarinense.
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Os números da DIVE são claros sobre o impacto dessa antecipação. O estado já contabiliza óbitos precoces em regiões como o Vale do Itajaí e a Grande Florianópolis, com uma concentração preocupante em dois extremos da vida: crianças menores de cinco anos que representam aproximadamente 36,9% dos casos de SRAG por Influenza, e osidosos maiores de 60 anos, que somam 40% das internações graves.
Atualmente, a Influenza já é responsável por cerca de 22% de todas as hospitalizações respiratórias graves no estado, um índice que normalmente só atingiríamos em maio.
Diferente do resfriado comum, que se manifesta de forma gradual e leve, a Cepa K da Influenza A (H3N2) tem se mostrado uma “invasora” abrupta. O paciente costuma relatar o exato momento em que os sintomas começaram: uma febre súbita, geralmente acima dos 38,5°C, acompanhada de uma prostração tão intensa que o simples ato de levantar da cama se torna um desafio. É a chamada “gripe derrubadora”.
O que a diferencia das cepas anteriores é a velocidade com que os sintomas sistêmicos dominam o organismo. Além da dor de garganta aguda e da tosse seca, as dores musculares e articulares são marcantes, criando uma sensação de esgotamento físico profundo.
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Em crianças e idosos, os grupos que os dados da DIVE/SC apontam como os mais vulneráveis nesta temporada, a variante tem apresentado também sinais gastrointestinais, como náuseas e episódios de vômito, o que pode mascarar o diagnóstico inicial.
No entanto, o maior perigo reside na rapidez com que o quadro pode evoluir para a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Como os sintomas da Gripe K se sobrepõem aos de outras variantes e até mesmo da Covid-19, o diagnóstico clínico tornou-se um desafio para os médicos neste início de 2026.
A recomendação da vigilância epidemiológica é clara: não subestime o que parece ser “apenas uma gripe”. Em um ano onde o vírus se antecipou ao inverno, o tempo entre os primeiros sintomas e o início do tratamento antiviral é o que define, na maioria das vezes, o desfecho do quadro clínico.
Essa mudança no comportamento viral, portanto, exige muita atenção e a necessidade de uma mudança de postura na prevenção. A “Gripe K” provou que o vírus não respeita as estações do ano. Afinal a circulação viral iniciou em pleno verão catarinense em dezembro de 2025.
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Se a circulação viral já está consolidada desde então, e ganhou força nestas primeiras semanas de 2026, a vacinação e a etiqueta respiratória deixam de ser precauções de inverno para se tornarem urgências imediatas.
Santa Catarina está diante de um desafio epidemiológico novo. Seguimos.
Quem são os grupos prioritários para vacinação contra a gripe?
Por Sabrina Sabino, médica infectologista, formada em Medicina pela PUCRS, mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora de Doenças Infecciosas na Universidade Regional de Blumenau.






