O processo que investiga a suposta fraude na contratação da empresa que administra a Passarela da Cidadania, em Florianópolis, revela conversas entre os investigados e detalhes sobre como eles teriam atuado. O documento com mais de 1 mil páginas foi obtido com exclusividade pelo Jornal do Almoço, da NSC TV.

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Os crimes apurados pela Polícia Civil são de tráfico de influência, falsidade ideológica e organização criminosa. O contrato sob apuração foi firmado em 2025 com a Associação Alberto de Souza e tem valor de mais de R$ 3 milhões.

Os documentos indicam que o coordenador geral da associação e ex-secretário de Assistência Social de Florianópolis, Leandro Lima, seria o principal articulador do esquema.

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Mensagens trocadas pelos investigados antes do contrato são reveladas no processo. Em um dos diálogos, Leandro Lima fala ao presidente da organização social, Cristian Fernando Santiani, que eles precisariam “planejar alguma coisa para ganhar um dinheiro”, e combinar “os nossos projetos”. Segundo a investigação, a partir daquele momento a associação Alberto de Souza teria sido colocada à disposição de Leandro Lima.

Amizade de longa data

Segundo a investigação, Leandro e Cristian seriam amigos há muito tempo. Em uma conversa ocorrida em um grupo de mensagens em 2021, Cristiano afirma que Leandro seria “um amigo de longa data”. Em resposta, outro integrante do grupo afirma que longa data seria “da época que eles atravessavam a fronteira pra fazer Business [negócios, em inglês]”, e completa afirmando que Leandro seria “o professor de malandragem dele”. Cristian responde afirmando: “Por aí kkkkk”.

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Em 2025, Leandro Lima foi nomeado coordenador-geral da associação Alberto de Souza, que tem Cristian como presidente. Segundo a Polícia Civil, Leandro e uma funcionária da organização tomariam as decisões da entidade e somente comunicariam Cristian. Para a Polícia Civil de SC, é “peculiar que o presidente de fato da entidade fosse apenas notificado, sem aparente participação nas deliberações”.

Ainda de acordo com a apuração da Polícia Civil, o ex-secretário-adjunto de Leandro Lima e também ex-secretário da Assistência Social da Capital, Anível Julian Curti Gonzalez, seria a ligação de Leandro com as questões administrativas da prefeitura da Capital. Aníbal também é investigado e já teria atuado com Leandro Lima em diferentes órgãos públicos.

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Conforme a investigação, “Aníbal teria mantido canal de interlocução privilegiada com Leandro, compartilhando informações internas, debatendo projetos da assistência social, tratando contrapropostas da organização anterior e contribuindo para a ocupação de espaços administrativos por pessoas alinhadas ao grupo”.

Ex-secretária teria facilitado pareceres

Outra pessoa investigada é a ex-secretária municipal de Licitações, Katherine Schreiner. Segundo a polícia, ela seria responsável por facilitar a emissão de pareceres técnicos necessários para a aprovação do contrato. Os documentos afirmariam que a Associação Alberto de Souza tinha “estrutura funcional adequada” e também ajudariam a afastar outros concorrentes.

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Uma testemunha teria afirmado à investigação, inclusive, que a “Associação Alberto de Souza não possui qualquer estrutura física, tampouco colaboradores, sendo que o endereço de sua sede corresponde ao mesmo local do domicílio de Cristian”.

A reportagem da NSC TV esteve na atual sede da associação, mas não localizou ninguém na sala comercial. Vizinhos afirmaram que a sala está quase sempre fechada e que já foram informados que as correspondências poderiam ser encaminhadas para a Passarela da Cidadania.

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Secretário-adjunto firmou contratos

Durante o período investigado, o então secretário-adjunto Aníbal foi autorizado a celebrar contratos, licitações e termos de parcerias firmados pela Secretaria de Assistência Social. No mesmo dia em que foi autorizado, em maio de 2025, ele firmou um termo de colaboração da Passarela da Cidadania com a Associação Alberto de Souza. Três dias depois, foi firmado um contrato de 90 dias no valor de R$ 3,3 milhões — é este documento que está no alvo da investigação da Polícia Civil.

Atualmente, a entidade ainda administra a Passarela da Cidadania por meio de um novo contrato, de aproximadamente R$ 21 milhões por ano, mas este acordo não é alvo da investigação.

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O coordenador-geral da Associação, Leandro Lima, o presidente Cristian Santiani e a própria sede da Associação Alberto de Souza foram alvos de busca e apreensão na operação Backstage. Eles foram afastados das funções.

Aníbal Gonzalez e Katherine Schreiner, que também foram alvos de busca e apreensão, permanecem em cargos na Prefeitura de Florianópolis.

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O que dizem os investigados

A reportagem da NSC TV procurou, mas não localizou a defesa de Leandro Lima, ex-secretário de Assistência Social da Capital e coordenador afastado da Associação Alberto de Souza.

Em nota, a defesa de Cristian Fernando Santiani, presidente da Associação Alberto de Souza, afirma que “os fatos divulgados apresentam apenas um recorte dos acontecimentos e não há elementos que vinculem Cristian à prática das irregularidades investigadas”. A defesa de Cristian diz que “confia no esclarecimento dos fatos e na inocência de Cristian”.

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A defesa de Katherine Schreiner, secretária de Licitações, Contratos e Parcerias da Capital, disse em nota que “aguarda a conclusão da análise integral dos autos e afirma que, até o momento, não há qualquer elemento que desabone a conduta funcional da servidora ou que demonstre atuação dolosa ou voltada à prática de qualquer irregularidade”.

Também em nota, a defesa de Aníbal Julián Curti González informa que “recebeu com serenidade o cumprimento das medidas determinadas no âmbito da investigação e prestará todos os esclarecimentos que se fizerem necessários”.

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E que “na condição de secretário-adjunto à época dos fatos, sua participação limitou-se ao exercício das atribuições que lhe foram delegadas pelo então secretário”.

A prefeitura de Florianópolis afirmou em nota que “assim que teve acesso ao processo que motivou as buscas, comprovou que a justiça não autorizou o afastamento de servidores municipais, ao contrário do que foi noticiado”. A nota afirma ainda que “a Controladoria-Geral do Município também identificou que não há qualquer indício de irregularidades na conduta dos processos internos”. O município também alegou que “encaminhará ao Ministério Público toda a documentação referente ao processo de contratação emergencial da Passarela da Cidadania”.

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A defesa da Associação Alberto de Souza não foi localizada.